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DACS | 8 Abr 2022
Papa enfrenta crescente ligação entre o trono e o altar
Orbán, Trump e Putin… A exploração de textos sagrados para objectivos políticos populistas apresenta um desafio ao Papa Francisco.
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  © MTI/Miniszterelnöki Sajtóiroda/Zoltán Fischer

Há alguns anos, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán reescreveu completamente a Bíblia.

“De acordo com o Evangelho segundo São Marcos, o segundo mandamento de Jesus é ‘Amar o próximo como a ti mesmo’”, começou.

“Recentemente tem-se ouvido frequentemente este mandamento de Cristo na Europa. Censuram-nos por não querer, não permitir, que milhões de outros continentes povoem a Europa apesar da nossa fé cristã. Mas esquecem-se da segunda metade desse mandamento, apesar do mandamento ter duas partes: devemos amar tanto o próximo como nós mesmos”, declarou Orbán.

Donald Trump, entretanto, apareceu com a Bíblia na mão para uma foto cuja organização causou confrontos entre a polícia e os manifestantes do movimento Black Lives Matter. Mas, quando foi questionado sobre a sua citação favorita, nem consegui citar meio verso correctamente.

O antigo inquilino da Casa Branca também declarou, uma vez, que o perdão de Deus não lhe interessava porque não tinha nada porque ser perdoado…

O uso desinibido de textos sagrados tem aumentado nos últimos anos. E com Vladimir Putin, a tragicomédia cede passagem à pura e simples tragédia.

No meio da guerra na Ucrânia, o presidente russo fez um comício a 19 de Março, no estádio olímpico em Moscovo, para marcar o oitavo aniversário da anexação da Crimeia.

“Não existe amor maior do que dar a vida pela dos amigos”, disse, citando o Evangelho segundo São João.

Putin citou o verso correctamente, mas deturpou completamente o significado.

Jesus disse estas palavras durante a Última Ceia, pouco antes de se sacrificar livremente para a salvação da Humanidade. Disse-as em frente aos seus amigos, que pouco depois iriam abandoná-lo, traí-lo e negá-lo.

Mas o líder do Kremlin comparou Jesus a jovens soldados russos enviados para uma guerra de conquista, uma que não escolheram e provavelmente nem sequer sabem porque está a ser travada, e cujo objectivo não é a libertação mas a submissão, se não mesmo a morte.

Trono e altar

Provavelmente não foi coincidência que no dia seguinte, o Papa Francisco condenou de novo a guerra em termos de “vida”.

“Tudo isto é desumano! De facto, também é sacrílego porque vai contra a sacralidade da vida humana, especialmente contra a vida humana indefesa, que deve ser respeitada e protegida, não eliminada, e que vem antes de qualquer estratégia”, exclamou o Santo Padre a 20 de Março no Ângelus dominical.

Em poucos anos, Jorge Mario Bergoglio tem enfrentado o surgir de um fenómeno antigo, mas sempre novo: a ligação entre o trono e o altar.

O que é novo é que o religioso não é simplesmente aliado do político, mas preenche o seu vazio.

Políticos por todo o mundo estão a apropriar-se do cristianismo, dos seus símbolos e da sua linguagem numa tentativa de acalmar o sofrimento resultante de um sentimento de perda face à globalização, ao declínio económico e cultural, ou ainda face à perplexidade sobre uma paisagem social que muda demasiado rápido.

Estes são os novos nacionalistas: os populistas, como lhes chamamos. São muito diferentes uns dos outros, mas semelhantes na conversão repentina à religião, que usam para ordem social ou como um marcador de identidade, enquanto a esvaziam do seu conteúdo de fé.

Ortodoxia ao salvamento da política de Putin

Na confusão dos anos 1990 que se seguiu ao colapso da União Soviética, Boris Yeltsin lançou um “concurso para a procura de uma ideia nacional”. Mas ninguém ganhou porque não emergiu nenhum conceito convincente.

Putin encontrou-o, ou redescobriu-o. Era o cristianismo ortodoxo.

Ele utilizou-o para dar alma à sua política, ligando-a com a imaginação histórica do seu país. E em Kirill – Patriarca de Moscovo e Toda a Rússia – encontrou um aliado para fortalecer o seu poder.

Putin herdou um império ferido e quer restaurar o orgulho que perdeu.

A Ucrânia foi a última peça deste projecto neo-imperialista. É a terra-mãe da Ortodoxia Russa, o lugar do “baptismo do Rus” em 988.

A guerra – a invasão de Putin – não podia não ter uma dimensão messiânica.

“Estamos numa luta que não tem um significado físico, mas um metafísico”, disse o Patriarca.

A guerra está, então, vestida de um significado apocalíptico, apresentado como um confronto entre Leste e Ocidente, a sociedade tradicional e a democracia decadente, valores cristãos e secularização.

As imagens sagradas não são poupadas de serem alistadas.

Kirill deu um ícone da Virgem Maria ao general Viktor Zolotov, o líder da Guarda Nacional Russa. E os ucranianos têm usado a “Santa Javelin”, uma imagem de Maria Madalena a carregar um FM-148 Javelin, o lançador portátil de mísseis anti-tanque criado pelos americanos e usado contra os russos.

O Papa vê um risco inerente nesta abordagem.

Se uma guerra é uma guerra religiosa, não há espaço para negociações, razão ou humanidade. O Evangelho é usado e traído ao mesmo tempo.

“Houve um tempo, até nas nosssas Igrejas, em que as pessoas falavam de uma guerra santa ou uma guerra justa”, disse o Santo Padre numa vídeo-conferência com o Patriarca russo. “Hoje não podemos falar desta maneira. Desenvolveu-se uma noção cristã da importância da paz”, afirmou Francisco.

A consagração de toda a humanidade – mas particularmente da Rússia e da Ucrânia – ao Imaculado Coração de Maria a 25 de Março foi uma tentativa de, pelo menos, inverter a guerrra de símbolos.

Numa altura em que o religioso é explorado pelo político, o Papa quer quebrar este mecanismo ao dessacralizar a guerra e santificar a paz.

Artigo originalmente publicado a 7 de Abril no La Croix Internacional

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Palavras-Chave:
Papa Francisco  •  Evangelho  •  guerra  •  Rússia  •  Ucrânia  •  Orbán  •  Trump  •  Putin
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