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Semeadores de Esperança: VII Tema
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1 Abr 2018
Estradas da ressurreição
Homilia no Domingo de Páscoa
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  © Nuno Cerqueira | Sé Catedral

Cristo Ressuscitou. Este é o primeiro dia da Semana, o dia em que o Senhor venceu a morte. Para trás ficaram 40 dias de Quaresma, de preparação interior para a vinda do Messias, e temos diante de nós um novo tempo mistagógico para interiorizarmos e expandirmos o evento Pascal. Foram 40 dias onde acompanhámos os passos da paixão e morte de Jesus: a entrada triunfal em Jerusalém, a última ceia, a agonia no horto das oliveiras, a condenação e humilhação, a crucifixão e a sepultura. Acompanhámos ainda os intervenientes e a mistura de sentimentos e opções em momentos críticos. Tivemos consciência do quanto o Homem pode ser frágil e incoerente em tempos de ameaça mas também altruísta e bondoso perante uma injustiça flagrante. Tudo isso terminou e foi perdoado por Cristo no alto da cruz. “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

O primeiro dia, mais do que uma referência temporal, é a indicação de que está prestes a iniciar um tempo novo. Disso nos dá conta o Evangelho deste Domingo. Maria Madalena, Pedro e João correram para o sepulcro e deram conta que estava vazio. Era de manhãzinha, ainda escuro. Uma escuridão exterior e interior. Poucos dias antes, Maria convivia com o Mestre, ouvia os seus ensinamentos, e agora caminha para cuidar do seu corpo maltratado. Mas o corpo não estava lá. Este acontecimento espantou também os apóstolos. O que se teria passado? A recebê-los estava, diz-nos Mateus, um anjo do Senhor que desceu do céu após um grande terramoto. O anjo anunciou-lhes que o crucificado havia ressuscitado.

Sabemos hoje, com a segurança da fé, que Cristo ressuscitou. A notícia é de tal modo majestosa que deve ser partilhada por todo o mundo. É, no fundo, isso o que significa a corrida de Pedro e João. O primeiro representa a Igreja ainda ligada ao judaísmo, aos seus ritos e tradições. O segundo, o discípulo amado, representa a Igreja da esperança e do ressuscitado. Corre mais veloz, destemido e apressa-se por saber da novidade. Chegando ao sepulcro, debruçou-se, viu mas não entrou. Pedro, mais lento, entrou no sepulcro, viu e confirmou. É bonita esta imagem das duas velocidades da Igreja. Também hoje temos uma Igreja que caminha a vários ritmos. Alguns falam de tradicionalistas e progressistas. A juventude anseia por catapultar a Igreja para o futuro e os anciãos, com a sua experiência de vida, tomam decisões mais ponderadas e reflectidas. Estamos dos dois lados. Somos fiéis a uma tradição que confirma os nossos passos e mergulhamos no futuro com ânsia de novidade. Os dois ritmos são igualmente válidos e precisam um do outro para, na verdade, espelharem a identidade da Igreja: inovação nas metodologias da evangelização e segurança nos princípios e valores que transmite. Valores esses que nem sempre correspondem àqueles propostos pela sociedade e que devem ser validados à luz do ensinamento de Cristo.

É nesta dupla estrada calcorreada por Pedro e João que nos queremos colocar. Queremos conduzir e preparar a Igreja para um tempo novo, com sinais claros de esperança. Proponho, hoje, esta estrada com cinco bifurcações.

1. Estrada da pobreza e humildade. A experiência da paixão e morte de Jesus mostra-nos o quanto as coisas podem mudar de um momento para o outro. Um dia Cristo é aclamado rei, ao som de hossanas, e no outro é humilhado e crucificado. Ser fiel aos princípios choca, muitas vezes, com as expectativas das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, a Igreja não se pode advogar a dona da verdade. A Igreja do ressuscitado deverá ser humilde, reconhecer as suas fragilidades e estar sempre pronta a recomeçar. A humildade traduz-se também num modo simples e pobre de se apresentar ao mundo. Ser pobre é um caminho evangélico que nos ajuda a centrar no essencial. Ajuda-nos, sobretudo, a desprender daquilo que não interessa para sermos ágeis, leves e livres para partir em missão.

