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Flávia Barbosa | DACS | 5 Mar 2016
Nova Ágora: Família, Educação para os Direitos e Tolerância
António Guterres, Laborinho Lúcio, Marçal Grilo e Fátima Campos Ferreira levaram cerca de mil pessoas ao Grande Auditório do Parque de Exposições de Braga.
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Os “Olhares sobre... a Educação” decorreram ontem, sexta-feira, e lotaram por completo o Grande Auditório do Parque de Exposições de Braga (PEB). Foram perto de mil as pessoas que assistiram à troca de ideias e reflexões entre António Guterres, Laborinho Lúcio e Marçal Grilo, precedida pela actuação do Coro Manuel Giesteira, que encantou por completo a vasta audiência. A moderar o debate esteve a jornalista Fátima Campos Ferreira. A Arquidiocese de Braga já tinha justificado a mudança de instalações com o “aumento exponencial de inscrições”, mas confirmou entretanto que “a noite superou todas as expectativas”.

Marçal Grilo: "Teorias do «achismo» são prejudiciais ao progresso de Portugal"

O ex-Ministro da Educação começou a sua intervenção agradecendo à Arquidiocese de Braga o convite e confessando que foi um "privilégio" participar na Nova Ágora. Marçal Grilo optou por caracterizar e contextualizar o estado do país antes de manifestar o seu olhar sobre a educação.

“É um lugar comum dizer-se que o país vive uma crise, em que está confrontado com problemas muito complexos, para os quais ainda não se encontrou caminho para uma qualquer solução traduzida em resultados concretos, perceptíveis para a maioria dos cidadãos. Temos que reconhecer que é verdade, nos últimos anos e em particular a partir do momento em que a profunda crise que abalou o mundo da Europa a partir dos anos de 2007/2008, Portugal parece ter entrado numa fase de grande turbulência, em que as forças políticas e os agentes económicos tardam a encontrar  um caminho para o desenvolvimento do país", adiantou.

Marçal Grilo não poupou críticas a acordos políticos e posições que têm ocupado "a esfera comum" nos últimos anos, frisando que o confronto não é capaz de levar a soluções.

"Vimos que nos últimos tempos, em vez do diálogo construtivo que todos aguardávamos, se contrapuseram confrontos inúteis e desnecessários, que a nada conduziram. Quando o país mais necessita de entendimentos e compromissos entre diferentes posições quanto ao como e o que fazer, assistimos ao extremar de argumentos que levam à divergência, ao afastamento, à perda de tempo e ao desperdício de oportunidades quanto à trajectória que nos possa levar a soluções de problemas com que somos confrontados", frisou.

De acordo com o ex-ministro, o país necessita de uma estabilidade política que se deve ser traduzida não apenas pelo cumprimento das legislaturas por parte dos governos, mas também pelo estabelecimento de compromissos relativamente a algumas políticas públicas, sobretudo em áreas sensíveis, que não devem estar sujeitas de quatro em quatro anos a alterações significativas que ponham em causa aspectos essenciais que afectam a vida das pessoas e das instituições.

"Defendo hoje, como defendi há 20 anos, a necessidade de se estabelecer  um acordo a médio prazo entre partidos políticos, organizações sindicais, associações, organizações de jovens e estudantes. Acordo esse que consagre algumas linhas de actuação que permitam um desenvolvimento harmónico para o sector, apoiado em resoluções e objectivos claros, resultantes de uma negociação alargada, em que cada um se reveja, tendo em vista o interesse do país, em detrimento dos interesses específicos que cada um representa".

Marçal Grilo explicou ainda que a ausência de acordo tem levado o país a soluções de curta duração, adoptadas por quem fazer crer a cada instante que a fórmula que existia para resolver determinado problema estava errada, e que o que importa é fazer diferente para o futuro, sendo que o diferente é sempre garantia de solução mágica e definitiva para o problema em causa. Os curricula, o programa, os métodos de avaliação, os sistemas de colocação de professores, a descentralização e delegação de competências e os níveis de autonomia das escolas foram alguns dos argumentos utilizados para explicar o ponto de vista do ex-ministro da Educação.

