Arquidiocese de Braga -

6 agosto 2026

Opinião

Fazer Escrutínios

Pe. Manuel Meneses, svd (CMAB)

Num ato eleitoral, os cidadãos escolhem aqueles que os governarão durante um período legal estabelecido. Os eleitores escolhem, mas é uma comissão eleitoral que conta os votos atribuídos aos candidatos e as percentagens de cada um. A comissão é responsável pelo processo até à publicação dos resultados. Procura-se sempre a verdade e transparência nas eleições.

Escrutinar

A Igreja Católica tem uma tradição milenar de escrutínio, quando se apresentam candidatos novos à comunidade. Com responsabilidade, lucidez e espírito de acolhimento, inicia com eles um caminho de integração.

Procura sempre que, com os adultos, jovens e adolescentes, as etapas fundamentais de acesso e pertença à Igreja sejam celebradas com esmero. Os Escrutínios são três momentos, entre outros, em que as celebrações marcam com lucidez os candidatos nas suas opções pela vida cristã.

Na primeira fase da iniciação, são poucos a intervir no discernimento: um amigo, um membro da comunidade, talvez o pároco, um catequista ou a comunidade. Mas é com empatia que são acolhidos e encaminhados para a pré-catequese ou primeira evangelização dentro da comunitária.

Num clima de oração e com o parecer dos acompanhantes, faz-se num ato ‘oficial’ a admissão à comunidade cristã. Na etapa seguinte, já como catecúmenos, passarão por outra avaliação. E é neste ambiente fraterno e de alegria que os responsáveis e a comunidade fazem um exame maior do caminho pessoal e comum já percorrido dentro da comunidade.

Nesta nova etapa, a caminhada é mais prolongada. Cada um tem o tempo suficiente, tem os outros e tem Deus sempre presente. As suas convicções serão iluminadas e fortificadas na alegria da conversão: pois a Boa Nova está no seguimento e na adesão livre a Jesus, na relação pessoal e íntima com Ele, na pertença eclesial e na adesão fiel ao seu ensino ministrado na catequese.

É este um período favorável para celebrações litúrgicas catecumenais. A igreja prevê e prescreve várias. Entre nós e não poucas vezes, elas quase se reduzem a eventos meramente sócio-culturais vulgares e sem fé. Os escrutínios deveriam, por isso, fazer parte da globalidade da iniciação, da catequese e da formação sacramental.

Os Escrutínios Celebrados pela Igreja

O discernimento ‘cristão’ a vários níveis que sublinhando, condensa-se em três escrutínios oficiais, celebrados nos três domingos da Quaresma, anteriores às solenidades da Semana Santa. Esses domingos alimentam-se de três textos joaninos: a samaritana (Jo 4), o cego de nascença (Jo 9) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11).

O escrutínio é um exame de consciência pessoal, íntimo e prolongado (de toda a minha vida: conhecimento de si mesmo); e de avaliação pela comunidade (responsáveis, formadores, delegados/padrinhos da comunidade, colegas e outros) durante o tempo da caminhada.

A oração do escrutínio norteia toda a celebração. Consta de louvor e agradecimento, e de uma súplica de proteção e defesa a Deus contra as tentações idolátricas ligadas à auto-sustentabilidade, ao poder e ao dinheiro, os senhores deste ‘mundo’ (que tentaram Jesus no deserto e a nós também). É enfim uma resposta de fidelidade ao chamamento de Jesus nosso Mestre que faz caminho à nossa frente.

 

Iº ESCRUTÍNIO

 

Vir tirar água # Deixar a bilha (Jo 4)

A mulher de Sicar dirigiu-se à fonte de Jacob «tirar água»: Ia cuidar da saúde e do alimento diários dos seus, mas também bebendo daquela fonte das promessas de amor e de numerosa descendência feitas à casa de Abraão e de Jacob pelo Deus da vida.

A mulher ficou surpreendida com Jesus a dizer-lhe «dá-me de beber». Logo cativada, deixa-se conduzir por Ele, num diálogo profundo sobre a sua vida, que aos poucos acorda e se vai mudando:

«“Quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede.” ~ “Senhor, dá-me dessa água.”»

«“Vai chamar o teu marido e volta aqui.” ~ “Não tenho marido.”»

