Arquidiocese de Braga -
22 outubro 2026
«Venite ad me»: Vaticano pede uma fé que toque a vida e celebrações que falem ao coração
Documento aprovado por Leão XIV reúne oito capítulos e 144 parágrafos. Evangelização dos adultos, comunidades acolhedoras e cuidado com a liturgia estão entre as prioridades para responder à quebra da transmissão da fé.
O Dicastério para a Doutrina da Fé publicou esta quinta-feira, 22 de outubro, Venite ad me. Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época. Aprovado por Leão XIV a 21 de agosto, o documento responde a um pedido do Papa Francisco e propõe recentrar a vida da Igreja no kerygma: o primeiro anúncio de Jesus Cristo vivo, do seu amor e da salvação que oferece a cada pessoa.
Com oito capítulos, uma introdução e uma conclusão, distribuídos por 144 parágrafos numerados, o texto percorre os fundamentos da fé, as transformações culturais, a vida das comunidades e os caminhos concretos da evangelização. O último capítulo reúne testemunhos de pessoas que descobriram ou reencontraram a fé. O próprio documento esclarece que estas «Considerações» pretendem estimular a reflexão e o compromisso pastoral, mantendo a questão aberta a novos aprofundamentos (n. 8).
A transmissão da fé passa pelos adultos
O diagnóstico é direto: em muitos contextos, «uma espécie de “automatismo” na transmissão da fé deixou de existir» (n. 50). A ligação entre família, comunidade cristã e novas gerações tornou-se mais frágil. Por isso, o documento considera necessário superar uma ação pastoral concentrada exclusivamente na catequese das crianças e dos adolescentes, afirmando que «a transmissão da fé às novas gerações passa pela evangelização dos adultos» (n. 101).
A resposta proposta começa pelo encontro pessoal com Cristo. «O anúncio do kerygma deve fazer arder os corações daqueles a quem se dirige», lê-se no texto, que evoca a experiência dos discípulos de Emaús (n. 77). Esse anúncio deve abrir um caminho de formação e de vida cristã, sustentado pela comunidade.
Também a linguagem merece uma atenção particular. O Dicastério alerta que «uma comunicação repetitiva e autorreferencial da mensagem evangélica corre o risco de não tocar o coração dos fiéis» (n. 80). A proximidade e a capacidade de escutar tornam-se, por isso, decisivas: «Essa comunicação não pretende falar primeiro, mas nasce, antes de tudo, da escuta» (n. 81).
Liturgia: o «coração pulsante da vida eclesial»
Entre os caminhos concretos, a liturgia ocupa um lugar central. O documento apresenta-a como «o coração pulsante da vida eclesial» e pede que se supere uma compreensão que a reduza a «mera moldura ritual» (n. 90). A celebração envolve a pessoa através de gestos, palavras, silêncios e símbolos, introduzindo-a no mistério de Cristo.
«Não se fala apenas de Deus, mas entra-se em relação com Ele», sublinha o texto. Celebrar significa também «receber uma fé que foi acreditada, vivida e rezada por outros antes de nós» (n. 90).
Esta perspetiva exige cuidado com as celebrações, participação consciente e educação para a linguagem litúrgica, de modo que «os sinais falem realmente à mente e ao coração dos fiéis». O documento pede, em particular, um acompanhamento mistagógico das novas gerações, isto é, que as ajude a compreender e a viver o mistério celebrado (n. 92).
Comunidades que acolhem e dão testemunho
A transmissão da fé encontra também expressão na qualidade das relações. O documento propõe comunidades hospitaleiras, grupos regulares de escuta e oração da Palavra e uma presença próxima de quem sofre. O testemunho cristão articula-se em três dimensões: santidade, proximidade e opção preferencial pelos pobres (nn. 87–97).
A arte, a literatura e a música são valorizadas como caminhos de encontro com a fé. Entre as atenções pastorais figuram ainda a preparação das homilias, a piedade popular, o voluntariado e uma maior participação das mulheres nos lugares onde se tomam decisões importantes para a comunidade (nn. 98–116).
Na base desta proposta está o anúncio do amor de Deus por todos, expresso numa das afirmações mais incisivas do documento: «Deus não abençoa a divisão, muito menos a discriminação» (n. 18).
O texto termina com a imagem da Vigília Pascal, na qual a luz de uma chama se transmite de pessoa em pessoa. É essa a missão confiada aos cristãos: «Cabe agora a nós transmitir esse mesmo dom aos homens e mulheres de nosso tempo» (n. 142).
Download de Ficheiros
Documento "Venite a Me"
Partilhar