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D. Jorge Ferreira da Costa Ortiga | 24 Mar 2005
O MANDATO EUCARISTICO NO TECIDO SOCIAL
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O MANDATO EUCARISTICO NO TECIDO SOCIAL O dia da instituição da Sagrada Eucaristia é o momento propício para nos interrogarmos sobre a autenticidade das nossas celebrações. Obedecer ao mandato de Cristo de “Fazei isto em memória de mim”, deve ser um encargo que nos responsabiliza. Importa “repetir” mas urge reexaminar o conteúdo das celebrações com os desafios que nos coloca. Celebrar e participar é muito; fazer com que resplandeça a verdadeira autenticidade torna-se a marca visível de que aceitamos as interpelações deste Ano Eucarístico. O Santo Padre, na sua carta Apostólica, Mane nobiscum Domine, é muito eloquente. Aqui está um caminho eucarístico a percorrer. “ Porque não fazer então deste Ano da Eucaristia um período em que as comunidades diocesanas e paroquiais se comprometam de modo especial a ir, com fraterna solicitude, ao encontro de alguma das tantas pobrezas do nosso mundo? Penso no drama da fome que atormenta centenas de milhões de seres humanos, penso nas doenças que flagelam os Países em vias de desenvolvimento, na solidão dos idosos, nas dificuldades dos desempregados, nas adversidades dos imigrantes. Estes são males que marcam – embora em medida diversa – também as regiões mais opulentas. Não podemos iludir-nos: do amor mútuo e, em particular, da solicitude por quem passa necessidade, seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo (cf. Jo 13,35; Mt 25, 31-46). É com base neste critério que será comprovada a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas.” (M.N.D.28) Repetimos, com frequência, que a Eucaristia não se encerra nos templos. Só que, nem sempre a aceitamos como missão confiada por Deus para partir ao encontro de percursos a percorrer no quotidiano. O pão do altar conduz ao encontro das múltiplas pobrezas que desumanizam existências de homens e mulheres do nosso tempo. Duas atitudes poderíamos acolher como mandato de Cristo através do seu vigário na terra: 1 – A Eucaristia terá de ser um verdadeiro “projecto de solidariedade” em prol daqueles que nos rodeiam e das carências da humanidade. Participar nas celebrações, procurando reconhecer aí o supremo acto de devoção e entrega, obriga a “aprender” a arte de ser sensível e de expressar comunhão em todas as circunstâncias da vida. Pode ser engano pensar unicamente que vivemos numa íntima união com Deus. Sem a correspondente unidade concreta com o género humano, continuamos a ter eucaristias que negam o seu verdadeiro significado. Ficam como que incompletas, se não conseguem permear toda a existência com atenções e respostas aos mais necessitados. Se muitas vezes temos que fechar as portas das Igrejas, devemos abrir as janelas para permitir a consciencialização dos males e provocar o empenho em encontrar respostas. Cultivar a Eucaristia torna-se, deste modo, exigência duma cultura da solidariedade que promove uma caridade vivida em gestos que expressam a vontade de dar a vida. Só assim as celebrações serão fonte dum mundo onde acontecerá a paz, como consequência deste levar a comunhão eucarística até às últimas consequências. Cristo comungado “grita” no íntimo do coração dos crentes o conhecimento de multidões com fome e provoca a alegria de concretizar o “Dai-lhes vós de comer”. 2 – O Caminho da solidariedade leva-nos, ou deve levar-nos, ao interesse e serviço dos últimos. Para estes veio Cristo e para eles e a eles se entregam os que se alimentam da eucaristia. Provamos que vale a pena ter eucaristias quando elas são capazes de suscitar e estimular “um compromisso real na edificação de uma sociedade mais equitativa e fraterna”, o que acontece quando a opção pelos pobres é visível e actuante. O santo Padre ousa apelar para a necessidade de inverter os critérios de domínio que regem as relações humanas. Não somos grupo que se refugia em considerações pias, mas comunidade que se afirma através