Arquidiocese de Braga -
16 março 2025
IA é ferramenta para ser adotada em complemento à inteligência humana

DM - José Carlos Ferreira e Jorge Oliveira
A Inteligência Artificial (IA) é uma ferramenta que já está entre nós, está em constante e franco desenvolvimento, tem de ser descoberta e usada pelo homem, mas sempre em complemento à inteligência humana.
Esta é uma das grandes ideias deixadas ontem, dia 15 de março, no encontro “Praça Central”, promovido pela Conferência Nacional das Associações de Apostolado dos Leigos, que decorreu no Espaço Vita, subordinado ao tema “Fia-te nos algoritmos e não vivas... Desafios Humanos na Era da IA”.
Hugo Silva, diretor geral do Grupo United Creative, o primeiro orador da manhã, sustentou que o mundo da IA ainda é desconhecido para muitas pessoas. “A caixa de Pandora já foi aberta”, com o ChatGpt e esta “é a maior revolução deste século”, sendo maior até que a revolução digital. Hugo Silva sublinhou a rapidez com que esta tecnologia está a ser desenvolvida, estimando-se que estejam a ser criadas dez mil plataformas com IA por dia. Por isso, defendeu, temos que adotar esta ferramenta no dia a dia. “Não é a IA que nos vai tirar o emprego, mas quem perceber mais de IA do que nós”, disse. Para Hugo Silva, temos aqui uma oportunidade fantástica, mostrando, depois, com Martim Silva, como é possível tirar partido desta ferramenta para concretizar várias tarefas que, normalmente, demorariam dias ou mesmo semanas.
Precisamos da IA para filtrar o mundo
Para Paulo Novais, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, não restam dúvidas que a Inteligência Artificial serve como um complemento à inteligência humana. O docente, falando à margem do encontro, disse que o Homem é um computador, apurado por uma evolução de milhares de anos, mas degradável porque vai envelhecendo e perde capacidades. “Mas, como qualquer máquina, temos recursos limitados. Num mundo em que há um excesso de informação, num mundo em que até os recursos são finitos, isso faz diferença. Nós temos que voltar a pôr o nosso mundo, o mundo em que vivemos, numa dimensão humana. Da mesma forma que, no século passado, os médicos passaram a usar o estetoscópio para entender melhor o corpo humano, nós precisamos da IA para, de algum modo, filtrar este mundo, passar das múltiplas dimensões para dimensões que possamos manipular como humanos”, disse. Assim sustentou Paulo Novais, a IA deve servir para estender as nossas capacidades cognitivas e permitir colaborar. O seu uso, advertiu, poderá ter consequências no tamanho do cérebro e poderá libertar a parte do cérebro dedicada à memorização para a interpretação.
Inteligência Artificial deve estar ao serviço da dignidade da pessoa humana
O Arcebispo Metropolita de Braga, D. José Cordeiro, defendeu ontem que a Inteligência Artificial “deve ser a extensão da inteligência humana e estar ao serviço da humanidade, do bem comum e da dignidade da pessoa humana”.
D. José falou aos jornalistas à margem da iniciativa e lembrou que as mudanças estão a acontecer com muita rapidamente e por isso, serem necessários espaços de formação e de encontro, como este que aconteceu ontem em Braga. “É preciso ir para lá dos algoritmos, porque a nossa perspetiva é a perspetiva da relação, da construção, da comunhão. E sermos formados, e tomar consciência disso, faz com que sejamos mais humanos e também mais fraternos, e pôr a inteligência artificial ao serviço da evangelização, para irmos para lá daquilo que é a tecnologia e a ciência, que está ao serviço da pessoa humana”, disse.
E, à pergunta de como se coloca a inteligência artificial ao serviço da evangelização, D. José Cordeiro responde com a necessidade de muita criatividade, de formação e de fidelidade ao Evangelho. “Isto é para que sejamos mais e melhores, como ao longo da História tantas revoluções foram acontecendo. Claro que, tudo aquilo que é novo cria algum nervosismo e, em muitas pessoas, cria medo. Mas, não devemos ter medo. É uma nova oportunidade. Claro que há muitos riscos, mas é uma oportunidade grande para a humanidade e também para a Igreja”, sustentou.
