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15 Mai 2021
Caritas
Discurso na tomada de posse da nova Direcção da Caritas Arquidiocesana
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  © Avelino Lima

– Sabemos que a pandemia ainda não foi ultrapassada. Continuamos com o mesmo sentido de responsabilidade pessoal e de motivação junto de quem conhecemos ou com quem trabalhamos.

– Ainda não conseguimos descortinar as consequências nefastas em todas as suas abrangências, no mundo sanitário, económico e, particularmente, social. Poderemos, ainda, estar a viver do que fomos amealhando. Como será o amanhã? Nunca poderemos ser alarmistas nem semeadores de tempestades.

– Uma coisa é reconhecida por todos. Vamos necessitar de um período de recuperação para devolver às famílias os mínimos para uma vida digna. Os idosos irão necessitar de uma solicitação especial e os pobres necessitarão de respostas concretas.

– Neste contexto, a Igreja vai ter de ser um verdadeiro sinal profético estruturando um conjunto de boas práticas em favor dos necessitados e mostrando uma fecunda criatividade. Teremos de nos ajoelhar perante os sofrimentos espirituais e físicos, e deixarmo-nos possuir pela compaixão testemunhada pelo Bom Samaritano.

– Sabemos que o Papa Francisco escreveu a Fratelli tutti em plena pandemia. Aí se apresentam as sombras de um mundo fechado mas, sobretudo, se cria a responsabilidade de pensar e gerar um mundo aberto que se responsabiliza por todos e dedica uma predilecção especial aos excluídos e marginalizados. Penso que esta encíclica é um verdadeiro manual de bordo para a hora actual da Igreja por aquilo que ela deve ser e por aquilo que caracteriza a sua missão. Filhos de um único Pai, somos todos irmãos e teremos de o mostrar através de uma amizade social. Teremos de, juntos, abandonar a indiferença e sonhar um mundo como família humana unida na qual todos somos verdadeiramente irmãos. Isto não pode ser um sentimento abstrato de simpatia para com a humanidade mas terá de mostrar uma verdadeira civilização da fraternidade. Não podemos aceitar o individualismo, a indiferença, a cultura do abandono, do descarte. Somos, efectivamente “a mesma humanidade amada por Deus.”

É aqui que teremos de alicerçar a vida da Cáritas. A pandemia veio reforçar a sua importância. Perante as inúmeras e novas necessidades humanitárias teremos de ser criativos e audazes. Nunca por meros sentimentos da vaga solidariedade. Mas descodificando-a em atitudes de serviço à humanidade ferida com muitas expressões de sofrimento. Precisamos de ser fiéis às respostas tradicionais que continuam a ser de imperiosa necessidade e actualidade. Não podemos permitir que existam pessoas com fome ou sem capacidade de resposta às necessidades básicas. Só que, nesta hora, algo mais poderá estar a ser solicitado à Cáritas. 

Não quero substituir-me à reflexão que possa e deva ser feita. Para além do que foi apresentado pela nova Direcção sublinho dois pormenores. Em primeiro lugar, precisamos de um compromisso efectivo com os pobres envergonhados. A pandemia retirou muita coisa a quem vivia bem e as aparências podem ocultar muita miséria. Não será fácil. Mas não podemos ignorar esta realidade velha que se agravou em número e caracterização.

Os recentes acontecimentos de Odemira vieram manifestar um outro cenário. A questão dos migrantes. Ninguém os conhecia até que o perigo do contágio mostrou a situação escandalosa em que viviam. Há dias, a Junta de S. Victor, como consequência dos Censos, dizia que já tinha individualizado pessoas de 118 países, uns estudantes, talvez na maioria, e outros a viver de profissões que desconheço. Falamos muito de integração, de inclusão. Como estarão a viver? Como comunidade de crentes não teremos de procurar saber? A desculpa de não nos querermos intrometer na vida alheia não me parece legítima. Só que não me parece cristã. Não será oportuno elaborar um estudo de caracterização destas comunidades ou pessoas, sabendo como estão a viver. Deixo a sugestão.

Se a Cáritas é uma instância de acção no concreto, a nível da Arquidiocese deverá tornar-se, também, um espaço de reflexão para um efectivo conhecimento das verdadeiras formas de pobreza. O Programa Pastoral sugere, “Abrir os olhos para as novas formas de pobreza e comprometer as comunidades na realização de respostas de proximidade e de solidariedade”. Não precisamos de grandes explicações para tornar compreendido este objectivo. Importa conhecer as diferentes formas de pobreza e comprometer as comunidades com respostas concretas. Trata-se de estudar e elencar as novas realidades, materiais e espirituais, onde a vulnerabilidade humana está patente. Não apenas da cidade e paróquias de Braga mas de toda a arquidiocese. Confio-vos esta tarefa. 

Evidentemente que tudo deve ser articulado com a Comissão para o Desenvolvimento Humano Integral. O Fundo Partilhar com Esperança tem esta finalidade. Ele pretende ir respondendo às situações que nos chegam. Mas a acção sócio caritativa tem de ser proactiva na elaboração de respostas que, através de uma vivência de proximidade que caracteriza a vida das comunidades, correspondam às verdadeiras pobrezas e, sobretudo, às suas causas. Os problemas continuarão a surgir, ou já existem. Talvez não os conheçamos. Daí que me parece que a Caritas Arquidiocesana deva ser, também, uma instância de reflexão para os individualizar e apontar orientações para a pastoral social nas paróquias e nos arciprestados. Toda a Arquidiocese é o campo de acção da Cáritas. A Acção Social da Arquidiocese tem de ser permanentemente repensada e atualizada. Não basta repetir nem improvisar. Há mais pobreza mas, sobretudo, há novas formas de pobreza. Se os problemas se diversificam as respostas não podem ser sempre iguais. Importa ser sentinela do viver concreto das pessoas e ousar propor respostas. Hoje é imprescindível um trabalho em rede com as instâncias existentes no território, eclesiásticas e civis. Mas a Igreja não pode imaginar que as respostas estão a ser dadas. Uma comunidade, sem o compromisso com o social não é verdadeiramente católica.

Resta-me agradecer ao Dr. José Carlos Dias pelo trabalho de 20 anos de gratuidade e serviço. Pode ter a certeza de que tudo quanto deu à Cáritas não foi inútil. Deixou uma marca e um caminho que agora vai ser percorrido. Muito obrigado. Para quem inicia, bom trabalho. Em Igreja sinodal caminharei convosco para sermos testemunho de uma Igreja Samaritana.

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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