O ex-ministro e professor admitiu que seria impossível abordar todas as questões relevantes para o sector educativo durante a sua intervenção, mas manifestou algumas preocupações.

"A primeira relaciona-se com a importância e prioridade que devem ser atribuídas à educação e formação dos mais jovens. O desenvolvimento económico, cultural e social de uma sociedade moderna está, nos dias de hoje, intimamente relacionado com as capacidades, conhecimentos e atitudes que cada um tem perante a vida e perante os desafios que tem que enfrentar. Não basta que um país ou região tenham recursos humanos qualificados. Há muitos outros factores que condicionam o seu desenvolvimento, desde a estabilidade política e equilíbrio das contas do Estado, passando pelos sistemas de justiça, pelos regimes fiscais, por sistemas de financiamento robustos ou pela existência de infraestruturas básicas. Mas também sabemos que se não se dispuser de novas gerações qualificadas e dinâmicas, capazes de inovar e de criar novas oportunidades em termos de novos produtos e serviços, também não se conseguem criar as condições que favorecem a criação de riqueza, de emprego, o aumento das exportações, e a melhoria das condições de vida."

Ainda assim, sublinhou que a importância da educação não deve ser prioridade apenas para as políticas públicas, devendo antes ser uma preocupação de todos: "desde logo, no seio da família", em particular dos pais, que são os primeiros responsáveis pela educação dos seus filhos.

"Tende-se a olhar para a escola quando se fala da educação, mas é em casa, no ambiente familiar que importa actuar. Para os pais, educar não deve ser apenas proporcionar a aprendizagem que a escola ensina, mas também orientar, dar o exemplo e mostrar o caminho dentro dos valores que devem presidir à formação antes de se entrar na idade adulta. Os pais não têm que dar aulas de matemática, português ou ciências. Mas têm o dever de ajudar os seus filhos a construir a sua própria trajectória, assumindo por inteiro as responsabilidades que lhes cabem. Os pais não são os companheiros ou amigos dos seus filhos, são educadores, não podem demitir-se da função por vezes ingrata de saber dizer «não». Mobilizar os pais para estas tarefas deve ser uma prioridade de todos nós". 

Na segunda fase da sua intervenção, os professores e o processo educativo da escola estiveram em destaque. "Sem professores devidamente mobilizados para o cumprimento das suas funções, não haverá uma escola devidamente capaz de cumprir com os seus objectivos. Se não houver professores motivados, a escola acabará por falhar relativamente ao ensino que pratica e sobretudo por parte das aprendizagens de todos os estudantes que a frequentam", advertiu.

Sobre a motivação dos professores, Marçal Grilo falou ainda uma cultura de exigência que, a começar no momento certo, pode colher frutos no futuro. "Dois factores relevantes no que diz respeito à motivação de professores: a consolidação de uma cultura de exigência, tanto no âmbito escolar como familiar e o papel da educação pré-escolar. Isto não se traduz apenas na realização de testes, exames, ou provas de aferição, a exigência é uma forma de educar que começa por ser uma forma de relacionamento entre pais e filhos, que se prolonga na escola na relação entre professores e alunos e que termina como elemento essencial que cada um deve assumir perante si próprio."

O orador referiu ainda que a cultura do país é de irreflexão, onde grandes temas são tratados com superficialidade e em que sem qualquer base se dão opiniões e que se formulam certezas sobre qualquer matéria.  A falta de tempo e de hábitos foram dois dos entraves apontados para o sucesso dos estudantes, que devem saber ouvir, reflectir, duvidar, relacionar ou finalmente, concluir.

