Arquidiocese de Braga -

7 outubro 2026

Opinião

“VOU COLOCAR-TE COMO SENTINELA”

Irmã Maria Emília Nunes Garcês, Missionária do Espírito Santo

No mês do Rosário e da Missões fará sentido considerar, à luz da Escritura, o encargo amoroso e rigoroso, que Deus quis confiar, ontem e hoje, a quem elege “Sentinela” de seu povo. É o que vigia, o que apregoa e protege com constância, o Divino tesouro ao dispor da humanidade.

Como propõe são Gregório Magno, os Sentinelas hoje, são os discípulos, do Verbo, do Mestre Jesus, a quem Deus envia a levar sua Palavra, reveladora de seu querer Divino a seu povo, sempre rebelde, como lamenta pelo profeta: “Meu povo Me esquece dias sem conta! Bem sabes encontrar o caminho, para procurar o que amas! Assim foi que ensinaste a teus pés o caminho da iniquidade” (Jr 2,31-33). “Não tenho nenhuma complacência convosco e nenhuma oferta de vossas mãos me é agradável, (Ml 1,10). Irreverente a seu Senhor, o povo de sempre, parece carecer de consciência, de que é “barro nas mãos do Oleiro” (Jr 18,1-6) e que “Ele o fez e a Ele pertence” (Sl 99).

Considera ser deus de si mesmo, recusa, na intenção e nas obras, a verdadeira meta de sua vida: a obediência à imutável Lei Divina, o decálogo do Amor, e seus desígnios de Bondade e Bênção. “É um terrível facto que o Senhor, de todas as coisas e o rei da Glória seja desprezado.” Mesmo assim, O Amor ofendido não deixa de Amar: desrespeitado e desobedecido, não cessa de, em todo tempo e lugar, enviar mensageiros, da terra ou do céu, a despertar, nos filhos rebeldes e ofensores, a consciência de que a busca de Deus é a meta Suprema das inteligências criadas.

QUE PEDE DEUS AO SENTINELA?

1. Como a Ezequiel ordena («come este rolo que aqui está e, depois vai falar ao povo». (Ez 3,1-4))

Primeiro quer, Deus, que seu servidor se nutra da sua Palavra, que O escute e se deixe permear, em doce e íntimo convívio, até que germine em si alegria e deleite de Jeremias (Jr 15,16), e o “doce como mel” de Ezequiel, ao comer o rolo oferecido por Deus. Este "doce mel" saboreado indicia aquele gozo íntimo da presença da Divina Palavra, mesmo quando se misture ali, o amargo de sua exigência e o impulso a resistir-lhe. Ele Vai percebendo em seu íntimo, que tudo o que nos põe em contacto com Deus é causa de felicidade, e que a felicidade soberana consiste em viver em Deus e por Deus; e que, “Ele só, somente Ele é Deus, não há como escapar de suas mãos” (Dt 32,39; Is 43,12), somos d’Ele para a Misericórdia ou para a Justiça.

Logo, haverá de ser no convívio orante e deleite da Divina presença e com “a espada do espírito, que é a palavra de Deus” (Ef 6,17), que, os corações dos enviados haverão arder de zelo e escutar sem cessar: "Não to mandei Eu? Esforça-te e tem bom ânimo; não pasmes, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, está contigo, por onde quer que andares"(Js 1,9). É desse encontro íntimo, e a beber bem dessa fonte, que se tornarão discípulos apaixonados, autorizados e destemidos face aos desafios da fidelidade à Palavra e à missão recebida.

2. Mantenha o olhar fixo em seu Senhor

A vida é a academia que requer prova de esforço, militância pelo seu General sempre bem identificado e ligado com Ele. O olhar fixo para perseverar nos anseios Seus e no combate proposto. (Heb 12,2) O Mesmo que foi exigido aos profetas e mais o quis Cristo, de seus discípulos e Sua Igreja: «que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo 17,21). É condição inegociável permanecer n’Ele, como os ramos na videira nutrindo-se de sua seiva, até nada mais desejar além dos desejos Seus. Libermann, também ele bom discípulo missionário, insistia que a vida apostólica “é a vida, toda de amor e santidade, que o Filho de Deus levou na terra para salvar e santificar as almas e pela qual se sacrificou continuamente à glória de seu Pai, para salvar o mundo” (ND. X, pg. 505). É o empenho pleno, do sentinela, a testemunhar Quem anuncia, até dizer com Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

