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Semeadores de Esperança: VII Tema
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20 Mai 2018
Com a Trindade, um novo dinamismo cristão
Homilia na peregrinação arciprestal da Póvoa de Lanhoso
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  © Avelino Lima | Senhora do Pilar

Na lógica da Solenidade que hoje celebramos, o Pentecostes, quero confiar a todos os católicos deste arciprestado a missão de continuarem o anúncio da Boa Nova. Outrora, no cenáculo, os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, que estava presente sob a forma de línguas de fogo, ganharam uma nova responsabilidade. O Evangelho completa o que aconteceu nesse momento. “Assim com o meu Pai me enviou, também eu vos envio a vós”. 

Fomos enviados em missão, com a diversidade das nossas capacidades e talentos, para manifestar os dons de Deus oferecidos a todo o Homem. Não trabalhamos para nós. Em Deus estamos em permanente estado de missão. Gostaria de gritar que somos convocados e enviados para uma única missão: perpetuar a presença de Cristo na história da Humanidade. O Pentecostes fala-nos do Espírito Santo que nos introduz na comunhão da Trindade, mas a comunhão é para a missão e não há missão sem comunhão. São duas dimensões essenciais e constitutivas do único mistério da Igreja: “o Verbo encarnado, mediante o Seu espírito, enquanto acolhe na comunidade divina a Igreja, torna-a participante da missão de salvação, recebida do Pai, e nessa e por essa a realização contínua na história”. A comunidade da Santíssima Trindade é a fonte e o modelo da Igreja: a salvação é oferecida por Deus Pai no prolongamento da missão do Filho com a presença e o impulso do Espírito Santo. Mais ainda, não podemos realizar a missão sem a comunhão pois a finalidade da missão consiste em levar aos homens a comunhão com Deus e entre eles.

Deus confiou à Igreja e a todo o povo de Deus uma missão que veio do céu e que pretende conduzir todos até à glória eterna. A Trindade é sempre, e nunca nos podemos desfocar desta certeza, a origem, o modelo e a meta do apostolado da Igreja. A missão vive-se na terra e na história concreta dos homens com as suas alegrias e tristezas. Missão essa que é interpretada a partir das preocupações de Cristo: libertar os homens do pecado e restituir-lhes a dignidade de filhos de Deus. A missão conduz-nos ao encontro com a Humanidade, à experiência que esta faz do pecado, do perdão e da graça. Falamos, neste sentido, do aspecto negativo da salvação, ou seja, a libertação do pecado, bem como do seu lado positivo, a geração filial. A missão foi e deve ser este entrar em contacto com as realidades negativas, muitas vezes indignas do ser humano, e que traem o projecto de um humanismo para o qual fomos criados.

Também hoje somos enviados ao mundo para reconhecer quando o mistério do mal impõe os seus critérios. Não podemos fazer de conta que não vemos. A sociedade moderna está marcada por sinais de degradação e maldade. O mal infiltrou-se nas leis e nas instituições e nem sempre somos capazes de o identificar. Outrora era fácil descobrir as origens. Hoje, numa verdadeira confusão civilizacional, só nos vamos apercebendo das consequências e, quando o conseguimos, verificamos que permeiam o pensamento e as atitudes de um mundo que orgulhosamente se autodenomina de moderno, desconsiderando ou marginalizando quem vive de um modo diferente. 

A Igreja, através dos seus fiéis, deve procurar descortinar o mal e as suas sementes e, sobretudo, trabalhar para o eliminar. É uma responsabilidade de envergadura histórica porque o mundo está a ser conduzido por rumos que os vindouros reconhecerão como sendo prejudiciais para a sociedade. Em linguagem mais cristã podemos falar da libertação do pecado existente no quotidiano das pessoas, estruturas e instituições.

É ainda mais aliciante viver a fé cristã trabalhando por construir uma sociedade melhor, acolhendo a dignidade de filhos de Deus e orientando-se, como consequência, pelas exigências evangélicas que esta dignidade comporta. Quase sempre nos deixamos envolver num horizonte de tradições repetitivas e vividas sem consciência. Mas o cristão verdadeiro, como refere o Papa Francisco, não pode ter medo de apontar para o alto e tentar atingir a perfeição.

A vida cristã é como um suceder-se de palavras e acções evangélicas que se constroem com esforço. Palavras e acções conscientes, assumidas quase como militância, que edifiquem comunidades cristãs e proponham um modelo de sociedade com iniciativas eloquentes. É chegada a hora das nossas comunidades não olharem apenas para si. Continuamos a encontrar na semente lançada nos diversos ambientes a imagem que nos define. Houve um tempo em que tudo girava em torno das igrejas paroquiais. Hoje há muita outra vida fora delas. Mas delas deveria nascer uma torrente de iniciativas, talvez de índole profano, que gritassem o Evangelho pelo seu dinamismo e agissem nos contextos seculares que parecem avessos a estes valores.

Trata-se de um grande desafio para as comunidades e para os leigos. A vida da Santíssima Trindade tem um dinamismo intenso na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Mas expande-se através da Encarnação do Filho e continua ao longo dos tempos com assistência do Espírito Santo. A Igreja assume-se, ou deveria assumir-se, como a continuação da presença de Deus na história da Humanidade. Nada do que é humano lhe é estranho e, por isso, o espírito do Evangelho deve penetrar, graças ao empenho dos leigos, nos meandros da política, da economia, do direito, da saúde, etc. Tenho repetido esta doutrina em muitas ocasiões. Os resultados ainda são poucos. Os leigos devem despertar e agir em nome da Igreja, partindo do coração das comunidades a que pertencem. A Igreja não existe para realizar actividades, mas se a fé não se incultura em tudo quanto é humano, torna-se algo despiciendo para a própria Igreja e para a sociedade. Quando organiza iniciativas que mostrem uma fé viva, a vocação de luta contra o mal e promoção do bem sai vencedora. Encarnar o amor de Cristo em todas as realidades humanas é aquilo que o Espírito solicita hoje à Igreja.

Neste contexto, é necessário recordar o encerramento da Semana da Vida. Dêmos graças a Deus pelo dom da vida e empenhemo-nos em defendê-la desde a concepção até à morte natural. Elucidemo-nos sobre o que se pretende com a eutanásia e criemos uma corrente de pensamento capaz de impedir a legislação sobre esta melindrosa realidade. Não se trata de uma questão religiosa! É o primeiro direito do qual dimanam todos os outros. Circunscrevê-lo a determinadas condicionantes é um atentado que ofende a cultura do nosso povo.

O rumo a trilhar descobre-se quando nos unimos para acolher a Palavra e permitimos que o seu dinamismo passe pelo testemunho diário. Não queremos uma fé sem incidência no quotidiano. Daí que temos vindo a insistir na importância dos Grupos Semeadores da Esperança. Ainda não levamos a sério esta sugestão. Algo já existe mas muito mais poderia existir. Todos temos vidas muito ocupadas, é certo. Mas peço-vos a coragem de reservar um pouco de tempo por mês para se encontrarem na Igreja ou nas casas e permitirem que, com Jesus no meio, Ele fale, crie intimidade uns com os outros e lance propostas de vida evangélica. Creio que estes grupos são um modo de vivermos na senda da Santíssima Trindade. Sei que a Senhora do Pilar fará com que as paróquias levem a sério esta sugestão do Programa Pastoral. 

Com Maria, sentiremos alegria na fé que professamos mas, com o Espírito, queremos levá-la ao mundo que nos rodeia.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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