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Alexandre Gonzaga | Sé Catedral| 19 Abr 2019
Chorar pode não ser suficiente
Homilia na Celebração da Morte do Senhor
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Nesta hora carregada de emoção e dramatismo, em que recordamos a morte do inocente Jesus, que deu a vida para restituir a salvação e a dignidade à Humanidade, leio uma passagem da última Exortação Apostólica pós-sinodal Cristo Vive dirigida aos jovens e a todo o povo de Deus.

“Não podemos ser uma Igreja que não chora à vista destes dramas dos seus filhos jovens. Não devemos jamais habituar-nos a isto, porque, quem não sabe chorar, não é mãe. Queremos chorar para que a própria sociedade seja mais mãe, a fim de que, em vez de matar, aprenda a dar à luz, de modo que seja promessa de vida. Choramos ao recordar os jovens que morreram por causa da miséria e da violência e pedimos à sociedade que aprenda a ser uma mãe solidária. Esta dor não passa, acompanha-nos, porque não se pode esconder a realidade. A pior coisa que podemos fazer é aplicar a receita do espírito mundano, que consiste em anestesiar os jovens com outras notícias, com outras distrações, com banalidades” (n. 75).

Quais são estes dramas que afectam os jovens e tantas outras instâncias da sociedade? A marginalização e a exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas, a situação difícil de adolescentes e jovens que engravidam e que, muitas vezes, embarcam na praga do aborto, a difusão do HIV, tantas formas de dependências, nomeadamente as drogas, os jogos de azar, a pornografia, as situações das crianças e jovens de rua, quem não tem casa, família, trabalho, recursos económicos, alimentação, direitos sociais à saúde. Poderíamos continuar esta ladainha de situações que geram dor e colocam as vidas de muita gente em situações existenciais verdadeiramente dramáticas.

Não podemos passar ao lado destas situações graves. A morte de Cristo fala-nos de muitas vidas mortas. É impossível não as ver e não se deixar comover por elas.

No silencia do Calvário, convido-vos a que vejamos as dores da Humanidade. Paremos! Pensemos na realidade do sofrimento. Olhemos para ela com serenidade e consciência. Não precisamos de fugir do nosso quotidiano. Ao nosso lado, se estivermos atentos, existem muitas situações lancinantes. Entremos nos hospitais e imaginemos a dor dos doentes terminais. Consideremos o flagelo da violência doméstica que continua a matar com formas inimagináveis de verdadeiro terror. Vejamos os refugiados sem a serenidade de uma casa e de mínimos para viver. Confrontemo-nos com os migrantes que fogem de situações bélicas e de perseguição.

Que mundo este o nosso! Poderia dar o essencial a todos e, no entanto, permite que poucos concentrem em si riquezas que poderiam ser partilhadas. Poderíamos viver no oásis de uma natureza cuidada e respeitada para bem de todos e, todavia, soa o alarme de destruição consequente às alterações em curso. Importaria que a transparência e a honestidade significassem confiança mútua e não caminharmos por sendas tenebrosas da corrupção que vai impondo os seus tentáculos em tantos sectores. Gostaríamos de ver um respeito pela vida, desde a concepção até à morte natural e deixamo-nos conduzir por ideologias que destroem e matam.

Esta hora é momento para chorar a morte de Cristo e o modo como ela aconteceu. Mas temos, também, como nos recorda o Santo Padre, o dever de chorar por muitas outras realidades. Verónica, naquele doloroso momento, ainda limpou as lágrimas. Mas não seria melhor, hoje, deixá-las correr e esperar que sejam vistas por este mundo egoísta? Quem destrói a beleza da vida precisa de ser incomodado por este sinal. Será que se deixarão comover? Se as lágrimas não valerem para eles, serão ao menos úteis para nós… que sentimos que o mundo precisa de se confrontar com a incoerência dos comportamentos.

O mundo poderá mudar por aquilo que os outros realizam. É uma possibilidade. Ele muda e é diferente se eu não me deixar envolver nesses processos e jogos de poder. Temos de arriscar a via do testemunho que não espera resultados imediatos mas sabe que uma semente pequena pode gerar uma grande árvore com frutos de boa qualidade. O testemunho de cada um é muito significativo. É a única coisa que vale e que está ao nosso alcance. Se eu alterar os meus comportamentos egoístas e de procura de prazer, o mundo terá outro rosto. Parece ridículo o meu contributo. Só a partir de homens e mulheres renovados pela força do amor de Cristo será legítimo esperar uma sociedade mais justa e humana.

As verdadeiras revoluções nascem no coração de cada um. Dele emerge uma força que incide no quotidiano pessoal e que irradia para a vida. Cada um pode ser uma bênção para a Igreja e para o mundo.

Na Exortação Apostólica Cristo Vive, o Santo Padre recorda, com insistência, a vocação à santidade enquanto missão universal. Se olharmos para a vida dos santos, verificamos que não nasceram santos. Muitos deles levaram uma vida mundana e sem compromisso com Cristo. Algum episódio doloroso nas suas vidas fizeram-nos compreender que o sentido da vida é a doação e a entrega. Depois, deixaram uma marca na História e pegadas bem profundas que convidaram muitos a imitá-los. O que aconteceu com S. Francisco? A miséria dos outros, a doença do leproso, levou-o a desapegar-se de tudo para abraçar a pobreza. A sua vida foi uma revolução para a Igreja. Muitos o seguiram. O seu espírito continua presente. Bastou um passo e uma decisão.

Há dias, o Papa Francisco, em Marrocos, celebrando para a comunidade pouco numerosa de cristãos, sublinhou algo muito importante. “O problema não está no facto de ser pouco numerosos mas de ser insignificantes, tornar-se sal que já não tem o sabor do Evangelho, este é o problema, ou uma luz que já nada ilumina”. Não poderemos ver nestas palavras um alerta capaz de destruir a nossa inércia missionária de suscitar e a pureza do nosso discipulado? A sociedade secularizada necessita da presença de cristãos mais autênticos. Na Arquidiocese somos muitos. Mas, estaremos a testemunhar o valor do nosso cristianismo?

Perante os males da sociedade, chorar pode ser pouco. Comprometermo-nos com o testemunho de amor não é suficiente. As nossas comunidades são desafiadas ao testemunho profético de denúncia das situações indignas da sociedade actual. Em nome de quem sofre, as nossas comunidades acolhedoras não podem calar-se e deixar correr. Não será que devemos intervir e suscitar uma acção performativa para um mundo melhor. A morte de Cristo poderá exigir. Emprestemos a nossa voz a quem já não tem vontade de falar.

A morte de Cristo que hoje meditamos coloca-nos no mundo. Choramos os males, não nos afastamos da miséria e pedimos coragem ao Senhor da vida e da morte para ser causa de esperança para quem há muito não a sente com o testemunho do amor e a responsabilidade de construir algo de novo. A morte de Cristo merece que façamos mais.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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