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D. Nuno Almeida | 29 Nov 2019
Eutanásia: Interrupção voluntária do amor e da vida
Opinião de D. Nuno Almeida, bispo auxiliar da Arquidiocese de Braga.
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Não há dúvida de que a “arte de viver” está sempre ligada à “arte de amar”. Há doentes que se sentem mortos psicológica e socialmente (mergulharam numa vida sem sentido e experimentam a mais profunda solidão) e parece-lhes que já só lhes falta morrer biologicamente. Quererão realmente morrer ou quererão sentir-se amados?

Recordo Viktor Frankl, que dedicou uma parte significativa da sua obra e acção a ensinar que no amor é possível encontrar o sentido da dor, pois cada um de nós é chamado a superar-se, a esquecer-se de si, a oferecer-se a uma causa a realizar, a uma outra pessoa a amar, a Deus a quem quer servir ou entregar a sua vida. Trata-se de buscar o sentido da dor oferecendo-a por amor, num movimento oblativo a transformador, pois só o amor faz vencer o absurdo do sofrimento: de um “porquê”, passa-se ao “por quem (Quem)”, ou “por que causa” (Cf. V. Frankl, Psicoterapia nella pratica medica. Introduzione casistica, Firenze, Giunti-Barbèra, 1974, p. 173). 

Com a eutanásia (o termo “eutanásia” deriva do grego: eu, “boa”, e thanatos, “morte”) e o suicídio assistido provoca-se deliberadamente a morte de outra pessoa (matar) ou presta-se ajuda ao suicídio de alguém (ajudar a que outra pessoa “se mate”). A eutanásia não acaba com o sofrimento, acaba com uma vida!

Quer a eutanásia, quer a obstinação terapêutica (certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados), desrespeitam o momento natural da morte (deixar morrer): a primeira antecipa esse momento, a segunda prolonga-o de forma artificialmente inútil e penosa. 

Para nós, crentes, a vida não é um objecto de que se possa dispor arbitrariamente, é dom de Deus e uma missão a cumprir. E é no mistério da morte e ressurreição de Jesus que, como cristãos, encontramos o sentido do sofrimento. 

Mesmo se nos cingirmos a uma reflexão filosófica, não é lógico contrapor o valor da vida humana ao valor da liberdade e da autonomia. É que a autonomia supõe a vida e sua dignidade. A vida é um bem indisponível, o pressuposto de todos os outros bens terrenos e de todos os direitos. Não pode invocar-se a autonomia contra a vida, pois só é livre quem vive. Não se alcança a liberdade da pessoa com a supressão da vida dessa pessoa. A eutanásia e o suicídio não representam um exercício de liberdade, mas a supressão da própria raiz da liberdade.

Temos também consciência de que nunca pode haver a garantia absoluta de que o pedido de eutanásia é verdadeiramente livre, inequívoco e irreversível. Em fases terminais sucedem-se momentos de desespero alternando com outros de apego à vida. Porquê respeitar a vontade expressa num momento, e não noutro? Que certeza pode haver de que o pedido da morte é bem interpretado, talvez mais expressão de uma vontade de viver de outro modo, sem o sofrimento, a solidão ou a falta de amor experimentados, do que de morrer? Ou de que esse pedido não é mais do que um grito de desespero de quem se sente abandonado e quer chamar a atenção dos outros? Ou de que não é consequência de estados depressivos passíveis de tratamento? Estando em jogo a vida ou a morte, a mínima dúvida a este respeito seria suficiente para optar pela vida (in dubio pro vita).

Como cidadão e como crente, digo não à Eutanásia e ao Suicídio Assistido, pois trata-se da interrupção voluntária do amor e da vida!

 

† Nuno Almeida, bispo auxiliar de Braga

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