Arquidiocese de Braga -

14 julho 2005

Mulheres no banco dos réus

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Silva Araújo

\nDefendendo a legitimidade de um novo referendo ao aborto, o senhor Primeiro Ministro, ao responder no Parlamento, em 7 de Julho, ao senhor deputado do CDS-PP Pedro Mota Soares, disse: «Temos o direito a querer de novo perguntar aos portugueses se querem ter de novo mulheres no banco dos réus». Se me fizerem semelhante pergunta, de imediato digo não querer ver mulheres no banco dos réus. Nem mulheres nem homens. O que quero é que se respeite o direito à vida, também de bebés inocentes e indefesos. O que quero é que se não provoque o aborto. Só isso. Mas vou mais longe: Também não quero que um condutor surpreendido a conduzir em contra-mão vá parar à cadeia. O que quero é que todos respeitem o Código da Estrada e actuem de modo que todos possam usar o direito de circularem em segurança. Não quero que os supostos responsáveis por abusos cometidos em crianças sejam levados a tribunal. O que quero é que todas as crianças sejam tratadas com respeito. Não quero que os responsáveis pela pornografia infantil que circula na internet, em filmes e em revistas, sejam levados a tribunal. O que quero é que a pornografia infantil seja eliminada. Não quero que os proprietários das chamadas casas de alterne sejam levados a tribunal. O que quero é que se ponha termo ao comércio do sexo, ao tráfico de mulheres, ao aluguer do próprio corpo, à coisificação das pessoas. Não quero que os traficantes de droga sejam levados a tribunal. O que quero é que se não explorem as pessoas e se ponha termo ao consumo das drogas que convertem seres humanos em autênticos farrapos. Não quero que os responsáveis pela emissão de cheques sem cobertura sejam levados a tribunal. O que quero é que as pessoas tenham a coragem de não fazerem despesas acima das suas possibilidades, que vivam com dignidade e tenham a honradez bastante para satisfazerem os compromissos assumidos e paguem as dívidas. O que quero é que ninguém vigarize ninguém. Não quero que os ladrões sejam levados a tribunal. O que quero é que a propriedade privada seja respeitada. Não quero que os presumíveis homicidas sejam levados a tribunal. O que quero é que seja respeitado o direito de todas as pessoas à vida. Não quero que os presumíveis bombistas sejam levados a tribunal. O que quero é que se ponha termo às actividades terroristas, que se deixe de praticar actos violentos e que todos possam andar sem sobressaltos. Não quero que os presumíveis incendiários sejam levados a tribunal. O que quero é que as matas não ardam, que as pessoas procurem o lucro honestamente, que ninguém faça justiça por suas mãos nem destrua pelo prazer de destruir ou para satisfazer sentimentos de vingança. Que fique claro: não quero que os criminosos sejam levados a tribunal e passem dias, meses ou anos na cadeia. De forma alguma. O que quero é que se ponha termo à prática do crime. Mas não embarco no facilitismo nem na néscia tolerância de, para dizer que não há crimes, deixar de considerar criminosos actos que verdadeiramente o são. Não me creiam tão ingénuo que vá ao ponto de aceitar isso. Se agora descriminalizarmos os cheques sem provisão e a morte de bebés no ventre materno e depois descriminalizarmos outros comportamentos, até podemos chegar a ter, de um momento para o outro, um País onde não há crimes. Porque se passou a viver num paraíso ou a permitir a bandalheira total? O que verdadeiramente quero, insisto, é que toda a gente actue com sentido de responsabilidade. Que todos se sintam respeitados na sua dignidade, nos seus direitos, nos seus bens. Se alguém, abusando da sua liberdade, cometer actos que não deveria ter praticado, neles incluídos atentados contra o direito à vida de seres humanos no ventre materno, que seja responsabilizado por isso e assuma as consequências do que fez. Se houver pessoas que, usando mal da sua liberdade, quiserem praticar actos delituosos, gravemente lesivos do legítimo direito dos outros, mesmo sabendo que, se o fizerem, podem ser levadas a tribunal e ir para à cadeia, são elas que o querem. Eu, não. Silva Araújo Departamento Arquidiocesano das Comunicações Sociais