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17 Set 2021
Caminho Jacobeo Minhoto Ribeiro
Discurso na apresentação do Caminho Minhoto.
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Braga e Santiago são duas Arquidioceses historicamente irmãs. Para uma e para outra as origens não são solidamente comprovadas.

A história, a transição de séculos em séculos, não é despicienda. Poderão faltar os documentos, mas a voz do povo passa e vai solidificando certezas.

Braga tem S. Pedro de Rates. Rezam muitas crónicas, consideradas verídicas até há bem poucos anos, que um discípulo e companheiro da aventura evangelizadora do Apóstolo Santiago teria ficado em Rates onde constituiu uma comunidade, edificou uma Igreja e deu origem à Arquidiocese de Braga. Se os documentos não comprovam cabalmente, também não o negam. Uma coisa é certa: a tradição une estas duas dioceses desde os tempos apostólicos. Isto faz com que tenhamos imensas comunidades dedicadas a Santiago e que muitos caminhos para Santiago passem pela Arquidiocese.

Hoje apresentamos um novo caminho. Muitos passaram e passam por aqui. Este inicia-se aqui na Catedral, entrelaçando, de um modo mais consistente, as duas Arquidioceses.

Se a história nos apresenta alguns momentos de contendas e litígios, há muitos anos a esta parte não nos limitamos a conviver mas aproveitamos muitas ocasiões para solidificar laços e estabelecer intercâmbios, institucionais e pastorais. Não estamos de costas voltadas, mas enriquecemo-nos reciprocamente na permuta de ideias e projectos. Temos alguns, poderemos ter muitos mais. Caminhamos juntos e juntos sonhamos uma Igreja ao serviço da Humanidade. 

Não nos move meramente o interesse pelo turismo no valor que encerra para os dois países. Não negligenciamos este factor e sentimos de o potenciar para o bem das nossas regiões. O futuro deverá tornar as duas catedrais mais próximas, corresponsabilizando-as por tornar o acontecimento das caminhadas a Santiago uma verdadeira peregrinação. Estamos envolvidos numa caminhada sinodal. Caminhando juntos, as duas arquidioceses terão de saber escutar o que este fenómeno está a dizer-nos para um compromisso interdiocesano e numa redescoberta de um fenómeno que podemos e devemos transformar em chance pastoral.

O Papa Francisco, olhando para os desafios deixados pela pandemia, na entrevista publicada no livro “Sonhemos juntos”, colocava no epílogo o desafio da vida como peregrinação. Não será fácil envolver quem ruma a Santiago nesta atitude de verdadeiro peregrino? 

Por aí, na experiência de muitos, pode passar a pergunta sobre o lugar de cada um no novo futuro da sociedade e responsabilizar-se em o tornar possível. Caminhamos não ultrapassando quilómetros mas pensando num futuro melhor, que poderá estar nas comunidades paroquiais mas que também se realizará num contexto multicultural, multiétnico, intercontinental, que estamos a presenciar diariamente. É o mundo que se coloca em questão. A religião não será autorreferencial nem proselitista. Saberá ser humana num mundo de relações fraternas e iguais.

Na referida entrevista, o Papa Francisco diz que a peregrinação se concretiza num descentrar-se e num transcender-se. Não basta mover-se para os lados acabando por voltar ao ponto de partida, numa atitude de quem percorre um labirinto. Pode acontecer que a Igreja e a sociedade civil estejam a apostar neste girar à volta de coisas banais e afasta-se do essencial. Precisamos de novos horizontes, de sair dos esquemas tradicionais e ir mais longe sonhando em comum a sociedade que terá de ser construída. O peregrino deverá ser ajudado a voltar a sua casa diferente e acreditar que não se pode amarrar a nada, mas que terá de olhar sempre para o futuro. Girar à volta do eu, concentrar-se nos interesses pessoais, nem sempre de modos juntos, pode ser o que muitos pretendem impor como normal. Precisamos de uma nova normalidade. Apaixonar-se pelo futuro a construir por todos, descentralizando-se e abrindo-se ao transcendente poderá ser o novo modo de caminhar até Santiago. 

Dar a quem caminha rumo a Santiago este sentido de peregrinação, saindo de si para um projecto de mundo novo, terá de ser trabalho que a Igreja deverá oferecer a quem peregrina e a quem pretende só caminhar ou desfrutar a natureza. Este caminho que hoje apresentamos com início na Catedral de Braga vem ressuscitar, assim o entendo, um sonho que deverá tornar-se projecto. Necessitamos de ter na Catedral um local dedicado a Santiago. Poderá ser capela ou espaço de uma Capela. Já tivemos diversas ideias. Hoje parece-me que seria de confiar à Direção Regional da Cultura Norte a recuperação da Capela da Glória. É um espaço que merece ser requalificado. A Catedral no seu todo merece-o. Tem acesso direto para o exterior. Poderá ser local para o caminho mas sobretudo proporcionar momentos para se descentralizar e centralizar-se em atitude de peregrinação marcada pelo transcendente e planificador do futuro. Evidentemente que colocar a Capela de Nossa Senhora da Glória é uma responsabilidade para a Sé e para o Cabido. Sei que estamos prontos para acolher este repto e fazer com que os caminhos de Santiago, com passagem pela Catedral ou a iniciar neste Caminho Minhoto Ribeiro, não se situem só numa moda. 

O facto das paredes da Capela estarem revestidas por afrescos com painéis geométricos idênticos aos usados nos azulejos sevilhanos do final do séc. XV, diz-nos que são um dos mais antigos testemunhos de pintura de afrescos que ainda subsistem entre nós. Num plano de aposta na cultura merecem uma intervenção com benefícios para a cidade e região. Concede-lhe a certeza de encontro com outras culturas e pode significar oportunidade para repensar as razões de percorrer o caminho. Deixo ficar a sugestão e espero que chegue a quem pode decidir intervenções em Patrimónios nacionais. A Arquidiocese e o Cabido colaborarão e reconhecerão como um bom uso a dar a esta maravilhosa Capela.

Congratulo-me com esta iniciativa a apresentar um novo Caminho de Santiago, agradeço aos organizadores do evento e, particularmente, formulo um sincero obrigado a D. Julian Barrio Barrio, arcebispo de Santiago. As visitas a Santiago por presidentes da República são frequentes e não dispensam a presença do Arcebispo. Amanhã acontecerá com o Presidente da Colômbia. Houve necessidade de alterar o programa previamente pensado o que provocou e provocará sacrifícios de sono e não só para poder servir a dois senhores. Muito obrigado. 

Que a sua presença sirva para aproximar, ainda mais, as duas arquidioceses, simbolizadas pelas nossas velhas Catedrais. Que Santiago nos situe nos caminhos hodiernos dos jovens dando-lhes estímulo e coragem para caminharmos e sonharmos juntos, sinodalmente, no serviço a uma Humanidade que parece afastar-se do divino mas vive na procura do transcendente.

 

 † Jorge Ortiga,
Arcebispo Primaz

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