Arquidiocese

Ano Pastoral 2021+2022

"Onde há amor, nascem gestos"

[+info]

Desejo subscrever a newsletter de Revista de Imprensa Internacional
DACS | 27 Jul 2021
Bento XVI lamenta a falta de fé na hierarquia católica alemã
Entrevista concentrou-se principalmente no breve período de Bento XVI como pastor na igreja "Precious Blood", no distrito de Bogenhausen, em Munique, após a sua ordenação a 29 de Junho de 1951.
PARTILHAR IMPRIMIR
  © Gregorio Borgia/AP

Numa rara e longa entrevista a um jornal alemão, o papa emérito Bento XVI reflectiu sobre os seus 70 anos como sacerdote e lamentou o que disse ser uma crescente institucionalização da Igreja Católica na Alemanha, tornando-a numa entidade funcional ao invés do corpo vivo de Cristo.

Em respostas escritas à revista alemã Herder Korrespondenz, publicada na sua edição de Agosto, no 70º aniversário da sua ordenação ao sacerdócio, Bento XVI, de 94 anos, disse que o seu breve tempo como jovem pastor antes de igressar no trabalho académico deixou claro “que muitas das funções relacionadas com a estrutura e a vida na Igreja eram desempenhadas por pessoas que de forma alguma partilhavam a fé da igreja”.

Por causa disto, o testemunho da Igreja “deve parecer questionável de muitas maneiras”, disse, observando que a fé e a descrença “estavam misturadas de uma forma estranha”, o que teria inevitavelmente que vir à superfície “e causar um colapso que acabaria por enterrar a fé”.

Bento XVI disse que, na sua opinião, “era necessário um divórcio” a esse respeito e alertou contra a ideia de pensar na Igreja como um corpo de santos que já alcançou a perfeição.

“Que esse pensamento recorrente na história é um sonho falso, que a realidade o refuta sempre de forma imediata, tornou-se particularmente claro para mim nos meus estudos Agostinianos sobre o Donatismo”, afirmou, referindo-se a uma antiga seita cristã que argumentava que o clero católico tinha de ser perfeito para para que o seu ministério e orações fossem eficazes e os sacramentos válidos.

Segundo essa crença, apenas pessoas que se apresentavam como verdadeiros crentes “sem nenhuma mancha”, eram qualificadas para se tornarem bispos, disse Bento XVI, observando que essa ideia acabou por empurrar cada vez mais a seita “para o sectarismo e, de facto, provou para sempre que a Igreja inclui trigo e joio, peixes bons e maus”.

De uma perspectiva pastoral, então, “não poderia ser sobre separar o bem e o mal um do outro, mas poderia ser sobre a separação de crentes e não crentes”, explicou.

Desde os seus dias pastorais que o problema desta falta de fé “se tornou cada vez mais evidente”, disse, insistindo que num leque de instituições da Igreja – hospitais, escolas, gabinetes da Cáritas – “muitas pessoas que estão envolvidas em posições de liderança não apoiam a missão interna da igreja e, portanto, muitas vezes obscurecem o testemunho desta instituição”.

Isto infiltra-se nas declarações públicas e privadas que a Igreja faz, explicou, adiantando que o termo “igreja oficial” foi formulado “para expressar o contraste entre o que é oficialmente exigido e o que é pessoalmente acreditado”.

A frase “igreja oficial”, continuou, “insinua uma contradição interna entre o que a fé realmente quer e significa, e a sua despersonalização”.

“Infelizmente, acontece muito os textos oficiais da Igreja na Alemanha serem em grande parte formados por pessoas para as quais a fé é apenas oficial. Nesse sentido, tenho que admitir que, na verdade, o termo «igreja oficial» aplica-se a uma grande parte dos textos oficiais da igreja na Alemanha”, explicou.

Bento XVI lembrou que, quando era um jovem professor, pediu a um jovem bispo seu amigo que contribuísse com um texto a ser publicado na revista católica Communio, no qual o bispo descrevia o seu trabalho na Conferência Episcopal.

“O manuscrito que ele nos enviou, no entanto, foi obviamente escrito pela sua secção e era de facto a linguagem do aparato, não a linguagem de uma pessoa”, disse Bento XVI, acrescentando: “Infelizmente, essa experiência repetiu-se muitas vezes depois”.

Ainda a esse respeito, Bento XVI foi questionado sobre um discurso que proferiu na cidade universitária de Freiburg, no sudoeste do país, em 2011, no qual apontou uma tendência dentro da Igreja de dar mais peso à “organização e institucionalização” do que à “vocação da Igreja à abertura a Deus”.

Na época, Bento XVI falou da necessidade de um “desmundo” da Igreja – um termo emprestado do filósofo alemão Martin Heidegger – significando alguém que é desvinculado do mundanismo.

Nos seus comentários à Herder Korrespondenz, Bento XVI questionou se o conceito de “desmundo” de Heidegger seria o termo certo.

“Não sei se escolhi sabiamente a palavra.O que a igreja tem a dizer ex officio, é um gabinete a dizê-lo, não uma pessoa. Enquanto for apenas a entidade, e não o coração e o espírito, a falar nos textos oficiais da igreja, o êxodo do mundo da fé irá continuar. Portanto, tal como agora, parece-me importante tirar a pessoa da cobertura do gabinete e esperar um verdadeiro testemunho pessoal de fé dos oradores da Igreja”, disse.

O conceito de “desmundo” refere-se apenas ao aspecto negativo do movimento com o qual Bento XVI está preocupado, nomeadamente em “sair do discurso e das restrições práticas de um tempo para a liberdade de fé”, enquanto é “precisamente esse lado, o positivo, que não é suficientemente expresso no termo”, afirmou.

Conduzida no início do verão de 2021, a entrevista consistiu em respostas escritas a perguntas enviadas pelo jornalista alemão Tobias Winstel e concentrou-se principalmente no breve período de Bento XVI como pastor na igreja Precious Blood, no distrito de Bogenhausen em Munique após a sua ordenação a 29 de Junho de 1951.

Quando questionado se acreditava ter sido um bom pastor naquela época, Bento XVI respondeu: “Não me atrevo a julgar se fui um bom padre e pastor, mas tentei da minha própria maneira ir ao encontro das exigências do gabinete e ordenação”.

No fim das suas respostas longas e abrangentes, durante as quais abordou vários tópicos, incluindo a sua experiência de ouvir confissões, pregar a crianças e o seu próprio caminho na academia, Bento XVI rlembrou o seu tempo na Precious Blood, dizendo: “Mesmo que não possa mais trilhar os caminhos de Bogenhausen neste mundo, eles são uma peça preciosa da minha vida, que tenho certeza que também serão preservados no além”.

Artigo de Elise Ann Allen, publicado no Crux a 27 de Julho de 2021.

PARTILHAR IMPRIMIR
Palavras-Chave:
Bento XVI  •  Igreja  •  Catolicismo  •  Alemanha  • 
Revista de Imprensa Internacional
Contactos
Morada

Rua de S. Domingos, 94 B 4710-435 Braga

TEL

253203180

FAX

253203190

Quer dar uma ideia à Arquidiocese de Braga com o objectivo de melhorar a sua comunidade?

Clique Aqui

Quer dar uma sugestão, reportar um erro ou contribuir para a melhoria deste site?

Clique Aqui