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Semeadores de Esperança: VII Tema
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13 Jun 2018
Sto. António de Lisboa: sal e luz do mundo
Homilia na festa de Sto. António
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Se hoje nos consideramos cristãos, e temos acesso às palavras de Cristo, devemo-lo aos nossos antepassados. Ao longo de séculos e séculos, graças a pessoas simples – como os nossos pais e avós – e aos grandes mestres da espiritualidade, o testemunho do evento pascal foi-nos transmitido ininterruptamente. Nem sempre valorizamos ou nos apercebemos do feito que isto representa. Passaram-se já dois mil anos desde que o Verbo incarnou e, no entanto, a vitalidade das palavras dos antepassados faz-nos parecer que foi ontem mesmo que Cristo veio ao nosso encontro.

Creio ser este despertar para a urgência do anúncio de que nos fala o Evangelho de hoje. As palavras escolhidas pelo evangelista Mateus são paradigmáticas: tornar-se sal e luz do mundo. Conceitos simples do dia-a-dia que nos ajudam a perceber que, na sua ausência, o nosso quotidiano seria bem diferente. O sal dá sabor e conserva os alimentos. A luz, por sua vez, ilumina, dá cor e vida ao mundo. O que seria o mundo sem sal e luz? Eis então que Jesus nos interpela dizendo: vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo! Por analogia, o cristão é aquele que traz um valor acrescentado às propostas da sociedade, da política e do trabalho. Fá-lo propondo os valores universais do Evangelho e uma pedagogia humanista aquilatada ao longo de gerações.

A evangelização não é um acção padronizada. Depende de muitos factores e, sobretudo, depende da personalidade, do empenho e dos dons que cada um possui. Não obstante a diversidade de actuação, algo permanece comum: evangelizar é um dever de todo o cristão. Um dever ou responsabilidade que nasce no baptismo e que se prolonga ao longo da sua existência terrena. 

Anunciar o espírito do Evangelho pode ser feito por gestos, atitudes ou ainda por palavras. Quando olhamos para a história da Igreja encontramos grandes exemplos de santos que, pelo seu modo de vida, incarnaram de modo indelével a figura do Bom Pastor. Basta-nos recordar Madre Teresa de Calcutá, um santa que dedicou a sua vida a cuidar silenciosamente dos mais pobres. Ou ainda Frei Bartolomeu dos Mártires que percorreu milhares de quilómetros para estar próximo dos seus fiéis, assim como a Beata Alexandrina de Balasar que nos leito de sofrimento acreditava e anunciava o amor de Deus. São apenas alguns modelos de pessoas que, pelos gestos, trouxeram um pouco de luz ao mundo.

Mas existem ainda outros santos que, pela sua palavra e ensinamento, dão sabor à mensagem de Cristo. Tal é a sua eloquência, mestria e profundidade que nos fazem ver as coisas de um modo renovado. É o caso, sem dúvida, da figura de Santo António, de quem hoje fazemos memória.

Santo António de Lisboa, também conhecido por Santo António de Pádua, viveu na viragem do século XII para o século XIII. A sua fama de santidade levou-o, passados poucos anos da sua morte, a ser canonizado e o seu grande saber teológico tornou-o, de modo semelhante, uma das figuras mais respeitadas da Igreja de então. Foi a 16 de Janeiro de 1946 que Pio XII o proclamou Doutor da Igreja, apelidando-o inclusive de Doutor Evangélico.

O que é que isto significa? Foi unânime o reconhecimento de que a sua vida foi pautada por valores profundamente evangélicos e que os seus sermões se apoiavam na Sagrada Escritura, assim como nos Padres da Igreja, particularmente em Sto. Agostinho. Como sabemos, Sto. António, antes de ser Franciscano, tinha sido Cónego Regrante de Sto. Agostinho. É curioso percebermos a influência que S. Francisco exerceu na sua vida. Segundo o espírito de Francisco, Cristo está sempre no centro da vida e do pensamento, da acção e da pregação. Este é um traço típico da teologia franciscana: o cristocentrismo. Com simplicidade, e de modo particular, contempla-se o mistério da natividade, o Deus que se fez criança e que foi confiado ao cuidado das nossas mãos. A incarnação é, por isso, um mistério que suscita sentimentos de amor e de gratuidade pela bondade divina.

