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Ano Pastoral 2021+2022

"Onde há amor, nascem gestos"

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5 Dez 2021
O amor que se faz de gestos
Homilia na Festa de S. Geraldo
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  © Diário do Minho | Sé Catedral

Este Domingo encerra dois significados muito distintos mas complementares. Por um lado, temos o dinamismo do Advento que não nos afasta do Programa Pastoral. Por outro, numa coincidência feliz, celebramos a festa de S. Geraldo, padroeiro da cidade, que, acontecendo num Domingo, é celebrada de um modo diferente, mas continuando sempre a propor-nos o dever de construir a cidade nas suas diferentes vertentes. 

Como Arquidiocese já fomos idealizadores de construções e praças, particularmente durante o tempo do senhorio. Hoje os tempos são diferentes, mas não podemos alhear-nos aos destinos do nosso povo e assistir passivamente ao que os outros concretizam. Não nos intrometemos nem queremos protagonismos diferentes dos nossos objectivos pastorais. Só que nunca poderemos deixar de ser intérpretes na construção da cidade, sempre em benefício do bem comum e particularmente das pessoas. Advogamos a ideia de parcerias activas, onde nos é permitido. Sabemos, também, percorrer os caminhos da liberdade religiosa, nunca fugindo à responsabilidade de proporcionar ao povo cristão e a quem nos quiser ouvir uma mensagem que nunca deve ser teórica mas geradora de convivências fraternas e harmoniosos. É o nosso modo específico de construir a cidade que irá aquecer o que as estruturas materiais não conseguem.

Nunca podemos deixar de ser construtores de cidades novas em nome de Cristo e por causa de Cristo. Vivemos para mostrar a importância do amor e para o colocar nos meandros dos marginalizados e excluídos. Fomos pioneiros no campo social. 

O facto de este ano termos a celebração do S. Geraldo da parte da manhã, sugeriu-nos que, em vez da permuta das frutas entre o Cabido e a Câmara, olhássemos para outros milagres que teremos de continuar a realizar. O passado deve suscitar comportamentos novos a idealizar projectos que se coadunem com as verdadeiras necessidades das cidades dos homens. 

Por muito que nos custe aceitar, o milagre da fruta terá de acontecer noutras áreas da vida humana. A alimentação continua, como exemplo, a inquietar muita gente. São os números que o comprovam. Alguns podem tentar enganar-nos quando pedem uma moedinha para comer. Mas há necessidades reais. Hoje necessitamos de outros mais reais em várias áreas, particularmente no que concerne à alimentação. Já temos diversos lugares onde todos os dias fornecemos pequenos almoços e outras refeições. A Caritas, o Centro Social de São Lázaro e outros centros sociais e a Associação de S. Lázaro garantem a quem quiser uma refeição quente há muito tempo. 

Hoje queremos marcar o milagre de S. Geraldo com a assinatura de um protocolo entre o Movimento dos Cursos de Cristandade e a Associação Quatro Corações para servirem diariamente refeições na Rua de S. Geraldo. Esta é a novidade deste ano atípico e diferente. É mais uma iniciativa que pretende responder a pedidos que continuam a acontecer.

Queremos colocar-nos nas pegadas do testemunho da Comunidades dos Tessalonicenses, como referia S. Paulo na segunda leitura, que reforça o nosso Programa Pastoral. Daí que, em Advento, queira sublinhar que o amor sem gestos é emocional ou meramente platónico. 

Para incrementar esta ideia, sabemos que o Departamento para a Liturgia alimentou esta caminhada do amor com gestos através da palavra “Gestação", como que referindo que onde houver gestos concretos, persistentes, espontâneos e organizados, nascerá um mundo de fraternidade. Não sabemos o que nos reserva o Natal, nem como o passaremos. A pandemia pode continuar a impor as suas restrições. Mas esta atitude de gestação de atitudes sociais marcadas pela caridade autêntica permite que o Natal não perca a sua magia e restitua a serenidade para um viver comprometido com a mudança do mundo. Todos o criticam. Poucos fazem algo para que ele se mude.