do critério do serviço: “ se alguém quiser ser o primeiro seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9, 35). Todos sabemos que S. João omite, no seu evangelho, a narração da instituição da eucaristia. Substituiu-a pela cerimónia, que vivemos há momentos, do “lava-pés” (cf. Jo 13, 1-20). O Santo Padre explica que “não é por acaso que Jesus se ajoelha para lavar os pés aos seus discípulos, pois aí explica o verdadeiro sentido da Eucaristia”. S. Paulo vai mais longe quando se expressa, com vigor e ousadia, afirmando que a celebração eucarística “não é lícita” se não resplandece a “caridade testemunhada pela partilha com os mais pobres” (1 Cor 11, 17-22.27-34). “Não posso elogiar-vos, porque as vossas assembleias, em vez de vos ajudarem a progredir, prejudicam-vos” pois “desprezais a Igreja de Deus e envergonhais aqueles que nada têm”. Se a Eucaristia é um “projecto” para uma sociedade também é “força interior”. Na verdade são muitos os dramas e problemas que nos afectam. Conhecer a realidade com olhos de ver é uma experiência que assusta. Não precisamos de ser negativistas para exagerar. A realidade parece estar para além das nossas forças. Acontece que o amor oriundo da eucaristia é um permanente milagre onde a disponibilidade para intervir, porventura parecendo exígua, adquire proporções duma verdadeira revolução. Basta não abafar nem extinguir esta força. A eucaristia é uma energia que ultrapassa todas as contrariedades. Queiramos nós compreender este dinamismo. Veremos coisas nunca sonhadas. Sendo projecto de solidariedade e serviço aos últimos, teremos de caracterizar esta capacidade de dar qualidade de vida a todos. Habitualmente não são os ricos os mais generosos, mas também importa não confundir o amor que revoluciona a sociedade com a atitude de dar coisas. A caridade é abrangente e estimula a redescobrir a importância das pequenas coisas. Muitas vidas podem ser salvas se os gestos, ao alcance de todos, forem eficazes. Pode não haver dinheiro para dar. Algo mais importante pode substituir esta dimensão material. Na mensagem do Santo Padre para esta Quaresma, encontramos um campo de acção verdadeiramente elucidativo. Os idosos deviam merecer maior atenção no que necessitam e, imperiosamente, precisam de ser acolhidos por aquilo que dão. Esperam ternura e carinho e proporcionam muita sabedoria acumulada. Parece-me que estamos a correr o risco de pensar que as estruturas materiais de apoio aos idosos resolvem todos os seus problemas. Há quem acredite que os lares são a resposta mais eficaz. Para mim são um meio que, não sendo condimentado pela caridade activa, se pode tornar número de estatística, ilusão de problemas solucionados. Trata-se dum engano. O materialismo das qualidades estruturais e a competência fria dos técnicos pode não satisfazer. Algo pode faltar onde parece haver tudo. As comunidades paroquiais ou similares deveriam ser exímias nesta presença da Eucaristia nas estruturas de solidariedade. Celebrar, repetimos muitas vezes durante a Quaresma, é alguma coisa, viver numa espiritualidade e solidariedade eucarística é a alegria duma permanente festa. O Ano Eucarístico também deveria chegar aqui articulando a Eucaristia com o lava-pés e o mandamento do amor. Não ignoramos outras franjas de pobreza. Os idosos precisam de muito mais do que uma pensão social justa. Esta é direito que só oferecerá alegria de viver se for acompanhada por doação e entrega. Não seria bom propósito para este Ano Eucarístico ter a coragem de examinar estas estruturas sociais, particularmente as ligadas à Igreja, e a acção caritativa das nossas comunidades através desta perspectiva? Saibamos merecer o dom da presença de Cristo na Eucaristia com um empenho renovado na caridade. Não havendo incidência no social, limitamos a força da maravilha que acontece sobre os nossos altares. Há outros altares que, faltando o pão, tornam a vida um pesadelo. Quinta-Feira Santa 20005. D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz
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