De modo semelhante, Eugénie Caps, se une ao sentir de Paulo, ao afirmar que, “antes de tudo é necessário realizar o desejo do Senhor: sermos Santas. Só as almas verdadeiramente santas, que radiam o exemplo e as Palavras de Jesus fazem bem às almas” (C.C. 21-5-27). Evangelizar em nome de Cristo, requer empenho de configuração com Ele: “pureza de intenção, pureza de coração. Agir sempre nos desígnios de Deus, e somente para Lhe ser agradável: tudo fazer por Deus, com Deus e em Deus” (Eugénie Caps, D. 18-5-22). É a via por onde haverão de incendiar-se os corações e florescer os bons frutos, requeridos pelo Senhor da messe, para a fecundidade do Reino.

3. Fidelidade e nada tema mais que a Deus

Aos profetas, como no Evangelho, é ordenado aos discípulos que anunciem com plena integridade a Palavra de Deus e suas leis divinas, hoje tão sombreadas, ignoradas e desprezadas. Todavia, elas têm e terão sempre atualidade. Fomos alertados que “surgirão falsos cristos e falsos profetas e farão tão grandes sinais e prodígios, que, se possível fora, enganariam até os escolhidos" (Mt 24,24).

Urge, portanto, que os escolhidos da Igreja de Cristo anunciem com audácia a luminosa verdade de que, violar os mandamentos divinos, o divino decálogo, é violar o Amor a Deus devido. Não gratuito, devido. E mais, foi prometido na aliança assumida no batismo. Por isso, Ele, Deus, logo no primeiro dos Mandamentos, Se impõe ao nosso Amor reverencial, com toda a solenidade digna de Sua Natureza, em relação ao nosso nada. Ninguém entrará na cidade de Deus sem a perfeição do amor, por isso Ele ordena, como o sinal distintivo de todos que se querem Seus discípulos, que saiam pela vida, com a obediência do crucificado, a presentear e a doutrinar seu amor. (Jo 13,35).

O que Deus quer Ele o quer, Jesus foi categórico: “Em verdade vos digo, passará o céu e a terra antes que desapareça um só traço da lei”. (Mt 5,18). A Palavra de Deus, o Evangelho, permanece Imutável e inegociável, mesmo se se espalha a Babel, e a maldição de Sodoma, e já se vêm delas alguns indícios, nos temos que correm. A Verdade do Evangelho segue imutável. A Substância não é acomodável à circunstância, mesmo se falsos pastores dela insinuem meias verdades, de conveniência. João Batista foi vítima dos que desejam meias verdades, mas manteve firme, como Lâmpada que arde e ilumina, que a Deus é devido Amor, obediência e lealdade. Precisa dispor-se a sacrificar tudo, até a vida. A maior caridade é oferecer a Verdade na caridade. É para Deus que se foi criado e para Deus que se deve viver na terra, para conquistar o céu.

Quem recusa obedecer a Deus, faz grande dano a si próprio. Jesus é claríssimo com seus discípulos e sentinelas: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e causa a sua própria ruína? Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na sua glória, na glória de seu Pai e dos santos anjos.” (Lc 9, 26-27).

Num tempo em que as leis Sagradas são tão desprezadas e ocultadas, fora e dentro da Grande Embarcação de Cristo, a sua Igreja, e se vislumbram meias-verdades a embaciar a luminosidade de seu Espelho, A humanidade carece, como nunca de sentinelas ousados, destemidos soldados, que mostrem fidelidade inteira a Cristo; e que permaneçam em vigia, bem cientes de que falsas redes não pescam almas para o Reino de Cristo. E Paulo mostra muito bem as feições desejáveis dos enviados de Cristo: “seja acolhedor, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente, firmemente apegado à doutrina da fé tal como foi ensinada, para que possa exortar segundo a sã doutrina e rebater os que a contradizem” (Tt 1, 9).

Diríamos que é servir, a qualquer preço, com arte e com alma o anúncio do Evangelho. Quem somos deixa marca, e que seja sempre a marca da amabilidade e firmeza de Cristo, no “anúncio de toda a vontade de Deus" (At 20, 27).