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20 Abr 2019
A Páscoa convida a sonhar
Homilia na Vigília Pascal
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  © Avelino Lima | Sé Catedral

Nesta Semana Santa, tenho proposto diversas reflexões a partir da simbologia que as pedras têm ou podem ter na nossa vida. Acompanha-me a Exortação Apostólica Cristo Vive.

Na vocação missionária a que todos somos chamados a viver, recolho uma outra ideia que pode dar um dinamismo novo à Páscoa, hoje celebrada, e àquela que celebramos todos os Domingos. Ela deixa em nós uma “inquietação insatisfeita”. O Papa fala da juventude como a época dos sonhos. Mas a Igreja, como um todo, não pode também deixar de sonhar. O amor de Deus e a relação com Cristo dilatam os horizontes das nossas vidas e do dinamismo das nossas comunidades. Promove-nos, estimula-nos. Lança-nos para uma vida melhor e mais bela.

É interessante ouvir o Papa numa linguagem coloquial e que não deixa margem a que os jovens, e também a Igreja, se instale nas metas alcançadas, nos objectivos já realizados. 

“Jovens, não renuncieis ao melhor da vossa juventude, não fiqueis a observar a vida da sacada. Não confundais a felicidade com um sofá nem passeis toda a vossa vida diante dum visor. E tão-pouco vos reduzais ao triste espetáculo dum veículo abandonado. Não sejais carros estacionados, mas deixai brotar os sonhos e tomai decisões. Ainda que vos enganeis, arriscai. Não sobrevivais com a alma anestesiada, nem olheis o mundo como se fôsseis turistas. Fazei-vos ouvir! Lançai fora os medos que vos paralisam, para não vos tornardes jovens mumificados. Vivei! Entregai-vos ao melhor da vida! Abri as portas da gaiola e saí a voar! Por favor, não vos aposenteis antes do tempo” (nº 143).

Cristo Ressuscitado contagia-nos com esta energia positiva de quem quer correr riscos, mesmo que possa cair no erro. Parar por medo do que poderá acontecer é pior do que cair no erro de nada fazer. Importa afastar de nós os medos e os receios. É tão fácil deixar atar ou prender as coisas já alcançadas na vida pessoal ou das comunidades.

Quando descobrimos Deus-amor e temos a certeza de que Ele deu a vida por nós, estamos conscientes de que todos os momentos são graças para subirmos mais alto e nos responsabilizarmos, por responder às solicitações novas sempre imprevisíveis de um amor experimentado. Os desafios são sempre novos e teremos de aproveitar ao máximo todas as possibilidades que nos são solicitadas ou sugeridas. Importa estar atento e ouvir a voz do imprevisto. Não somos discípulos dos esquemas feitos e das receitas pré-concebidas. A Palavra de Deus apaixona-nos e abre-nos sempre a experiências novas. Em cada situação teremos de desfrutar dos presentes que Deus nos concede. Recebemos as graças e colocamos a render tudo, nunca satisfeitos com as metas alcançadas.

Sabemos que a missão é uma só e vem de Jesus Cristo. Mas expressa-se em apelos sempre novos e diferentes para cada um. Os caminhos não são iguais. As responsabilidades, mesmo em campos idênticos de trabalho, têm uma novidade que encanta. É bom deixar-se guiar por sonhos que necessariamente nos vão projectando de novidade em novidade. A Igreja não pode deixar de alargar horizontes, como nos propõe o Programa Pastoral, e sonhar iniciativas novas e projectos ainda desconhecidos. Não se trata de sonhos adormecidos. Já chega! Urgem sonhos com olhos bem abertos, pés assentes na terra e ver a tarefa que nos é confiada.

