Arquidiocese

Ano Pastoral 2021+2022

"Onde há amor, nascem gestos"

[+info]

Desejo subscrever a newsletter de Revista de Imprensa Internacional
DACS com Avvenire | 28 Jun 2022
“Somos reféns em Mariupol. Putin tirou-nos tudo, então denunciamo-lo”
Uma família narra os dias de horror. E mostra evidências dos ataques a civis. Serão testemunhas-chave na investigação. Mas a comunidade internacional protege Putin das investigações de Haia.
PARTILHAR IMPRIMIR
  © Nello Scavo

Nádia não quer falar mais em inglês. Ensinava-o numa escola primária em Mariupol. Ouvi-lo fá-la pensar na turma que já não existe. Volodymyr, o seu marido, era um técnico especializado na siderúrgica Azovstal. Admite que não consegue mais separar a raiva do ódio. Tem palavras de amor apenas para Nádia e Diana, a sua única filha, ferida mas milagrosamente salva. Eles estarão entre as principais testemunhas na investigação dos crimes de guerra russos. Aceitaram encontrar-se connosco juntamente com um investigador ucraniano que recolhe os testemunhos e os envia ao Procurador-Geral de Kiev e ao Tribunal Penal Internacional. Deve permanecer anónimo porque tem conhecidos e fontes nas áreas ocupadas pelos russos: “Ouvi 250 testemunhos, os piores vêm dos sobreviventes de Mariupol”.

Sentados em frente ao teatro de Odessa, no dia em que a fonte volta a jorrar novamente, mas as trincheiras de areia permanecem no lugar, contam o horror durante horas. Só ao som das sirenes, durante o enésimo ataque com três mísseis nas proximidades de Mykolaiv e dois – estes interceptados – sobre Odessa, é que param, procurando com os olhos um abrigo. Perderam tudo quando esperavam que o ajuste de contas já fosse coisa do passado. A 2 de Maio de 2014, cerca de 50 pró-russos foram mortos nos confrontos na Casa dos Sindicatos em Odessa.

A 24 de Janeiro de 2015, um míssil russo foi lançado em Mariupol: mais de 50 mortos. Olho por olho, o jogo poderia ter terminado ali.

O testemunho é preciso e detalhado. Têm fotos e imagens porque querem que acreditem neles: “No início, quando chegamos, nem mesmo aqui acreditaram no estávamos a dizer, depois toda a gente viu o que fizeram com a nossa cidade”.

Com dois salários em casa e na cidade com melhor qualidade de vida (não do ar) graças às compensações económicas pagas pelos donos da siderúrgica, a orla de Mariupol era considerada a mais ordenada da Ucrânia , com transportes públicos, parques para crianças, serviços sociais.

Eles moravam no apartamento 106 de um condomínio no “Distrito 17”. No nono e último andar, aquele com a melhor vista. O pior é correr até às caves, quando as rajadas de baixo e as bombas de cima são direccionadas para a cidade. Subir e descer as escadas a cada soar das sirenes.

Então, a 12 de Março, às 4h13 da manhã, um míssil atingiu o prédio. O relógio na única parede ainda de pé parou naquele momento. E também a vida anterior deles. Farpas nos braços, fragmentos na barriga, a filha com uma costela partida. O vizinho do apartamento 105 foi o que ficou pior.

Todos os funcionários da siderúrgica se conheciam. Uma cidade dentro de uma cidade onde ninguém era verdadeiramente um estranho. Apesar do pulso a sangrar e da dor de cabeça provocada pelo deslocamento de ar e pelo trauma, Volodymyr protege a sua esposa, a filha e depois leva ao abrigo o seu vizinho, que morreria no hospital dias depois.

Certa manhã, os militares russos, diz a sua esposa em lágrimas, levaram os soldados ucranianos feridos que estavam hospitalizados. Levaram-nos para o jardim lá fora. “Fizeram-nos cavar algumas covas, talvez para assustá-los”, especula Nádia. Escondidos na cave com centenas de outros deslocados, não conseguiam ver mais nada.

