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3 Fev 2019
Universidade Católica, ao serviço do comum
Homilia no Dia da Universidade Católica Portuguesa
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A liturgia de hoje coloca-nos perante as exigências da vocação. Se a primeira leitura nos explica a vocação de Jeremias, no Evangelho Jesus apresenta-se como um profeta na sua terra. Hoje assumimos a mesma configuração. Somos escolhidos, consagrados… somos constituídos profetas para o anúncio do Reino de Deus. O profeta não é aquele que prevê o futuro. É, em boa verdade, alguém que fala em nome de Deus para dar cumprimento a um projecto divino de salvação e de libertação. De entre todo do povo, sabemos que Deus nutre um carinho especial pelos excluídos e marginalizados. A Palavra de Deus nem sempre se acomoda ou se adapta aos critérios dos ouvintes. Não é proclamada para agradar às pessoas e por isso, muitas vezes, incomoda e desagrada, chegando mesmo a colocar em risco quem a pronuncia. A palavra do profeta tem como único objectivo a procura da Verdade e, por isso, gera sentimentos contraditórios. Muitas vezes admiração e maravilha mas muitas outras rejeição e ódio. Os profetas nem sempre foram acolhidos e Jesus sabe que nenhum profeta é bem recebido na sua terra.

Também hoje, a Igreja tem a missão de servir a Palavra de Deus. Não se serve dela. Acolhe-a no seu radicalismo e, consciente de uma vocação de Deus que chama, consagra e faz dos seus membros profetas. A Igreja não teme anunciar. É a razão da sua existência, ainda que muitas vezes os cristãos pareçam estranhos na sua terra por aquilo em que acreditam.

Vivemos numa sociedade de interesses. Promove-se o egoísmo e procura-se o bem estar à custa de estratagemas e processos indignos do ser humano. Parece que vale tudo desde que consiga o que se pretende para o bem pessoal e das pessoas que são próximas. Creio, neste âmbito, que a Igreja poderá ser profética ao propor os valores intemporais do Evangelho e ao testemunhar com acções e modos de estar concretos. Pretende-se apontar a lógica do bem comum dado que a plena realização humana só é alcançada na medida em que se supera a lógica do “eu” para vivermos e trabalharmos nas exigências de sermos um “nós” genuíno “com” e “pelos” outros. Crescemos na vida quando a vocacionamos em favor dos outros e em atitude colegial.

A doutrina da Igreja é eloquente no que se refere ao bem comum. Importa compreender o alcance desta doutrina e verificar que, mesmo contra-corrente, ela é uma pedrada no charco nos actuais dinamismos da vida social. Tal postura tem a capacidade de fazer renascer comportamentos que podem alterar radicalmente a convivência social. Mas, em que consiste o bem comum? Segundo o espírito do Concílio Vaticano II, entende-se por bem comum o “conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição.” Depois, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja explicita: “Uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a que se propõe como meta prioritária o bem comum, enquanto bem de todos os homens e do homem todo” (165).

Servir todas as pessoas é um imperativo para a Igreja Católica, em todas as suas estruturas e instâncias, mas também para todos os indivíduos e formas de sociabilidade, desde a família ao grupo social onde estamos integrados, da associação à qual pertencemos, à empresa onde trabalhamos, à freguesia onde vivemos ou à cidade onde nos integramos, ao Estado onde devemos exercer uma cidadania participativa, à consciência de pertencermos à comunidade dos povos ou de outras nações. Nestes espaços, estamos para servir e trabalhar por uma humanidade mais solidária, igual e fraterna. Procurar o bem pessoal só faz sentido quando luto pelo bem de todos, oferecendo a minha vida pela luta contra todas as desigualdades, marginalizações ou aproveitamento dos mais débeis.

Esta responsabilidade de trabalhar pelo bem de todos só se completa quando se considera tal bem na integralidade, ou seja, com exigências materiais e espirituais. Atende-se a todos os homens mas também o Homem no seu todo. Não deveria ser possível “privar o bem comum da sua dimensão transcendente.” Uma visão puramente histórica e materialista transforma o bem comum em simples bem estar económico, o que deturpa a razão profunda da vida humana. A concentração no material asfixia e provoca conflitos insanáveis por mais progressos que possamos atingir. O profetismo na Igreja, de que falava no início, requer coragem para mostrar a necessidade e a urgência da presença de Deus nesta missão de restituir dignidade a todos.

O bem de todos e do Homem todo implica ainda a responsabilidade de todos pois ninguém está dispensado de colaborar, de acordo com as suas reais possibilidades, na construção deste sonho de uma sociedade verdadeiramente humana. É possível viver de modo egoísta, é certo. Mas a vida cristã passa pela consciência de um serviço à Humanidade à imagem de Cristo que não veio para ser servido mas para servir. Ao trabalharmos pelo bem comum sabemos que todos têm direito a usufruir “das condições de vida social criadas pelos resultados de conservação do bem comum”. Isto é uma verdade válida para mim, mas que me responsabiliza, ao mesmo tempo, a trabalhar para que, de facto, todos, sem excluir absolutamente ninguém, possam saborear a beleza de uma comunidade humana onde nada de necessário falta a ninguém.

Quis partilhar estas considerações no dia da Universidade Católica Portuguesa. Também ela, nesta consciência missionária que queremos dar a todas as instituições da Igreja, tem uma missão muito concreta. O lema escolhido para este dia – “A ciência ao serviço do bem comum” – é elucidativo em relação ao que pode fazer. Precisamos de viver a responsabilidade de trabalhar pelo bem comum. A ciência, nos diferentes cursos, pode e deve dar uma fundamentação ajudando as comunidades cristãs a construírem um projecto de empenho e compromisso pelos outros. A nossa colaboração económica, expressa no peditório deste dia, ou noutros momentos, será também um estímulo para que isso aconteça. Conto com o contributo da Universidade Católica Portuguesa para a desenvolvimento do Reino de Deus na nossa Arquidiocese de Braga, do mesmo modo como asseguro a nossa ajuda e colaboração na nobre missão que esta instituição desenvolve em favor da Igreja em Portugal.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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