Motivados pelos sonhos, desinstalados para ver mais longe, devemos cultivar a fraternidade, pois a alegria da Páscoa foi, já no tempo do Mestre, saboreada em comum. Pedro e João correram juntos para o túmulo e João esperou que, em comum, reconhecessem que o túmulo estava vazio. Os dois discípulos caminharam, embora tristes, rumo a Emaús. Sentiram e experimentaram a certeza do Ressuscitado. As coisas de Deus e da Igreja só se experimentam na fraternidade e nas vidas que se cruzam. É verdade! A Páscoa só é verdadeira com os amigos e, hoje mais do que nunca, a amizade deve ser cultivada. É ela que alenta na concretização dos sonhos e dos projectos delineados pois é ela que nos faz crescer no amor. “Através dos amigos o Senhor vai-nos polindo e fazendo amadurecer” (n. 151). “Um amigo fiel não tem preço” (Sir 6, 15).

Mas ter amigos não é egoísmo disfarçado. Ter amigos ensina-nos a abrir-nos, a compreender, a cuidar dos outros, a sair da nossa comodidade e do isolamento, a partilhar a vida” (n. 151), a percorrer sendas de fraternidade, crescer no amor fraterno, generoso. São Paulo recordava: “O Senhor vos faça crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos.” (1 Tes 3, 12). É este alargar a tenda da vida que comprova que os sonhos não são quimeras. Como tudo seria diferente se os cristãos tivessem verdadeiros amigos e vivessem para estabelecer pontes de amizade percorrendo os caminhos de entreajuda, de escuta recíproca, de disponibilidade para servir e ajudar, para ser presença amiga nos momentos bons e maus! Com experiências de verdadeira amizade, o cristianismo seria diferente.

O resultado do jogo do encontro das pessoas está na comunidade. “O Espírito Santo quer impelir-nos para que nós saiamos de nós mesmos, abracemos o seu bem. Portanto, é sempre melhor viver a fé juntos e expressar o nosso amor numa vida comunitária, partilhando com os outros (jovens) o nosso afeto, o nosso tempo, a nossa fé, as nossas inquietações. A Igreja oferece muitos espaços diferentes para viver a fé, em comunidade, porque tudo é mais fácil juntos.” (n. 164)

Os sonhos e os projectos debilitam-se pela tentação de nos encerrarmos em nós mesmos e nas coisas íntimas das comunidades. Sonhar unidos e vislumbrar grandes horizontes comuns torna-se uma experiência entusiasmante que os cristãos parecem não querer experimentar. Há tanto isolamento, tanta solidão, tanta teimosia nos projectos individuais e nas iniciativas da minha paróquia. 

Diz um provérbio africano: “Se queres andar depressa, caminha sozinho. Se queres chegar longe, caminha com os outros”. A amizade orientada para a fraternidade é a certeza da felicidade mas deve tornar-se, também, compromisso para transformar o mundo. O sonho de um mundo mais igual não pode ser utopia ou miragem. O que importa é que não nos fechemos nos nossos grupos e nas nossas actividades. A Páscoa é saída. Por vezes os nossos grupos são meros prolongamento do nosso “eu”. Segundo o Papa, este perigo agrava-se quando a vocação do leigo, jovem ou adulto, é concebida apenas como um serviço no interior da Igreja – leitores, catequistas, acólitos ou outros serviços – esquecendo-se que a vocação laical é, essencialmente, a caridade e fraternidade na família, a caridade social no compromisso com os carentes de sinais de vida e a caridade política que é uma disponibilidade assumida de, a partir da fé, construir uma sociedade nova, vivendo no meio do mundo e da sociedade para evangelizar os diferentes contextos sociais, construindo a paz e a justiça, trabalhando pela convivência entre os povos e culturas e lutando pelos direitos humanos.

Nesta noite maior, na grande festa dos cristãos, ousaria deixar a todos os cristãos o convite que o Papa formula aos jovens. Queremos que as coisas mudem, temos sonhos muito elevados, mas “sede protagonistas da revolução da caridade e do serviço, capazes de resistir às patologias dos individualismos consumistas e superficiais” (n. 174).

A Páscoa acontece sempre que aceitamos ser construtores de fraternidade e comunhão. Alarguemos os horizontes das nossas vidas e comunidades e sonhemos um mundo melhor.

Boa Páscoa para todos.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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