Um biógrafo de Sto. António relata-nos que ele estudava a Sagrada Escritura de dia e de noite. “Mostrava um conhecimento exaustivo das escrituras e uma memória prodigiosa e invulgar”. A Sagrada Escritura era para ele – continua o autor – como “ouro puríssimo”. Inspirava-o uma incessante procura pela Verdade. E se a Verdade se encontrava na Sagrada Escritura, então era necessário interpretá-la à luz do Antigo e Novo Testamentos. Por outro lado, a exegese da Sagrada Escritura implica reconhecer a priori a força da Palavra e o quanto ela pode ser um instrumento de aproximação do Homem a Deus. 

Podemos, deste modo, dizer que Deus e o Homem estiveram sempre no centro das preocupações de Sto. António. Com simplicidade referia que existem dois amares gémeos: o amor a Deus e o amor ao próximo. Por outro lado, encontramos na sua teologia duas linhas de pensamento: o homem é um microcosmos e todo o homem é imago Dei. Pela primeira afirmação é assegurada a inserção do Homem no mundo e na realidade natural. Pela segunda, confirma-se a participação do Homem no horizonte espiritual. Porquê esta dupla ligação? Pela simples razão de que na realidade humana, enquanto tal, não é possível desligar o visível, que se apresenta como corpo, do invisível, a que corresponde a alma. 

Sendo então todo o Homem imago Dei, é natural que Sto. António incentivasse à universalidade da santidade. Todo o cristão deve tender para a “perfeição superior” através da “elevação espiritual”. Há um esforço, um caminhar que conta sempre com a ajuda da graça divina. E, concretamente, a perfeição atinge-se na vida activa caminhando de virtude em virtude – com especial atenção às virtudes teologais – e respeitando a primazia do amor a Deus e ao próximo.

Trata-se, por isso, de um ciclo virtuoso que define com duas expressões programáticas para a vida espiritual nos tempos que correm: a mistica cordis e a primazia do afecto oculus cordis. Diz um autor francês que “o doutor franciscano é um representante de uma teologia afectiva, de uma teologia do coração e do afecto, que se tornará cara aos filhos de S. Francisco e a toda a escola franciscana”. Como nunca, desconhecemos a importância de gestos e atitudes que o coração simboliza. Com ele podemos olhar para a vida e crescer numa mística geradora de comportamentos de proximidade, de compreensão e de verdadeiro afecto para com todos.

Sto. António de Lisboa desenvolveu ainda uma outra via teológica que influenciou a Igreja ao longo de séculos. Foi a mística nocturna, simbolizada nas palavras noite, trevas, sombras, névoa, obscurecimento que usava com muita frequência. É o lado do sofrimento e da exigência própria de ser discípulo de Cristo. Mas isto não significa, de imediato, ausência de esperança. Antes pelo contrário, fixando o olhar no crucificado tudo é ultrapassado e o que parece noite descobre a aurora e as sombras dissipam-se. É a vivência pessoal da esperança e a obrigação de nos aproximarmos dos crucificados de hoje para os libertarmos dos seus sofrimentos. 

Sto. António é, assim, o grande pregador que estima e trabalha a Sagrada Escritura para que a santidade e a perfeição de vida estejam ao nosso alcance. Este é o caminho que temos de trilhar como Arquidiocese. Na noite, despertar a esperança e no mundo, olhando com o coração, semearmos a esperança. Talvez a melhor homenagem que podemos prestar ao Doutor Evangélico é a estima pela Sagrada Escritura. 

Renovo, neste sentido, o convite a criarmos “Grupos Semeadores de Esperança”. São uma oportunidade singular para aprofundarmos, em grupo, a Palavra de Deus e a criarmos um espírito de comunidade. Convido, ainda, a anunciarmos Deus através dos dois amores gémeos: a Deus e ao próximo. Que Sto. António nos abençoe e nos mostre o caminho da santidade incarnada no mundo.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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