«Disseste bem que não tens marido. E aquele que tens agora não é teu marido.»

«Senhor, vejo que és profeta.»

«Vai chegar a hora em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade.»

«Eu sei que o Messias há de vir … anunciar-nos todas as coisas.»

«Sou Eu que estou a falar contigo.»

«A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será o Messias?”»

A Samaritana sedenta foi escrutinada por Jesus e, ‘bebendo’ da sua água viva, ficou saciada, iluminada, redimida do seu passado, renascida no amor e regressando ao seu povo anunciou: «vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz».

Os samaritanos acreditaram nela e, por ela, em Jesus; mas quando escutaram o próprio Jesus, disseram à mulher: «Não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é o Salvador do mudo.»

1- Em que base assenta o nosso diálogo e ação pastoral com os ‘candidatos’ ao longo dos seus percursos?

2- O acto de fazer coisas ou não fazer, tem sua raiz e fonte na ‘relação pessoal com o Senhor’, a fonte da água viva?

3- Procuramos discernir as razões da fé, apreciar o horizonte da vida cristã, praticar o ‘exame de consciência’ com candidatos em todo o seu percurso?

4- Não estaremos a branquear as resistências do coração humano à graça do Espírito Santo, omitindo a prática da revisão de vida catecumenal e a celebração dos Exorcismos dos Eleitos?

 

2º ESCRUTÍNIO

 

Encontros e Desencontros (Jo 9)

Anotamos no episódio do cego de nascença que há dois encontros de Jesus com o cego e desencontros vários do cego com os vizinhos, os pais, os fariseus, os judeus e a sinagoga. Os de Jesus são ao começo e no fim da narrativa.

Os discípulos reagem ao impacto da cena: o cego é um pecador, de quem é a culpa? Jesus corta a conversa: «Isto … aconteceu para se manifestarem as obras de Deus… É preciso trabalhar nas obras d’Aquele que me enviou...»

 

Um ’Cego’ Escrutinado

A cura resulta duma ação direta de Jesus, sem pedido de ninguém. O homem ‘regressa’ a casa, mas depara-se com a contestação à sua identidade, à de quem o curou, à da sua relação com ele e à notícia da cura. Um grande combate, novos desafios e um Mestre novo à sua frente.

Pelos vizinhos Duvidam se ele é o mesmo que antes pedia esmola, mas querem saber duas coisas. Primeira: Como foi a cura. «Esse homem, chamado Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me: «Vai lavar-te à piscina de Siloé». Fui e comecei a ver.» Segunda: Por onde anda esse Jesus. Resposta: «Não sei».

Pelos fariseus – Perguntaram como fora curado. Respondeu o mesmo, como disse aos outros. Lembraram-lhe que Jesus é um pecador porque não cumpre o Sábado. E questionaram-no: “O que dizes dele?” Respondeu: “É um profeta”.

Pelos judeusNão quiseram acreditar que ele “tinha sido cego e começara a ver”.

Pelos pais Reconhecem-no como como filho, recusando, porém, dar explicações sobre a cura: Ele tem idade para responder. “Perguntai-lhe vós”. Tinham medo de ser expulsos da sinagoga se reconhecessem “Jesus como o Messias.”

Pelos judeus – que o chamaram e lhe puseram novas questões à sua vida pessoal e ao processo de cura. E respondeu: «O que sei é que eu era cego e agora vejo». E foi expulso da sinagoga.

 

O reencontro

O evangelista conclui este episódio ao dizer que Jesus “soube que o tinham expulsado e, tendo-o encontrado, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?»

«Quem é, para que eu acredite n’Ele?»

«Já O viste: é Aquele que está a falar contigo.»

«O homem prostrou-se e exclamou: “Eu creio, Senhor”».

 

Celebrando o Segundo Escrutínio

Se classificarmos o primeiro escrutínio como celebração da fé e da adesão a Cristo, o segundo pode ser entendido como o combate de quem vê o olhar do Filho do homem e progride no seguimento de Jesus. O convertido tem novos olhos porque foi curada da sua cegueira. Este escrutínio aplicando-se aos novos aderentes também atinge todo o cristão.

1- Não se valoriza em excesso a fé socializada que eleva a igreja ao palco onde ‘tudo é teatro?’