Segundo Marçal, "os baixos níveis de leitura por parte de alguma parte da população com o papel da comunicação social, em especial as televisões que fazem e desfazem notícias à medida das audiências e falta de tempo, até para pensar e meditar. Aqui a escola pode ter papel crucial, incutindo bons hábitos aos estudantes como o Só assim se podem emitir opiniões ou assumir posições devidamente fundamentadas. Isto é um entrave ao apresentar de soluções que o país precisa."

O ex-Ministro justificou a afirmação dizendo que as teorias do «achismo» que caracterizam o debate em Portugal são prejudiciais ao progresso do país e que o incentivo à leitura é uma forma de contornar esses aspectos, seja em papel, tablets ou ipads.

"Se me perguntarem quais são os grandes objectivos de um ensino numa escola, arrisco-me a dizer que um dos mais relevantes passa por tornar todos os estudantes grandes leitores como alguém que lê, que entende e que correlaciona o que lê com os conteúdos que contém."

O professor deixou ainda uma mensagem de esperança para o futuro, dizendo que está convicto de que a escola tem condições para abandonar o fundo da tabela em que Portugal se tem visto. "O país vive tempos difíceis, mas dispõe das condições e dos meios que lhe permitem olhar para o futuro com a esperança que, por vezes, parece ter-nos abandonado", concluiu.

 

Álvaro Laborinho Lúcio: "Não seria bom educar para os direitos?" 

Laborinho começou por dizer admitir uma visão partilhada com a de Marçal Grilo, incluindo a parte da esperança.

O ex-ministro da Justiça citou o Papa Francisco, dizendo que se torna necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores.

"O professor Marçal Grilo trouxe-nos a educação vista de cima para baixo, eu iria agora tentar fazer o inverso, apresentá-la de baixo para cima, partindo das crianças. Quem disse que as crianças não podem ser educadas para o conhecimento porque para isso seria necessário um conhecimento que elas não têm, pelo menos um que seja capaz de proporcionar um pensamento crítico... Bom, não discuto, mas discuto o conhecimento que quem o diz tem sobre as crianças. É porque provavelmente não terá tido filhos daqueles que incomodam durante a noite, ainda no berço, justamente porque afirmam o seu conhecimento e, ao mesmo tempo, exprimem o seu pensamento crítico", ironizou.

A comunicação do Juiz Conselheiro Jubilado foi pautada por muitos momentos de boa disposição mas, ao mesmo tempo, não deixou de tocar em temas sensíveis e sérios, como os direitos das crianças, que explicou a partir da convenção das Nações Unidas. 

"A convenção existe, está ratificada por Portugal, é lei para todos nós, e a partir dela, a criança é um sujeito de direito. Tem o direito à não discriminação, a ser tratada com igualdade, direito universal. Tem também direito à participação, a ter voz, a ser ouvida. E, por fim, tem o direito de a todas as decisões que a ela digam respeito, representarem o direito do superior interesse da criança. Daqui resultam mais dois direitos concretos, à educação e ao ensino, o que nos remete para a distinção para a educação e a escola", explicou.

Laborinho Lúcio falou ainda dos "direitos novos de uma cidadania moderna", um deles o de cada um exercer o máximo das suas capacidades intelectuais de forma a participar activamente na vida pública, na vida política, económica, social e cultural.

"Um objectivo fundamental da escola pública numa sociedade democrática e moderna é o de garantir a inclusão universal das crianças, isto é, de todas e de cada uma das crianças no interior da própria escola. Aqui entramos na distinção entre massificação do ensino e democratização. A massificação é um bem, está garantido entre nós e por isso podemos garantir que é palavra de ordem «todos para a escola». Mas não está ainda garantido dar resposta de uma escola para todos, que garanta que não só estão na escola, como lá pertencem por si próprios, individualmente".

Antes de falar dos objectivos do ensino, o ex-ministro tentou analisar o seu contexto, explicando que por muito justo que seja o "discurso dos deveres das famílias", muitos núcleos familiares não possuem hoje capacidade de compromisso para com a escola e, consequentemente, da possibilidade do cumprimento dessas mesmas obrigações. "Não podemos esperar que as famílias se reorganizem porque quando as crianças tiverem as famílias com condições para as acudir, se o ensino militar for obrigatório, já estarão na tropa por essa altura", gracejou. 

