Arquidiocese de Braga -

1 junho 2026

Fé e emoção levam milhares de peregrinos a Laúndos num apelo à escuta de Deus

Fotografia

DM - Rita Cunha

A devoção à Senhora da Saúde voltou a reunir, ontem, milhares de pessoas na tradicional Peregrinação Arciprestal que liga a igreja Matriz da Póvoa de Varzim ao Santuário de Laúndos. Sob o lema “No jardim de Maria, a esperança floresce e a paz permanece”, a iniciativa voltou a afirmar-se como uma das mais significativas manifestações de fé popular do Arciprestado de Vila do Conde/Póvoa de Varzim, já com oito décadas de história.

O dia começou com a celebração da Eucaristia na igreja Matriz, seguindo-se o percurso de cerca de sete quilómetros até ao santuário, numa extensa corrente humana. Famílias, jovens, idosos e grupos paroquiais caminharam lado a lado, unidos pela oração, pelos cânticos e pela partilha de uma fé vivida em comunidade.

Ao centro da peregrinação seguiu o andor de Nossa Senhora da Saúde, transportado aos ombros por pescadores, numa imagem que continua a marcar esta tradição profundamente enraizada na identidade religiosa da região.

Um dos momentos mais intensos da jornada aconteceu na chegada ao Santuário de Laúndos. À medida que o andor se aproximava, multiplicaram-se os aplausos, os gestos de saudação e as lágrimas de emoção. Muitos peregrinos ergueram flores para lançar à passagem da imagem, enquanto outros simplesmente captaram o momento em oração. A emoção tornou-se visível nos rostos de quem cumpria promessas, renovava intenções ou agradecia graças recebidas.

Foi neste ambiente de profunda devoção que
D. Nélio Pita, Bispo Auxiliar de Braga, presidiu à celebração eucarística. Ao longo da homilia, o prelado destacou que o conhecimento de Deus não se alcança apenas pela razão, mas sobretudo pela experiência da fé vivida no coração. Sublinhou que o mistério de Deus ultrapassa sempre a capacidade humana de compreensão e que a fé implica também uma busca constante e sincera. «Os grandes santos dizem-nos que Deus é mais acessível através do coração, isto é, da experiência amorosa alimentada pela fé», afirmou.

Partindo da passagem bíblica em que Moisés sobe ao monte para se encontrar com Deus, D. Nélio Pita convidou os fiéis a encontrarem espaços de recolhimento no quotidiano, capazes de favorecer a escuta e a oração. Numa sociedade marcada pela aceleração, pelo excesso de informação e pelas constantes solicitações, alertou para os efeitos do ruído e da dispersão na vida espiritual. «Os estudiosos deste tempo dizem-nos que o ruído e a dispersão é uma das causas para a crise espiritual do nosso tempo», observou.

Perante os milhares de peregrinos, deixou uma das mensagens centrais da celebração: «Fazer silêncio para escutar Deus não é uma tarefa fácil, mas a condição necessária e indispensável para o encontro profundo com Deus».

O Bispo Auxiliar de Braga apontou ainda caminhos concretos para esse encontro, lembrando que o “monte” onde cada pessoa pode encontrar Deus poderá ser «o silêncio das nossas igrejas ou a quietude de um mar».

D. Nélio Pita destacou também a dimensão relacional da fé cristã, apelando à comunhão, à unidade e ao respeito pela diversidade, alertando para as divisões que fragilizam famílias, comunidades e organizações.

A concluir, deixou uma palavra para os mais frágeis, doentes e idosos, reafirmando que a dignidade humana não depende da produtividade nem da capacidade de realização. «Todos são importantes», afirmou, recordando que cada pessoa é amada por Deus e acolhida sob o olhar maternal de Nossa Senhora da Saúde.