Regressando a S. Paulo, reconhecemos que ele é muito concreto. Necessitamos de fazer crescer e abundar a caridade. A caridade não é só material. Há coisas pequeníssimas que podem mudar a vida das pessoas. Fazer crescer de modo que os gestos não sejam só os formais. Necessitamos de novidade e criatividade, encontrando modos novos de nos dizer que nos queremos bem e que não nos satisfaz uma cultura da indiferença ou do anonimato. Este abundar de gestos deve acontecer entre os conhecidos, mas também com todos.

As cidades necessitam de um rosto diferente que só acontece através de relacionamentos mais espontâneos e naturais. Não compete aos cristãos construir ruas ou praças ou plantar flores nos jardins. Mas a beleza da cidade humana está nas nossas mãos. Trata-se de humanizar os relacionamentos e inventar sinais que manifestem pertencermos a uma única família humana. Dizemos que somos uma cidade acolhedora e de coração aberto onde se vive tranquilamente. Mas não será que podemos gerar maiores proximidades e crescer na entre-ajuda, tornarmo-nos antenas das situações inumanas que existem e intuir soluções que desfaçam desigualdades e injustiças? Precisamos, urgentemente, de humanizar a cidade. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja diz que: “para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social, nos planos políticos, económicos, cultural, fazendo dele norma constante e suprema do agir” (582). Poderemos ter uma cidade com as estruturas e serviços mais modernos e de vanguarda. Faltando o amor entre as pessoas, entre quem governa e é governado, nunca teremos uma cidade digna do Homem. Precisamos de construir a “civilização do amor”.

S. Paulo acrescentava mais um verbo ao elogio da vida da caridade na comunidade de Tessalónica. Pedia que crescessem ainda mais. Sei que para muitos as coisas estão bem. Outros nem sequer pensam. Muitos outros já se resignaram à situação. Urge acordar para um novo modo de viver em cidade. Há muita coisa para mudar.

Não ofendemos ninguém quando dizemos que são muitas as realidades negativas. Por vezes são denunciadas nas campanhas eleitorais. Outras a comunicação social pega nelas, mas esquece-as com facilidade. Todos pensam que não nos dizem respeito. Precisamos, porém, de crescer no conhecimento do mundo real. Se o fizermos, talvez nos alarmemos com determinadas condições de habitação, com exageradas violências domésticas, com fenómenos graves de isolamento social, com situações de exclusão por razão de raça, religião ou cor, por vidas passadas marcadas pela criminalidade. Mas, mais importante do que tudo isto, da ausência do amor entre as pessoas que se conhecem e deveriam mostrar que se querem bem.

Sim é verdade, na nossa cidade, existe uma zona sombra onde nunca chega o sol da plena integração social porque é mais cómodo deixar correr. Sabemos que existem muitos estudos e técnicas e talvez esteja tudo elencado nas estatísticas sociais. Isto não basta. Sem o amor silencioso, concreto a abundar, a crescer, as cidades e as aldeias ficarão com os mesmos rostos anos após anos.

Ninguém ignora que evoluímos muito socialmente. Falta-nos a fraternidade vivida, os gestos trocados. Talvez seja este o caminho que a Igreja deve percorrer. É mais exigente que o social. Este tem horas e números de pessoas a atender. O amor de doação de vida é para todas as horas e momentos.

No tempo de S. Geraldo não havia fruta, mas ele sentiu necessidade e ela apareceu. Tratou-se do milagre. Nós temos nas mãos a possibilidade de realizar milagres. O Advento deveria ser tempo não só para percorrer as ruas e ver as montras ou os supermercados para entrar nas lojas. Deveria tornar-se esta peregrinação interior para descobrir carências e necessidades e, sobretudo, acreditar que não gastamos nada para tornar o mundo mais humano, fraterno, familiar. Vamos, por isso, cuidar das feridas da sociedade. Todos temos óleo da esperança e vinho da consolação. Uma palavra, uma atitude, uma surpresa pode mudar muitas vidas. Cresçamos, abundemos, progridamos na arte do amor. Veremos como o Sol do Natal raiará para todos. É este tempo de Advento que desejo para todos.

Que São Geraldo nos ensine e ajude a construir a cidade que tanto amamos. 

 

† Jorge Ortiga, Administrador Apostólico

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