Arquidiocese de Braga -

2 agosto 2026

Novo livro do investigador Joaquim Félix propõe caminhos para dignificar a homilia

Fotografia DR

DM - Joaquim Martins Fernandes

“Teorbas da Palavra”. É o novo livro do sacerdote bracarense Joaquim Félix de Carvalho, que assume o desafio de devolver à homilia a dimensão de relevo que deve ter na celebração litúrgica. É que «é necessário devolver à homilia a sua força de ponte entre o interior e o exterior da comunidade e do rito», escreve a professora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, Teresa Bartolomei, no prefácio da obra, depois de notar que «o católico que vai regularmente à missa festiva (aquela em que é prevista a homilia) sabe bem como é raro e, portanto, ainda mais precioso, o dom de uma verdadeira homilia, que o coloca na condição de uma conversa interior autêntica com os irmãos em torno da Palavra de Deus e da sua presença no hoje da sua própria experiência».

Isso porque, «muitas vezes, a pregação fica presa nas areias movediças da automação repetitiva, no hábito que se torna enfadonho do exercício escolar de uma exegese simplisticamente informativa, superficialmente genérica, ou no solipsismo arrogante do pregador, mais preocupado em exibir os seus conhecimentos superiores ou a sua opinião doutrinária do que em partilhar genuinamente a Palavra de Deus na ativação espiritual e recetiva do sensus fidei da assembleia», sublinha a teóloga, para defender que «é preciso pensar a homilia como diálogo: articulá-la numa dinâmica acolhedora e hospitalar, que toma em conta o contexto específico da assembleia: o local e o tempo; as pessoas presentes, sejam elas conhecidas ou não; o quadro geral da sociedade e do momento histórico em que ocorre a celebração».

«Por isso, alegram e dão esperança experiências inovadoras e corajosas de revitalização do instituto litúrgico da homilia, como a que tem vindo a realizar, nos últimos anos, o padre Joaquim Félix de Carvalho», salienta a autora do prefácio de “Teorbas da Palavra”, para vincar que «com este terceiro volume das suas Teorbas – homilias que executam com admiração maravilhada e consumada perícia a partitura da Palavra de Deus –, o presbítero da Diocese de Braga, vice-reitor do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo dessa cidade, professor de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e poeta, constrói uma nova etapa do seu percurso, original e coerente, poeticamente imaginativo e teologicamente rigoroso, em repensar as linguagens, o estatuto e a disseminação do instituto da homilia».

Múltiplas linguagens apontam aos desafios locais e mundiais

Para a teóloga Teresa Bartolomei, no espaço nártex da homilia, o padre Joaquim Félix de Carvalho «acolhe e dá voz às presenças reconhecíveis dos membros da assembleia» e «acolhe e dá voz às múltiplas linguagens das mais diversas formas de arte».

Acrescenta a docente da Faculdade de Teologia do Porto que o novo livro do padre da Arquidiocese de Braga, embora assumindo «o enraizamento no horizonte territorial muito concreto que se alonga no Baixo Minho entre Braga e Barcelos, amorosamente acariciado no costume da contemplação», também associa «um olhar criticamente consciente e eticamente vigilante sobre o cenário histórico mundial, cujos dolorosos acontecimentos atuais são acompanhados com atenção angustiada e a consciência ferida do cristão que não se resigna à violência e à injustiça, mas se empenha incansavelmente pela paz e pela dignidade humanas».

Teresa Bartolomei nota que, conforme destaca o autor de “Teorbas da Palavra”, «as homilias surgem como um espaço nártex, que amplia o abraço da Igreja para aquilo e aqueles que estão fora dela, mas não lhe são estranhos: experiências e almas que se encontram no limiar do mistério de Cristo, que são por Ele tocadas, d'Ele, às vezes, inconscientemente portadoras, por Ele incessantemente chamadas, para Ele encaminhadas, numa transição que o cristão não pode e não deve pretender governar, mas deve acompanhar e acolher com gratidão e esperança, como semente de futuro, fonte de renovação».

Livro seleciona quatro dezenas de homilias

Para dar forma concreta ao terceiro volume de Teorbas, Joaquim Félix de Carvalho selecionou «mais quarenta e uma homilias, em sintonia com o sentido da atualidade». Revela o autor que adotou «o critério do desenrolar do ano litúrgico, entre o dia 8 de dezembro de 2023 (Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria) e o dia 18 de outubro de 2025 (Festa de S. Lucas, Evangelista)».

«Não estabeleci, portanto, a divisão adotada nos dois primeiros volumes. Ainda assim, proferidas durante este arco temporal, as últimas seis homilias correspondem a missas de 7.º e 30.º dia da morte de pessoas e, ainda, a missas de matrimónios, ou da sua comemoração», assinala Joaquim Félix de Carvalho.

Sublinha o autor que «as Teorbas da Palavra sucedem às Teorbas dos Tempos e às Teorbas Brancas, cujos volumes foram publicados, respetivamente, em 2024 e 2025». E «tal como sucede nos primeiros, também este volume, o terceiro, compreende quarenta e uma homilias. Algumas delas são inéditas, devo assinalar», precisa, para vincar que «porque se trata duma coleção arquitetada segundo o mesmo "princípio construtivo", que observa inclusive o cuidado estilo gráfico, de volume para volume, conserva-se a Apresentação», que agora surge «reescrita como recensão ajustada».

«Com efeito, incrustei, na versão "hológrafa", a primeira que redigi, não simples variantes textuais, mas alguns dados pertinentes que concernem ao conteúdo do presente volume. Teorbas da Palavra, assim as declino a partir do radical intitular: Teorbas. Desdobro-o, ainda, no subtítulo: aprendiz da moagem de essências», nota o sacerdote, salientando que «novo é, também, o prefácio».

«Depois das Teorbas dos Tempos terem sido prefaciadas por Alfredo Teixeira e as Teorbas Brancas por Maria Clara Lucchetti Bingemer, para este terceiro volume, pensei que seria melhor continuar com o "acorde laical". Nesse sentido, decidi lançar o convite a Teresa Bartolomei», refere Joaquim Félix, que destaca o facto de todos serem leigos.