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21 Out 2021
Para um ensino sinodal
Homilia na abertura solene do ano académico da UCP-Braga
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  © Avelino Lima / DM

Depois do pedido realizado na abertura solene das aulas, atrevo-me a formular dois pensamentos quanto ao processo a acontecer em cada um para que a sinodalidade tenha caminho. Ela é de todos e para todos. Mas tem as suas exigências que são muito concretas.

Interpreto o Evangelho nesta perspectiva. Creio que não farei aproveitamentos. Basta um pouco de leitura espiritual.

Jesus começa por usar uma comparação muito interpelativa. “Eu vim trazer o fogo à Terra”. Não parece que seja uma afirmação ocasional. É condição para entender a novidade, a originalidade, a ruptura na continuidade de uma história de salvação iniciada há muitos séculos e interpretada por muitos protagonistas, profetas e mensageiros.

Muitas leituras poderemos dar a esta afirmação. Sem dúvida que o fogo quer significar o poder de Deus que purifica. É o poder da transcendência que ultrapassa o humano e a força da santidade de Deus que dissipa os entraves que a natureza pode colocar. A sua força é maior do que tudo. Deus quer queimar as impurezas dos comportamentos humanos e destruir a soberba dos raciocínios dos considerados inteligentes e donos da verdade. Eram muitos os que se consideravam detentores de princípios e se ufanavam em os impor sem critérios ou considerações. Jesus, como o portador do fogo, queria ser o purificador de toda a comunidade e destruir tudo o que impedisse uma comunidade que deveria ser de fraternidade e igualdade. O fogo destrói com dor um mundo velho mas pode originar uma nova realidade que sabemos que Cristo inaugura na Páscoa através do sofrimento experimentado no caminho do Calvário.

Para Cristo, o fundamental era a unidade, ainda que trouxesse sacrifício e renúncias pessoais. Era um novo modo de viver, de um povo novo que tinha uma nova história e que deveria percorrer os caminhos novos e diferentes, mas na unidade. Parecia que não queria trazer a paz mas que optaria nitidamente pela divisão de caminhos e percursos. Sabemos, porém, que a sua paz era a messiânica que iria consistir na união dos dispersos a partir da justiça e da concórdia. Tudo exigiu uma profunda catarse com a superação das concordâncias aparentes para sintonizar através de um ser capaz de perder características de quem sabe que ser discípulo significa perder a vida. Amar-se até perder a vida uns pelos outros. E as ideias valem muito, mas a vida vale mais. É um amor oblativo que tudo entrega sabendo perder para o bem de todos.

Esta libertação do que é seu só acontece quando se reconhece que o Espírito enviado pelo Filho continua em movimento na história da Humanidade. Ele fala onde quer e como quer e deveria ter uma força maior que todas as ideias muito bem estruturadas.

Queremos uma Igreja sinodal onde todos digam o que sentem e lhes apetece, mas permitindo que o Espírito fale, qual fogo que apaga o que pode parecer muito moderno, mas não está verdadeiramente integrado no projecto de Deus. Por este motivo quero sublinhar a minha convicção de que o processo sinodal tem duas exigências prévias. Uma conversão pessoal para ouvir o Espírito e uma séria espiritualidade para atender a todos quantos falam e podem ter menos cultura do que eu mas serem dotados de uma maior sabedoria. Sem conversão pessoal e espiritualidade sinodal não chegaremos a lado nenhum. Teremos discursos bonitos, mas tudo na lógica do parlamentarismo que o Santo Padre quer evitar.

O Evangelho termina dizendo que estarão divididos pai contra filho, filho contra pai. Não é o desejo de Jesus. É constatação. Na verdade, é muito fácil estarmos divididos em famílias, dentro da própria família. A sinodalidade deveria destruir as facções. Assim como Cristo superou os vínculos de uma família fundamentada só no sangue, nós teremos de edificar uma nova família, nos grupos a constituir, que esteja somente enraizada no amor a Cristo e, por Ele, aos outros. É uma nova relação que se impõe para que daí saiam inspirações acolhidas no amor por todos.

Rezo, nesta abertura de aulas, para que a Católica possa fazer esta experiência de conversão pessoal e espiritualidade sinodal de modo a fazer com que transborde para as nossas comunidades. Tenho dito muitas vezes que o trabalho da Católica não pode ficar dentro dos seus quatro muros. A Católica deve ser uma arena aberta que comunica pensamentos mas sempre em diálogo com outros membros e culturas. A qualidade académica é exigida por todos e quase todos a reconhecem. Este novo modo de comunicar pode ser peculiar e característico. 

O estilo sinodal é para ser Igreja mas é também um novo modo de fazer que o mundo poderá aprender. A verdade, a todos os níveis, conquista-se particularmente com o confronto de ideias. Amanhã celebramos a festa do padroeiro da Arquidiocese, S. Martinho de Dume. Encontrou-se perante uma cultura nova, os Suevos, e não teve medo de aí semear o evangelho. Sejamos seus seguidores. Será uma utopia evangelizar a cultura? A sinodalidade transportada para os corredores e salas das universidades pode mostrar que é possível. 

 

 † Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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