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dacs com omnes | 28 Jul 2022
Vittorio Scelzo: “Os idosos pedem para não serem deixados sozinhos”
“Esta é a primeira vez na história que o envelhecimento se tornou um fenómeno de massas”. Assim o diz Vittorio Scelzo, responsável pela pastoral dos idosos no Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, nesta entrevista à Omnes.
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  © DR

A Igreja celebra hoje [24 de Julho], pelo segundo ano, o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos 2022 com o lema: “Dão fruto mesmo na velhice”. Foi precedido por vários meses de catequese sobre a velhice, os idosos e o papel da família que o Papa Francisco desenvolveu nas suas audiências de quarta-feira.

Scelzo também destaca nesta entrevista que os idosos pedem fundamentalmente à Igreja “que não os deixe sozinhos, e a Igreja, especialmente com o magistério do Papa Francisco, é muito clara: abandonar os idosos é um pecado grave”.

 

A mensagem do Papa para este Dia destaca uma realidade típica do primeiro mundo: o medo da velhice. Como é que isso nos afecta na família, na Igreja?

O Papa fala do medo de envelhecer. É algo de que todos temos consciência: associamos a velhice à perda de autonomia, de saúde. Pensa-se muitas vezes que envelhecer significa de alguma forma perder a dignidade pela fragilidade que se vive. No entanto, envelhecer — assim diz a mensagem — é uma dádiva. Afinal, durante séculos um dos grandes objectivos da humanidade foi viver muito tempo. Agora que uma vida mais longa se tornou uma realidade para muitos, as nossas sociedades não parecem estar preparadas. A velhice é algo novo. É a primeira vez na história que o envelhecimento se torna um fenómeno de massas. Não estamos preparados e é por isso que o Papa dedica tanta atenção aos idosos: é necessário desenvolver a reflexão sobre esta idade da vida. Será um dos desafios mais importantes dos próximos anos.

 

A população e, portanto, os membros da Igreja no Ocidente são na sua maioria idosos. Este é também um desafio pastoral: como podemos envolver os idosos no trabalho da Igreja quando eles podem não estar na sua melhor forma?

Muitas vezes os idosos estão envolvidos, são eles que dirigem as nossas paróquias, são os protagonistas do nosso compromisso de caridade. Só é preciso olhar para a Igreja — para ver quem são os que participam na  Missa com mais regularidade. Mas há um desafio colocado por aqueles que não estão em plena capacidade. Voltando ao trecho evangélico que ouvimos no Domingo passado, diria que eles nos apresentam o desafio de Maria: o de compreender que ser cristão não é apenas correr atrás das muitas coisas que devem ser feitas, mas redescobrir a centralidade da escuta e oração. O Papa, na sua mensagem para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, confia aos idosos a tarefa da oração. Não é um compromisso residual, o futuro da Igreja e do mundo depende disso: a tradição judaica diz que é a oração dos justos que sustenta o mundo. Neste momento, parece-me que talvez a primeira urgência pastoral seja despertar a oração pela paz na Ucrânia, e os idosos, que conhecem o horror da guerra, nesta perspectiva, não estão na rectaguarda, mas entre os pioneiros.

 

Num mundo em que a solidão está cada vez mais presente, especialmente na população idosa, o  que é que os idosos pedem à Igreja?

O isolamento é a grande doença dos idosos e a nossa sociedade corre o risco de se contagiar por ela. Estamos a habituar-nos a pensar que a solidão é normal e a pandemia fê-la parecer inevitável. Mas Deus — não é por acaso que é uma das primeiras palavras da Bíblia — não quer que o homem esteja só. Os idosos pedem para não serem deixados sozinhos, e a Igreja, especialmente com o magistério do Papa Francisco, é muito clara: abandonar os idosos é um pecado grave. No entanto, vemos múltiplas manifestações da cultura do descarte e, infelizmente, isto também ocorre dentro das famílias cristãs.

 

O Papa também encoraja os idosos a serem protagonistas da revolução da ternura que o mundo precisa. Nesse sentido, como combinar a ternura e o ensino da responsabilidade na família?

O Papa na sua mensagem associa a palavra ternura à palavra revolução, que já não está na moda. Acho que ele quer dizer que o comportamento marcado por essa atitude deve ser a semente de uma mudança nas nossas cidades. Ele pede que tendamos para os mais pobres — menciona em particular os refugiados da guerra na Ucrânia e os outros que mancham o nosso mundo de sangue — um pensamento e uma atitude ternos. Os idosos podem fazer muito (estamos a assistir a um grande movimento de solidariedade), não apenas do ponto de vista prático e acolhedor, mas podem ajudar-nos a acalmar o clima, a entender — como muitos deles tiveram que fazer — que sozinhos não nos salvamos. Este é o magistério da fragilidade de que falou o Papa numa das audiências da última quarta-feira: a sabedoria de quem entende que não é suficiente para si mesmo e a inutilidade da oposição extrema.

 

Ao mesmo tempo, e conscientes de tudo isto, como encorajar as novas gerações a participar activamente na Igreja e na sociedade?

O Papa fala muitas vezes de uma aliança entre as gerações. Sempre me chamou à atenção que a primeira vez que falou sobre os idosos tenha sido durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. A pergunta que me está  fazer é realmente muito complexa, mas, certamente, parte da resposta está na redescoberta (ou construção) de um vínculo entre jovens e idosos. Não é apenas uma boa ideia: conhecemos muitas experiências que nos dizem que o encontro entre jovens e idosos é sempre uma experiência muito rica para todos.

 

Nos últimos meses ouvimos o Papa não só falar dos idosos, mas também a abordá-los, aludindo a atitudes que dificultam a convivência intergeracional. Como é que a Igreja pode promover essa compreensão mútua além de uma visita de um dia?

Em primeiro lugar, façamos esta visita! O Papa escreve na sua mensagem que uma amizade geralmente nasce de uma primeira visita. Dar um passo em direcção aos outros, especialmente aos mais débeis, tem sempre valor, e é isso que pedimos a todos no Dia Mundial dos Avós e dos Idosos: vamos visitar um idoso que se sente sozinho! Especialmente neste tempo de calor sufocante. Que ninguém viva este dia sozinho! Depois, o Papa, com a concretude que o caracteriza, fala aos idosos e não dos idosos porque são uma grande parte dos leigos. Os idosos são muitos e serão sempre mais numerosos, como podemos continuar a ignorá-los?

Entrevista de Maria José Atienza, publicada em Omnes a 24 de Julho de 2022.

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