Arquidiocese de Braga -

29 março 2026

Ramos de Páscoa-Paz

Fotografia DACS

Domingos de Ramos na Paixão do Senhor

1. A multidão

Iniciamos a peregrinação da Semana Santa com a celebração do Domingo de Ramos, no qual revivemos a entrada de Jesus na cidade santa de Jerusalém, e lemos a narrativa da Paixão do Senhor.

Podemos olhar para estes dois momentos a partir do ponto de vista da multidão, o qual nos ajuda a entender muitos comportamentos da condição humana.

Na entrada de Jesus na Cidade Santa, a multidão aclama o Senhor como Messias, cantando “Hossana ao filho de David!”, levando ramos nas mãos e colocando capas no caminho que Jesus percorria montado num jumentinho, cumprindo-se, assim, a profecia de Zacarias (Cf. Zc 9,9). É uma multidão exultante e expectante que quer aclamar o Senhor como rei, vendo Nele Aquele que os iria libertar do jugo romano. 

No relato da Paixão, muitos dos que uns dias antes aclamavam Jesus como Messias pedem agora a Sua morte. Vemos uma multidão que se deixa influenciar; manipulada pelos chefes do povo, torna-se uma turba armada e sedenta de sangue, que condena um inocente, porque se recusa aceitar que afinal o Messias não é o chefe político que eles desejavam. 

 

2. Receber Cristo, nossa Páscoa

Nos nossos dias ainda nos comportamos à semelhança da multidão das passagens evangélicas, e as redes sociais digitais vieram acentuar ainda mais esse comportamento num tempo de polarizações e roturas. Num dia somos capazes de exaltar uma pessoa, elevá-la ao estatuto de estrela, elogiando e querendo imitar a sua vida, o seu sucesso. Contudo, ao mínimo erro, à mínima falha ou pelo simples facto de essa pessoa não defender a mesma ideia de que nós,somos rápidos a condenar e a matar, não com armas, mas com palavras e gestos, e mesmo que inocente a reputação dessa pessoa dificilmente se recupera. 

Até na vida espiritual corremos o risco de vivermos nesta incoerência, algo que não é de hoje, como alerta um escrito anónimo do século XIV: «meu amigo espiritual no Senhor, eu te rogo e suplico que consideres bem o itinerário da tua vocação e o modo como foste chamado. Dá graças a Deus de todo o coração, para que a sua graça te ajude a perseverar com firmeza no estado, grau e forma de vida que intencionalmente abraçaste. Possas tu resistir aos subtis ataques dos teus inimigos materiais e espirituais, e assim te seja permitido conquistar a coroa da vida eterna. Ámen» (Nuvem do Não-saber).

 

3. Perseverar na fé

A verdadeira aclamação é a perseverança na fé” (Sto. Ambrósio). Perseveremos, por isso,ao lado de Cristo, lembrando que Ele continua a padecer naqueles que no nosso mundo vivem a fome, a guerra, a dor, o luto, a violência, a escravidão. Esta realidade não é apenas das notícias, e pode estar a acontecer mesmo ao lado da nossa casa. A entrega total de Jesus na Cruz, que mais uma vez narramos, serve para nos relembrar que o mundo ainda não se deixou contagiar pelo Evangelho, e que que nos nossos dias também há pessoas que não aceitam o messianismo de Jesus.

Cristo assume a cruz do sofrimento do mundo, carregando-a no combate contra o pecado e contra o mal. Continua, hoje, a precisar de cireneus que o ajudem a aliviar o sofrimento da humanidade. Poderá Cristo contar connosco? 

É verdade: “todos os sacramentos são ritos”. Sim, mas nem todos os ritos são sacramentos. Por isso nós precisamos dos ritos sacramentais de Páscoa para viver em comunidade e na pertença a Cristo e à Igreja. «O que é de Cristo é mais nosso do que aquilo que é de nós» (Nicolau Cabasilas).

Chegamos aqui após um caminho quaresmal de sementeira no jardim da Esperança, sabendo que a fragilidade é lugar fecundo. A semente esconde-se na terra para germinar e dar fruto. Que o Sagrado Lausperene, “onde está o Senhor?”, tão vivo e interpelante rito bracarense, os meios exemplares espirituais de exercício quaresmal e a “limpeza” pascal nos conduzam cada vez mais ao encontro com o Mistério da Páscoa integral e integrada em cada dia e em todo o momento.

Só a paz serve o caminho de Páscoa. Enfim, Jesus Cristo é a nossa Páscoa-Paz! Rezemos pela paz no mundo, no Médio Oriente e,especialmente, na Terra Santa, chamada de “quinto evangelho”, para a qual se orienta teológica e espiritualmente o olhar e o sentir da Igreja.

 

+ José Manuel Cordeiro

Arcebispo Metropolita de Braga