Arquidiocese de Braga -
10 outubro 2026
Uma luminária do santuário
Homilia do Arcebispo, D. José Cordeiro, na Trasladação da relíquia do corpo da Beata Alexandrina Maria da Costa - Balasar, 10.10.2026
- Mãezinha
Mãezinha. Era o termo carinhoso usado pela Beata Alexandrina para se referir à Virgem Santa Maria, cuja memória hoje celebramos, tal como prevê a Liturgia da Igreja para as manhãs dos sábados do Tempo Comum em que não haja outras celebrações obrigatórias.
À Virgem Santa Maria recorreu muitas vezes a Beata Alexandrina, pois em Maria encontrou uma mãe e um modelo no seguimento de Cristo. Alexandrina sabia que Maria a conduziria sempre para Cristo e para o amor imenso com o que o Senhor ama cada uma de nós: “Entenda quem poder tantos excessos de amor, que eu por mim só tenho que confundir-me e lamentar este meu pobre coração, por não ter correspondido a tanta bondade dos meus dois queridos penhores Jesus e Maria” (Autobiografia).
Sim, é difícil entendermos a magnitude do amor de Deus por nós, um amor que ultrapassa tudo e tudo perdoa, até as nossas maiores faltas, tal como ouvimos na primeira leitura do livro do Génesis. O ser humano quis colocar-se no lugar que só Deus pode ocupar, e com essa decisão corta a plena relação com o Senhor. Contudo, a possibilidade de reconciliação, de restaurar a relação plena com o Pai, está sempre disponível para nós. Só precisamos de nos dispor a enveredar por esse caminho.
- Habitar o Coração
Perante isto, perante este amor inexplicável, a nossa única atitude terá de ser a de imitar Maria guardando tudo no coração (Cf. Lc 2,51). Guardar no coração significa que temos de ter tempo para meditar e rezar os acontecimentos da vida, de os levar a Deus e com Ele dialogar sobre eles. Numa época como a nossa, em que parece que o tempo tomou conta da nossa vida, parar para escutar, para refletir, para ponderar a vida e as suas vicissitudes parece algo de estranho. Vivemos num ritmo frenético que não nos deixa saborear os acontecimentos, impedindo-nos de descobrir que a vida, mesmo com as suas dificuldades, tem em si uma promessa de eternidade que o Senhor a todos quer conceder.
Só com esta capacidade de guardarmos no coração, até as palavras de Deus que não entendemos, é que nos será possível cresce em sabedoria e em graça (Cf. Lc 2,50.52). Mas esta sabedoria não é mera capacidade intelectual. É viver em profundidade, rejeitando a superficialidade; é viver com inteireza e com verdade. Isto implica que aceitemos perder o controlo da nossa vida, e que nos entreguemos por completo ao Senhor Jesus, que é, e só Ele pode ser, o centro da nossa vida. Alexandrina abandonou-se por completo a Deus e toda a sua vida procurou ser uma união com Deus, conformando-se à Sua vontade. Ela afirmou: “Fazei Senhor que eu abandone tudo o que é do mundo, buscando-Vos só a Vós em todas as coisas, que sois a luz da minha inteligência, sois as minhas delícias, sois todo o meu bem” (Autobiografia).
- Uma presença
A celebração e a adoração eucarísticas constituem uma prioridade pastoral e espiritual. Experimentar como a Alexandrina que estamos diante de uma presença, Jesus Cristo. Assim, com a presença Crística, esta santa mulher leiga de Balasar exprimiu nos três verbos: amar, sofrer e reparar.
Alexandrina é uma pessoa tão cheia de pessoas! Na verdade, «Assim como no ouro há o contraste, assim na carne / do coração amante o sofrimento» (Carlos P. Falcão). Neste seu caminho de Páscoa foram decisivos os diretores espirituais e confessores: P. Mariano Pinho (1933-1942), P. Umberto Pasquale (1944-1948), e P. Alberto Gomes (1942-1955).
Um coração cheio de silêncio e oração. Sim, porque o ser humano só se realiza plenamente no silêncio e na oração. Todavia, o coração da Alexandrina ardia com a paixão missionária do Evangelho vivido.
Somos convidados a seguir o exemplo desta mulher, sobretudo o seu amor à Eucaristia, manancial de todas as graças, na qual o próprio Deus se oferece para nos transformar e nos fortalecer.
Os restos de Alexandrina são transladados para o santuário eucarístico. Ela será uma luminária da tenda do santuário. Ali, do altar da celebração nasce uma cruz prolongada em adoração e contemplação até ao céu.
+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Metropolita de Braga
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