2. Estrada do acolhimento. Já tive oportunidade de referir por diversas vezes que acredito que o acolhimento e a hospitalidade serão traços essenciais da Igreja de amanhã. Hospitalidade é a coragem de acolher as pessoas no ponto em que se encontram, com a diversidade de pensamento e fazê-lo sem preconceitos. As pessoas referem-se à Igreja como sendo uma instituição de difícil acesso, burocrática e incapaz de compreender os dramas das pessoas. Por vezes temos tanta vontade de dizer aquilo em que acreditamos que nos esquecemos que, antes de mais, é necessária disponibilidade para escutar. O que seria de Maria Madalena se não tivesse escutado com atenção as palavras do anjo? O que será da Igreja se for incapaz de se colocar à escuta?

3. Estrada do diálogo com a cultura. A ressurreição foi, em muitos aspectos, uma novidade absoluta para os discípulos. Cresceram com o paradigma do Messias, da libertação e da lei. Agora tiveram de se reinventar, de mudar de paradigma e falar com uma nova linguagem: ressurreição, vida e anúncio. Imaginamos a dificuldade dos seus contemporâneos em compreender aquilo que diziam. Talvez hoje estejamos a atravessar um processo semelhante. Como disse o Papa Bento XVI, “não podemos dar por pressuposto que a fé existe”. A cultura contemporânea não é a mesma de há algumas dezenas de anos. Muitos não compreendem a nossa linguagem, o nosso imaginário e o nosso pensamento. Esta estrada deve, por conseguinte, conduzir-nos a uma reinvenção da linguagem e das pontes que unem a Igreja e a cultura. Este é um imperativo se quisermos continuar a falar de Jesus.

4. Estrada da iniciação cristã. Porque a fé não é mais um pressuposto óbvio, a Igreja do ressuscitado precisa de activar processos de iniciação cristã de adultos. O próprio processo de maturidade humana é cada vez mais tardio e, neste sentido, a Igreja deve ter metodologias adequadas a esta circunstância. Isto não significa desvalorizar a catequese tradicional das crianças. Significa que estamos num tempo novo e que as questões dos adultos têm uma densidade e horizonte diferentes e, por isso, devem ser levadas a sério. São cada vez mais os jovens adultos que se aproximam da Igreja para se baptizarem. Ontem, na vigília pascal, tivemos oportunidade de comprovar isso mesmo. Questiono-me se estaremos a fazer o suficiente. Não estaremos demasiado confortáveis à espera que os jovens venham ao nosso encontro ao invés de assumirmos uma postura proactiva?

5. Estrada da comunhão. Todos os textos bíblicos, inclusive o que acabámos de escutar, falam-nos da dimensão comunitária do anúncio. Os apóstolos são enviados dois a dois, os discípulos caminham em conjunto para o sepulcro e, mais tarde, a comunidade cristã reúne-se no cenáculo, com Maria, em oração. Trabalhar em conjunto ou, se preferirmos, em comunhão é uma exigência da missão. Longe vão os tempos em que as comunidades trabalhavam de modo isolado e eram autosuficientes. Longe vão os tempos do bairrismo e dos projectos pessoais. A comunhão não só é um testemunho para o mundo como uma necessidade. Peço, por isso, a todas as comunidades cristãs que se preparem para o futuro, que trabalhem em conjunto e coloquem a render os seus talentos em favor das comunidades vizinhas.

As cinco estradas que agora proponho – e poderia indicar muitas outras – conduzem com esperança a Igreja para o “primeiro dia da semana”. O dia em que a Igreja fará a experiência do Ressuscitado e, com humildade, regressará ao espírito das bem-aventuranças. Rezo a Deus, e peço a todos os cristãos da nossa Arquidiocese, que esse tempo tenha início hoje mesmo. Hoje é, se assim o quisermos, o primeiro dia. Cristo ressuscitou, aleluia!

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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