2- Porque secundarizar o primeiro anúncio da Paixão e Ressurreição de Cristo? Porque não pôr o cronómetro biográfico de Jesus a contar de trás para a frente?

3- Porque privatizar as maiores riquezas da liturgia sacramental e enfatizar as longas rezas de frequentes adaptações para “espectadores”?

4- Por onde anda a fé no Filho do homem, no Messias de Nazaré, no homem chamado Jesus, que anda por aí e nós, como o ‘cego curado’, não sabemos onde está?

 

3º ESCRUTÍNIO

 

“Eu Sou” (Jo 11) # Quem és tu?

No quinto domingo da Quaresma, com o terceiro Escrutínio, temos o evangelho da ‘Ressurreição’ de Lázaro’.

São três irmãos, Marta, Maria e Lázaro, amigos de Jesus e amigos dos discípulos. Lázaro adoece e as irmãs dão a notícia a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente?»

Jesus comenta com os seus: «Essa doença não é mortal, é para glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem».

Depois de dois dias disse aos discípulos: «Vamos para a Judeia.» Os discípulos são contra a viagem.

E agora Ele diz: «O nosso amigo dorme. Vou despertá-lo.» Ele fala de morte e os discípulos entendem sono. E esclarece: «Lázaro morreu. Alegro-me por não ter estado lá, para que acrediteis. Mas vamos ter com ele.»

Marta saiu ao seu encontro. «Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido.» Mas Jesus disse: «Teu irmão ressuscitará... Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá. Acreditas nisto?»

Disse-lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.» E foi chamar sua irmã Maria: «O Mestre está ali e manda-te chamar.» Ela foi. Caiu aos pés de Jesus e disse: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido.»

Entretanto Ele chegou ao túmulo, e disse: «Tirai a pedra.» Jesus chorou: «Pai, sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca para acreditarem que Tu Me enviaste.» E bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora.» E disse-lhes: ‘Desligai-o’ e deixai-o ir.»

«Então muitos judeus, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.»

 

Celebrando o terceiro escrutínio.

Os discípulos, as duas irmãs e Jesus são ‘desafiados’ pela doença de Lázaro. Mas o Senhor anuncia neste sinal a vida eterna e antecipa nele a sua ressurreição.

  • Como tenho vivido, enquanto discípulo de Jesus, o meu percurso cristão perante a doença pessoal, a dos meus, a da comunidade e dos outros: resignado, apoiando outros, iluminado e seguindo Cristo?
  • Que atitude tenho diante da morte: uma fatalidade, nem pensar nela, gozar o presente ao máximo, entregar tudo a Deus, acreditar em Jesus que diz «Eu sou» e chora diante de quem sofre a perda de um ente querido?
  • Não se vive para morrer, mas vive-se em Deus para a vida sem fim, confiado em Jesus nossa «ressurreição e vida»?
  • Ao ser-nos dada, a vida é nossa para ser administrada como graça recebida, em ação de graças vivida. É um bem que eu manipulo a bel-prazer?
  • O ser cristão é um viver como irmão dos outros em Cristo, e como filho de Deus em amor comunitário. Como tenho crescido para ousar pedir o Batismo, ou qualquer outro sacramento?

 

Uma Conclusão?

A Mulher samaritana foi à água da fonte de Jacob e acabou por deixar a bilha e a água, porque O reencontrou a água viva e acreditou no definitivo e único amor da vida. Importante ou não, deixar a bilha?

Jesus abriu os ‘olhos’ ao cego para ver, e quando mais tarde o foi procurar, o cego reabriu os olhos e acreditou no Filho do homem. Defendo a fé?

A família dos três irmãos, os discípulos e Jesus eram amigos. Mas Jesus era o amigo deles todos. Quando lhes declara «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim nunca morrerá», eles viram, à semelhança da samaritana e do cego curado, que acreditar no «Eu sou» é ressuscitar dos mortos. «Eu vim para que tenham vida.»

 

Pe. Manuel Meneses, SVD

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NOTA: Cf.: Secretariado Nacional de Liturgia, «Iniciação Cristã dos Adultos». Especialmente os nn. 1 a 63; e 152 a 182

 

Guimarães, 23 de julho de 2026.