“No dia seguinte - acrescenta – as covas tinham sido todas tapadas e os soldados feridos desaparecido”. Não eram refugiados, eram reféns. “Não queriam que saíssemos de lá – diz a mãe enquanto Diana escuta e morde o lábio – e foram eles que compilaram as listas para a evacuação e estabeleceram os horários de saída”.

Certa noite, talvez alguns militares chechenos ou da Ossetia abriram caminho entre os civis apontando as armas. Estava frio, menos quinze graus. E não havia como aquecer ou acender uma lâmpada. Impossível até mesmo fazer uma brasa: todos teriam sufocado. E naquele inferno congelado naquela noite os militares fizeram uma incursão pelos civis. Mas não era a contagem de reféns usual. Deram uma volta e então viram um menino de 12 anos. “Uma criança linda como um anjo, com olhos azuis e cabelos loiros”, relata a professora.

Foi a única vez que conseguiram parar as armas com as mãos: “Os soldados disseram que gostavam daquele menino e por isso pegaram nele para levá-lo”. Uma revolta nasceu, e também poderia terminar em carnificina. Então algo atraiu os militares lá para fora. “E eles desistiram”.

“Tínhamos que sair de lá. Estávamos na lista de pessoas a evacuar. Tínhamos que esperar o autocarro de evacuação número 112, mas depois de um mês ainda iam no 57”, explica Volodymyr como que para se justificar por ter fugido no dia seguinte à tentativa de sequestro daquela criança. Encontraram um velho carro abandonado, com os vidros partidos, mas ainda a funcionar. No entanto, não tinha combustível suficiente.

Um mecânico vendeu-lhes 20 litros de gasolina. Preço: 8.000 grívnias, 250 euros. Não tiveram outra escolha e pagaram. Finalmente, fora de Mariupol, abandonaram o carro que ficou sem combustível e percorreram a pé grande parte da estrada para Zaporizhya. Nove dias para 227 quilómetros.

Um trajecto que Volodymyr fazia antes da guerra em menos de 3 horas. De lá, foram transferidos para Odessa. “Não temos casa, não temos roupa, não temos emprego. Nem sabemos como fazer Nádia estudar. Mas estamos vivos e ainda juntos”. Regressariam a Mariupol se esta fosse libertada? “Enquanto existir Putin, ninguém aqui se pode sentir seguro”.

Para eles está claro de quem é a responsabilidade. Mas não será fácil prová-lo perante o Tribunal Penal Internacional. Também graças à hipocrisia proverbial de muitos estados. Os países que pediram a intervenção da justiça internacional para apurar os crimes de guerra ignoraram deliberadamente um detalhe. Como a Rússia e a Ucrânia não são países signatários do TPI, o Tribunal Penal de Haia (Kiev iniciou o processo de adesão submetendo-se à jurisdição internacional) iniciou investigações apenas porque, de acordo com o estatuto, um certo número de estados membros o solicitou.

No entanto, “a jurisdição do TPI sobre o crime de agressão perpetrado na Ucrânia ainda não foi apoiada e endossada por pelo menos um dos Estados Membros", denuncia David Donat Cattin, secretário da organização internacional de parlamentares “Parlamentarians for Global Action”, que pediu aos países que compensem esse descuido. Até ao momento ninguém respondeu, pelo que “a competência do TPI – adverte – actualmente não permite levar à incriminação dos dirigentes que planearam, ordenaram e levaram a cabo a guerra de agressão”. Assegurando que Vladimir Putin pode dormir sonos tranquilos.

Artigo de Nello Scavo, publicado em Avvenire a 24 de Junho de 2022.

PARTILHAR IMPRIMIR
Palavras-Chave:
Guerra  •  Ucrânia  •  Reféns  •  Refugiados  •  Odessa  •  Mariupol  •  Testemunhos
Revista de Imprensa Internacional
Contactos
Morada

Rua de S. Domingos, 94 B 4710-435 Braga

TEL

253203180

FAX

253203190

Quer dar uma ideia à Arquidiocese de Braga com o objectivo de melhorar a sua comunidade?

Clique Aqui

Quer dar uma sugestão, reportar um erro ou contribuir para a melhoria deste site?

Clique Aqui