Sobre os objectivos, insistiu não valer a pena continuar com a disputa dicotómica no sentido de saber se a educação e a escola devem ser instrumentos para o desenvolvimento económico, ou, em alternativa, instrumentos para a cidadania. "Têm que ser as duas coisas! É fundamental que a escola contribua para o desígnio de saber pensar, de saber escolher e para ensinar a fazer."

 

As avaliações não foram deixadas de fora, e aquilo que o orador tinha previsto que incendiasse os ânimos no PEB, foi antes alvo de uma forte salva de palmas e ovação.

"Os exames geram metástases complicadas que se chamam testes. Mas não falemos dos testes... Agora, francamente, testes de diagnóstico no primeiro dia de aulas? Isto não é inconstitucional? E diagnóstico para quê? Que a escola diagnostique, tudo bem, mas pelo menos que diagnostique as crianças a partir das suas competências positivas e não pelas negativas. Por isso é que a norma tem que ser diversificada e não pode ser a mesma para todos, no mesmo momento e à mesma hora", explicou.

Laborinho Lúcio concluiu a intervenção dizendo que na base da escola para o pensamento só podem existir valores simultâneos como a autonomia e a solidariedade. "O Papa Francisco ensina-nos isso tudo quando diz que solidariedade significa muito mais do que alguns actos esporádicos de generosidade. Supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação de bens por parte de alguns. Só no outro é que cada um transmite o máximo de si, é essa a ideia que é necessário transmitir ao máximo na escola. A escola só ensina solidariedade se for um espaço solidário. A criança percebe este tipo de valores através do exemplo dado", referiu.

O Juiz Jubilado referiu ainda que um dos problemas de hoje em dia nas escolas é "haver pais a mais e pais a menos. Há muitas crianças que «não têm pais» nenhuns, ainda que os tenham e tenham família, mas não têm pais que estejam na escola. Estas são crianças sem representação, são crianças que não são ouvidas, não participam, não atingem o máximo da sua plenitude. Seria interessante para as Associações de Pais, por exemplo, terem «pais sociais», que representassem crianças que não têm quem as represente".

Educar para os direitos foi a sugestão dada à plateia que, depois de vinte minutos, ainda ouvia Laborinho Lúcio atentamente. "Não quer dizer que não se eduque para os deveres. Educar para os direitos é educar para os direitos do outro, não é educar para os próprios direitos. E na medida em que educarmos para esses mesmo, podemos ter nos direitos um instrumento de convivência social.... Pergunto se não é esse o caminho da educação e se não seria bom um dia termos uma escola tendo como desígnio fundamental os direitos do outro, tendo como garantia que assim teríamos respeitados os direitos de cada um", concluiu.

 

António Guterres: “É urgente educar para a tolerância e solidariedade"

O ex-Primeiro-Ministro apresentou-se muito bem-disposto no PEB, brincando e dizendo que, devido a uma constipação e à pertinência das apresentações anteriores, a assistência iria ficar desiludida com a sua comunicação.

"Num país como Portugal a educação tem que ser prioridade absoluta de qualquer projecto político e de qualquer estratégia de desenvolvimento. A educação, a formação, a ciência e a cultura são uma condição absolutamente indispensável para que Portugal possa vencer o seu atraso estrutural e os desafios que lhe são expostos de uma forma particularmente dramática. Mas não estou convencido que esta convicção seja partilhada pela maioria dos portugueses e pela generalidade da nossa sociedade", começou por dizer António Guterres.

O engenheiro fez de seguida uma viagem pelo tempo, onde revelou dados de um estudo realizado há 21 anos que o surpreenderam pelo facto de a educação ocupar o terceiro ou quarto lugar nas prioridades dos portugueses em relação às políticas sociais, atrás da saúde, da segurança social, e, por vezes, da habitação.  

