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19 Mai 2021
Um museu que apresenta Braga
Discurso na inauguração 
da nova exposição do Museu Pio XII.
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  © Francisco de Assis

O Museu Pio XII nasceu como resultado da paixão de um sacerdote em recolher tudo quanto pudesse identificar a história desta região, marcada pela cultura judaico-cristã nos primórdios do cristianismo, mas também por vestígios suevos e visigóticos, assim como elementos anteriores à presença cristã. A reconquista cristã, a partir do séc. IX, disseminou sinais estruturantes de uma cultura que perdura nos dias de hoje. Com a restruturação e reorganização destes espaços podemos experienciar uma narrativa didáctica sobre a história de Braga e da integração da Igreja nos seus dinamismos.

Esta é a primeira novidade a sublinhar. Se a história é mestra da vida, agora de um modo evidente, será fácil aperceber-se do que fez mover a história nesta região. Isto nunca deve ser esquecido. Nós temos o dever de o recordar pois são muitos os que gostariam de passar uma esponja pela história. O Papa Francisco, na encíclica Fratelli tutti, no primeiro capítulo intitulado “As sombras de um mundo fechado”, alerta para o que está a acontecer hoje. “Nota-se a penetração cultural de uma espécie de «desconstrucionismo», em que a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero”, numa verdadeira atitude de quem quer promover uma perda do sentido da história. São as novas formas de colonização cultural. Não nos esquecemos de que “os povos que alienam a sua tradição e – por mania imitativa, violência imposta, imperdoável negligência ou apatia – toleram que se lhes roube a alma, perdem, juntamente com a própria fisionomia espiritual, a sua consistência moral e, por fim, a independência ideológica, económica e política”. (F.T. 13-14)

Com esta reorganização do Museu Pio XII, estamos a convidar portugueses e estrangeiros, de Braga ou de qualquer região do país, a reviver a história, religiosa e cultural, desta cidade milenar, alicerçada na cultura romana a que o cristianismo imprimiu uma identidade inconfundível e marcante desta região. Se todos poderão ganhar com a visita, os católicos da nossa Arquidiocese, individualmente, em paróquia ou movimentos, para crianças e jovens, casais e idosos poderão intuir as raízes que hoje devem suportar as nossas convicções e opções. Deixo ficar este convite. O Museu Pio XII deve tornar-se uma escola, que respeita quem pensa diferente, mas que acrescenta razões para acreditar para quem, nestes tempos de desconstrucionismo, sabe que a fé exige muitas motivações para ser professada e vivida.

Ao abrirmos à comunidade esta história de Braga, terei de reafirmar uma certa insatisfação a que gostaria de acrescentar uma dose de esperança. Sabemos que este edifício do Seminário está situado numa zona nevrálgica da Braga Romana. Temos uma Domus Romana que o confirma e as escavações realizadas pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho vieram mostrar um espólio com um valor muito especial. Temos um projecto ambicioso que já sujeitamos a diversas candidaturas. Os responsáveis reconhecem o seu valor para a história de Braga. Quero esperar que, olhando para o Plano de Recuperação e Resiliência, nas verbas que reserva para a Cultura ou para o que ainda resta atribuir do Portugal 2020, sejamos contemplados. Há semanas a Ministra da Cultura disse que o montante mais significativo do PRR iria privilegiar a intervenção de requalificação, conservação e restauro do património edificado. É de esperar que isso aconteça.

Este nosso projecto, sendo algo de novo a construir, seria uma parte integrante da requalificação deste Museu. Advogo a ideia de uma rede de lugares e sítios que na cidade de Braga mostrassem, em articulação, o que a diferencia de muitas outras cidades. Temos muitas coisas a mostrar. Tornar patente a presença dos Romanos, ligando a Fonte do ídolo, a Colina de Maximinos, o Centro Interpretativo do Romano que gostaria de construir aqui, as Carvalheiras e outros possíveis lugares, atrairia curiosos da história mas também ofereceria um itinerário turístico a exigir que os estrangeiros dediquem mais tempo à nossa cidade.

Há dias registei umas palavras, retiradas dos jornais, pronunciadas pelo Presidente da Câmara, Dr. Ricardo Rio, mostrando que a Câmara investe na Arqueologia da cidade. “São muitos os projectos em desenvolvimento” que “passarão a entrar no roteiro de visitação da cidade, no futuro”, tonando-se uma “componente de atratividade turística”. Mais ainda, “a valorização do património da cidade é um desígnio estratégico” para a candidatura de Braga à Capital Europeia da Cultura em 2027. Concordo absolutamente com estas palavras.

Às vezes deixo-me possuir por algum pessimismo. Hoje manifesto uma grande esperança de que isto venha a acontecer. Braga merece e a Arquidiocese tem grande interesse em lhe oferecer o que lhe pertence. Assim sejamos ajudados na concretização deste sonho que nos acompanha há muitos anos.

Em dia de inauguração, seria ingrato se não testemunhasse a minha gratidão pública a todos quantos permitem ou permitiram a concretização deste projecto museológico. O Cónego Luciano Afonso dos Santos, como fundador, os familiares de Henrique Medina e outros amigos que nos permitem oferecer um conjunto de pinturas e quadros no que intitulamos Museu Medina. Ultimamente fomos prendados por duas colecções que, só por si, merecem uma visita. As cruzes, relicários, esculturas de Nossa Senhora e o espólio de variadíssimas peças oferecidas pelo Dr. Hamilton e esposa. Como Arcebispo expresso a minha profunda gratidão na certeza de que a cidade e muitos visitantes reconhecerão a nobreza do gesto que tiveram para com a Arquidiocese e, de um modo inequívoco, para a Cultura na cidade de Braga. 

Recebemos também e agradecemos a oferta de Calvários, em estilo indo-europeu, ao artista vimaranense José Maurício Pereira Teixeira. Igualmente agradecemos a gentil oferta de um valioso crucifixo, outrora pertença de Drª Francisca Rosa Mota Queirós Lopes Couto.

Ao Cónego José Paulo Leite de Abreu, um verdadeiro apaixonado pelo património artístico de Braga, continuador da paixão do fundador do Museu, apenas a certeza de que a Arquidiocese, e gostaria que também a cidade, lhe permanecerá permanentemente grata por tudo quanto tem oferecido à mesma cultura. Ao Arq.º Gerardo e a todos quantos o acompanharam na idealização e realização do projecto, obrigado pela competência, dedicação e sacrifício.

Aos visitantes, e gostaria que fossem muitos, individualmente ou em grupo, peço que venham não só para ver e comentar com o “gosto” ou “não gosto” das rotinas das redes sociais. Que venham para parar um pouco e ouvir o que o exposto testemunha. Por detrás de tudo existe a paixão que o povo de Braga foi colocando, ao longo dos séculos, na alegria de mostrar que Cristo está vivo e continua a querer contar com todos para dizer “Cristo, ontem, hoje e sempre”, o verdadeiro salvador da humanidade.

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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