Para o Arcebispo Metropolita de Braga, a Igreja tem de olhar para a inteligência artificial “com esperança”. “A postura do Papa Francisco é mesmo essa, a de nos abrir horizontes novos de esperança”, salientou. O prelado defendeu que a inteligência artificial, com os riscos que traz, é um lugar enorme oportunidade para a evangelização.
Portugueses são servos da IA
O padre Afonso Seixas-Nunes, SJ, em declarações aos jornalistas, disse que em Portugal, somos mais servos do que senhores da IA. “O conhecimento como a IA funciona, como podemos ter controlo sobre a IA é um diálogo muito embrionário”, disse. Para o sacerdote, estamos a delegar cada vez mais atividades que eram próprias da inteligência humana para a IA. Afirmando-se otimista em relação à IA como instrumento de trabalho, o padre Afonso Seixas-Nunes, SJ, mostrou-se cético no sentido em que a IA chama a uma regulamentação e não deve ser aceite de braços abertos como se não houvesse riscos. Questionado sobre onde se posiciona a Igreja em relação à IA, disse existirem desafios. “Acho que há um desafio a abraçar a criatividade que a IA traz. Outra questão mais séria de reflexão é se a IA é chamada à co-criação. O humano é co-criador com Deus. E, agora, a IA, nas capacidades que tem, é também um co-criador, ou não? Eu penso que a Igreja institucional por vezes tem muito medo do progresso”, disse.
Universidade do Minho vai participar no desenvolvimento da IA portuguesa
O trabalho para a criação do grande modelo de linguagem (LLM) de inteligência artificial português, batizado Amália, já começou na semana passada, com o envolvimento do Grupo de Inteligência Artificial da Universidade do Minho.
A revelação foi feita ontem por Paulo Novais, da academia minhota, no decorrer do Praça Central que aconteceu no Espaço Vita. O docente disse que o consórcio já está criado e é liderado João Magalhães e André Martins, da Universidade Nova de Lisboa. «O Grupo de Inteligência Artificial da Universidade do Minho vai participar no desenvolvimento de uma subárea ligada à Educação», disse.
Paulo Novais revelou ainda que o processo começou na semana passada e seguem-se agora as primeiras reuniões para rapidamente sair o primeiro grande modelo de linguagem (LLM) português, «o primeiro coração, que esperamos que em meados deste ano haja a primeira versão para a podermos testar».
«A esperança é que, em 2026 tenhamos um LLM português semelhante àqueles que temos visto lá fora, com o mesmo nível de funcionalidades e multimodal também. Multimodal no sentido em que não será só texto, como eram os primeiros, mas também com geração de imagens, de fala», acrescentou.
A grande vantagem deste projeto, sublinhou o docente da Universidade do Minho, é a sua disponibilização à comunidade, ou seja, ao ecossistema português, de língua portuguesa porque espera-se que seja disponibilizado aos PALOP. Isto para que o mundo português possa usar um LLM que respeite a língua portuguesa e, de algum modo, a cultura que nos carateriza.
Ser humano tem que estar no centro da utilização da Inteligência Artificial
A “Praça Central” debateu, nos painéis da tarde, os impactos da IA na saúde, na educação, na justiça, nas artes, na pastoral e teologia e na comunicação.
Uma das ideias partilhadas pelos oradores é que esta ferramenta tecnológica veio para ficar e deve ser utilizada de forma ética, colocando sempre o ser humano no centro.
A médica Sofia Reimão, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, sublinhou a relevância da IA, especialmente na área da saúde, destacando que, embora a tecnologia ofereça grandes avanços, a relação médico-doente “é um ato humano que nenhuma máquina pode substituir”.
A docente destacou que em Imagiologia, especialidade onde trabalha, é onde têm sido dados mais passos, mas sem grandes ganhos a nível da redução do tempo de interpretação dos exames e na melhoria da qualidade dos resultados.
António Valente de Andrade, professor da Universidade Católica Portuguesa, refletiu sobre os múltiplos desafios que surgem com a implementação da IA na Educação.