"Penso que mudou muita coisa na sociedade portuguesa entretanto, mas continuo convencido que os portugueses não dão, ainda, suficiente prioridade e não têm suficiente exigência em relação aos poderes públicos, às instituições, em matéria de educação. No entanto, é absolutamente evidente que os casos no mundo de países que foram capazes de vencer o atraso, de dar um salto qualitativo de países em desenvolvimento para países desenvolvidos, como a Coreia do Sul, Singapura ou Irlanda, foram casos de países que fizeram, décadas antes, um investimento maciço em educação. Aqueles que não o fizeram, não conseguiram recuperar atraso", afirmou.

 

O candidato a secretário-geral da ONU referiu ainda que a única forma de ter êxito numa sociedade de conhecimento como aquela em que Portugal vive, é se o país constituir uma sociedade educativa, o que passa pelas escolas, pelas famílias e pelas instituições.

"Passa pela capacidade de, todos nós, termos um papel activo no desenvolvimento da educação nas novas gerações no nosso país. Houve por parte das elites portuguesas durante muito tempo uma despreocupação em relação à educação da população em geral. Naturalmente, isso transmitiu-se a todos e propagou a ideia de que a educação não terá sido assim tão importante. No mesmo estudo de há 21 anos, para os portugueses, o factor mais importante para se subir na vida era... a sorte. Isto é importante para compreender porque é que durante muito tempo não fizemos o investimento que devíamos ter feito na educação da população portuguesa em geral e dos nossos filhos em particular", explicou, arrancando um sorriso à plateia.

Sobre educação e desigualdade, António Guterres falou da sua experiência ao longo dos últimos dez anos e admitiu que, em várias coisas, é muito diferente pensar na educação em Portugal e outros países. Apresentou ainda dados alarmantes que indicaram que, dos refugiados que o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) apoia, só dois terços das crianças têm acesso ao ensino básico, um terço ao ensino secundário e 1% ao ensino superior.

"Visitei muitas escolas em campos de refugiados com duzentos alunos por sala de aula. Há ainda zonas do mundo que têm sistemas educativos que são apenas virtuais. Com baixo acesso ao ensino e com uma qualidade absolutamente deplorável. Isso é particularmente grave tendo em conta o progresso tecnológico a que temos assistido e mesmo o crescimento económico das últimas décadas. A globalização levou a um acréscimo das desigualdades. Porventura menos entre países e mais dentro dos próprios países. Serão os sistemas educativos que temos um factor de superação dessas desigualdades ou um factor de reprodução das mesmas de geração em geração?", questionou.

Guterres sublinhou ainda que a questão passa a ser particularmente importante nas sociedades europeias porque estas se têm transformado progressivamente em sociedades multiétnicas, culturais e religiosas.

"Penso que isso é um bem. Sou daqueles que acreditam que a diversidade é uma riqueza, que esse carácter «multi» é algo que enriquece as nossas sociedades. Mas para que haja coesão social assim, é absolutamente indispensável um enorme investimento político, económico, social, cultural e educativo. Se o investimento não ocorrer, há um enorme risco de a diversidade conduzir à confrontação, à oposição e a situações que hoje encontramos por essa Europa fora. É aí que a questão decisiva dos valores se põe".

O engenheiro referiu que na Europa há ainda muitas comunidades periféricas ou minoritárias com condições desiguais, com muitos mais problemas de desemprego, ilustrando este quadro com a história de um jovem de aparência árabe que quando tenta preencher uma vaga de emprego de um estabelecimento, não consegue porque lhe é dito de imediato que as posições já estão ocupadas.

