Arquidiocese de Braga -

1 novembro 2026

Esperança inabalável

Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, 02.11.2026

Fotografia

1.    Renovação contínua
O Ano litúrgico é o caminho espiritual que a Igreja adotou para que os fiéis possam conformar-se progressivamente ao Mistério Pascal de Jesus Cristo, revivendo os acontecimentos da vida do Senhor ao longo do tempo. Por isso, o Ano litúrgico não é um simples calendário de datas comemorativas. Viver o ano litúrgico na comunhão da Igreja serve, aliás, para transformar o tempo cronológico em tempo de graça, em tempo kairológico, permitindo que cada um de nós possa amadurecer espiritualmente. 

Assim, e na linha do que São Paulo nos transmitiu na segunda leitura, ainda que inevitavelmente envelheçamos exteriormente, somos chamados à renovação contínua do espírito que se vai tornando, dia após dia, cada vez mais nova criatura, cada vez mais imagem e semelhança de Deus (cf. 2Cor 4,16).

2.     A bondade do Senhor
Neste sentido, voltarmos mais uma vez a celebrar missa na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos convida-nos a passar da mera repetição de celebrações anuais, ao fortalecimento da esperança na ressurreição dos mortos. E esta esperança trespassa a primeira leitura, o salmo responsorial e a segunda leitura da missa de hoje. Perante o enigma do sofrimento inocente e da morte, Job levanta a sua voz colocando toda a sua esperança no Redentor: “na minha carne verei a Deus” (Job 19,26). Também o Salmista ora a Deus dizendo: “Espero vir a contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos” (Sl 26(27), 13). 

Perante a perspetiva aparente do fim e do vazio da morte, a luz de Deus brilha no coração crente que se recusa a permitir a vitória da morte. Por isso, são Martinho de Tours afirmou com a liberdade: “Nem temo a morte, nem recuso a vida”.

3.    Cristo Alegria das almas
Este mês de novembro que agora iniciamos é o mês que a tradição católica reserva para uma oração mais intensa pelos fiéis defuntos. Poderemos trabalhar a nossa fé de dois modos ao longo deste mês.
Por um lado, quando for maior a saudade dos nossos entes queridos, quando o sofrimento for mais profundo, recorrer a Jesus, que nos chama para nos aliviar e consolar nos momentos mais opressivos (cf. Mt 11,28). Ele está sempre ao nosso lado e com o jugo do Seu amor mostra-nos o caminho da esperança e da vida eterna, reservado para todos os que quiserem enveredar por esse caminho. Como discípulos de Jesus somos enviados por Ele a aliviar os sofrimentos dos nossos irmãos, consolando aqueles que vivem o luto e a dor da perda. A nossa presença orante e caridosa, ainda que silenciosa por não termos palavras adequadas a dizer, será sempre um bálsamo para quem sofre.

Por outro lado, podemos aprofundar a fé na comunhão dos santos. A Igreja peregrina na Terra une-se à Igreja que canta no Céu a glória de Deus. Eles mostram-nos que podemos, pela prática da caridade, chegar à santidade e à visão de Deus, a meta de toda a vida cristã. A comunhão dos Santos é vertical e horizontal (como o wifi).
A morte é parte integrante da vida, ou melhor, segundo a nossa fé: «a hora da morte torna-se a hora do nascimento» (Byung-Chul Han).

Rezamos por todos os fiéis defuntos e com eles damos graças pelos dons recebidos, pedindo o que nos falta: “Cristo, alegria das almas, / sede a luz do nosso olhar, / ouvi a nossa oração, / guiai os nosso sentidos. / Dissipai a escuridão/ do nosso caminho incerto; / Divino Sol das alturas, / voltai-nos o vosso rosto” (Liturgia das Horas).


No antigo hino Veni Creator Spiritus, com que ainda hoje invocamos o Espírito Santo, dizemos: «Accende lumen sensibus», acende uma luz para os sentidos, ilumina os nossos sentidos, para uma vida com sentido até ao fim do fim. 

Enfim, somos chamados à Esperança inabalável diante da realidade mais brutal, como a morte.


+ José Manuel Cordeiro
Arcebispo Primaz