“A IA tem impacto na investigação, no ensino, na gestão das escolas e até na própria forma de ensinar. Podemos ter sistemas que ajudam na aprendizagem, mas também existe o risco de facilitar a preguiça, tornando os alunos dependentes da tecnologia”, alertou.
O docente referiu ainda que, embora a IA possa ser uma poderosa ferramenta para a personalização do ensino e a melhoria da aprendizagem, esta depende da motivação do estudante e da forma como utiliza esta tecnologia.
Na área da justiça, Pedro Vaz Patto, juiz desembargador e presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, considerou que a IA é uma ferramenta útil para agilizar o trabalho dos profissionais da justiça, permitindo uma recolha e tratamento mais rápidos de informações.
No entanto, alertou para os riscos, a nível ético, da utilização da IA na tomada de decisões judiciais, principalmente no âmbito criminal.
“A decisão judicial é um ato humano, com uma dimensão que vai além da simples análise de dados”, disse o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, referindo-se à importância de fatores como o arrependimento do réu, que não podem ser avaliados por uma máquina.
Pedro Vaz Patto salientou que, embora a IA possa ser útil para identificar padrões de comportamento, a decisão final deve sempre envolver uma análise humana, pois a possibilidade de mudança do ser humano não pode ser ignorada.
“Acreditar na possibilidade de mudança é um risco, mas é um risco que devemos correr», concluiu.
No segundo painel, Carlos Liz, consultor em Estudos de Mercado e de Opinião, falou sobre a utilização da IA nas artes. O consultor disse que o uso da IA é irreversível e a sua utilização nas artes é uma oportunidade para «mais e melhor evangelização».
Citando um frade franciscano, Paolo Benauit, disse que é melhor dialogar com a IA do que pregar, e incentivou a “fazer algoritmos éticos”, para que haja “compatibilidade ética entre as artes e a IA”.
O padre Tiago Freitas, da Arquidiocese de Braga, refletiu sobre os impactos da IA na Pastoral e na Teologia. O sacerdote destacou que o uso da IA na fé e na pastoral é, em muitos aspetos, semelhante à sua aplicação em outros setores, funcionando como uma ferramenta complementar e de auxílio.
“A IA pode ser um recurso valioso para a catequese, para a preparação de homilias pelos sacerdotes, e até na investigação em áreas como a arqueologia e a tradução de textos da Sagrada Escritura”, reconheceu.
No entanto, levantou a questão do uso de linguagens generativas, como os chatbots e o ChatGPT, que têm a capacidade de criar respostas que se assemelham cada vez mais a uma conversa com uma pessoa real, particularmente quando usadas em contextos espirituais.
“Há experiências em que a IA é usada para direção espiritual, confissões ou diálogos, e isso traz desafios interessantes. Temos de nos perguntar: onde está a inteligência sobrenatural de Deus nesse processo?”, questionou.
Para o sacerdote, a fé cristã exige algo mais do que uma simples recapitulação de dados e informações gerados por máquinas.
“É preciso que a inspiração divina seja uma parte essencial da experiência religiosa, algo que a IA, por mais avançada que seja, não poderá substituir”, acrescentou.
O painel terminou com a participação de Daniel Catalão, que refletiu sobre os impactos da IA na comunicação. O jornalista considerou que a IA é uma ferramenta incontornável no jornalismo, mas o seu uso requer sempre “supervisão humana”, sob pena dos jornalistas virarem “gestores de algoritmos”.
Daniel Catalão alertou para o risco de manipulação, desinformação, propaganda e desinteresse pela realidade quando se usam as redes sociais e IA generativa sem critérios, verificação e confronto de dados.
«A IA não é apenas uma ferramenta. Ela toma decisões, aconselha e faz. Essa é uma vantagem, mas também um grande perigo», notou, defendendo uma “nova literacia, não só para os media, mas para a IA”.
O encontro “Praça Central”, com o tema “Fia-te nos algoritmos e não vivas… Desafios Humanos na Era da IA: um debate urgente”, terminou com a celebração da Eucaristia, na Capela Imaculada.
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