"O facto de as pessoas pertencerem a minorias étnicas ou religiosas causa-lhes uma maior segregação. É indispensável ultrapassar isto e que os valores da tolerância ou da solidariedade sejam reafirmados nas nossas sociedades europeias e que a escola seja um factor decisivo, de integração e de afirmação desses mesmos valores. Infelizmente estamos muito longe de que isso aconteça. E vemos, mesmo nos países europeus mais desenvolvidos, o avanço das forças políticas que fazem da xenofobia, do racismo e do ódio ao estrangeiro uma bandeira eleitoral fundamental. Estão a cavar problemas muito sérios nos seus próprios países", alertou.

António Guterres aludiu ainda às responsabilidades políticas e às consequências que podem advir das declarações de personalidades públicas que referem não querer acolher refugiados muçulmanos no seu país.

"Quando líderes políticos dizem que não querem refugiados muçulmanos num país em que há uma minoria muçulmana importante, quando manifestamente hostilizam partes da sua própria comunidade, em particular se essa é muçulmana, estão a dar a maior ajuda que se pode imaginar aos grupos terroristas do Estado Islâmico e outros que hoje têm uma capacidade de recrutamento dentro das fronteiras da própria Europa e que facilmente utilizam estas formas de segregação, de ódio, de marginalização para recrutar", continuou.

Tal como havia acontecido com Marçal Grilo e Laborinho Lúcio, o candidato  a secretário-geral da ONU terminou a sua intervenção com uma mensagem de esperança e um desafio aos presentes.

"Nesta crise de valores em que vivemos, a capacidade de afirmar os valores da tolerância e da solidariedade é indispensável. A escola tem aí um papel decisivo. Essa é uma das razões pelas quais penso que podemos ter algumas razões de optimismo em relação ao futuro do nosso país. Nós não nos pomos a nós próprios falsos problemas de identidade, forjámos a nossa identidade numa encruzilhada de civilizações, há portugueses espalhados por todo o mundo. Nunca vi forças políticas em Portugal ganharem votos à custa do populismo ou xenofobia, nunca vi o racismo ter uma expressão política institucional. Importa aprofundar a consciência de que a nossa própria identidade é diversa, esta consciência de que é na diversidade que nos enriquecemos. Se formos capazes de a transmitir esta maneira de ser tão portuguesa, de profunda tolerância e ainda com valores de solidariedade muito significativos, a um sistema educativo e de investir maciçamente nele, de mobilizar toda a sociedade para que ela seja uma sociedade educativa, penso que estaremos em condições de garantir um futuro melhor do que aquele que, olhando para as dificuldades do presente, por vezes nos atrevemos a antever", concluiu.

 

D. Jorge Ortiga: Nada condiciona tanto o futuro quanto a educação 

Como já tem sido habitual, o Arcebispo Primaz, D. Jorge Ortiga, também dirigiu algumas palavras à assistência no âmbito do tema da segunda conferência da Nova Ágora. “Somos unânimes em reconhecer que, na sociedade contemporânea, nada condiciona tanto o futuro quanto esta problemática. A educação é, inevitavelmente, a via que prepara as pessoas para guiarem o mundo com suas mãos. As crianças e os jovens de hoje ocuparão os lugares de responsabilidade e de construção da sociedade de amanhã”, alertou.

Neste sentido, e reconhecendo que nem sempre as “reformas do sistema” geram a estabilidade desejada, afirmou que as crianças e os jovens, “alicerces do amanhã”, merecem “um plano convenientemente estruturado e aglutinador das sensibilidades mais adequadas para o nosso tempo e seus desafios”.

O Arcebispo frisou ainda que a educação deve começar em casa e que a sua garantia deve ter a envolvência de todos: do povo, dos agentes educativos e da religião, que considera também ter “um papel a desempenhar no importante âmbito da educação”.

D. Jorge Ortiga marcou ainda encontro para a próxima sexta-feira, altura em que novos olhares se debruçam sobre a “paixão pelo belo”, a Arte.

A noite terminou com uma enorme salva de palmas da plateia para D. Jorge Ortiga, que festeja hoje, dia 05 de Março, mais um aniversário.

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