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João Duque | 5 Out 2019
Editorial 6
A humanidade da Páscoa
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Este volume da SALICUS concentra-se no ambiente Pascal. Nesse sentido, apresenta uma versão dos conhecidos versículos aleluiáticos da Vigília Pascal, aqui proposta por Rui Paulo Teixeira, compositor que assim inicia a colaboração com a revista. O ambiente é de alegria, mas não de uma alegria fácil ou superficial. A Páscoa cristã está em perfeita continuidade com a longa tradição hebraica de louvor e gratidão ao Senhor (Adonai), pelas maravilhas realizadas em favor do seu povo. O próprio termo “Aleluia” já exprime, precisamente, essa atitude. Não se trata, portanto, de uma atitude triunfal, muito menos arrogante, mas do humilde reconhecimento que só Deus salva e só a Ele devemos a vida – sobretudo a vida eterna – e tudo o que somos.

É nesse sentido que os versículos da Vigília não referem qualquer vitória, mas concentram-se na gratidão e louvor pela bondade do Senhor, precisamente pela sua misericórdia, que é eterna e, por isso, não está sujeita à instabilidade dos tempos, aos condicionamentos dos momentos. É um amor para além de todas as medidas e de todos os cálculos, e esse amor incondicional é que verdadeiramente salva. Isso é precisamente o núcleo da Páscoa cristã: somos salvos pelo amor de Deus, que em Jesus Cristo se faz e se mostra como realidade plenamente humana.

O leitor ficará, certamente, intrigado pelo facto de, neste ambiente Pascal, que em alegria louva e agradece a bondade do Senhor para connosco, estar inserida uma obra que tem como referência central a cruz. Não é a Páscoa precisamente a superação da cruz? Porquê essa referência? Aliás, a questão poderia estender-se à grande tradição popular da visita pascal, ainda muito viva sobretudo no norte do país, que se realiza precisamente com a cruz (termo pelo qual, aliás, é popularmente conhecida esta prática).

Tocamos, aqui, numa questão teológica central, que é também central para a compreensão correta da experiência cristã. A Páscoa, como celebração das maravilhas que a misericórdia do Senhor realiza em nós, não nos pode alienar da nossa realidade, mas deve mergulhar-nos ainda mais profundamente nas realidades humanas quotidianas, em todo o seu dramatismo. É certo que acreditamos que o amor de Deus superará tudo aquilo que a cruz representa, como maldade humana, como sacrifício de vítimas inocentes, que em Jesus estão representadas. Mas essa superação não se dá de forma mágica, nem em qualquer processo heroico – também violento – em que os bons vencerão os maus, como se de um filme americano se tratasse. A superação da cruz dá-se, precisamente, como entrega de si, humilde e sacrificada, enquanto manifestação máxima da misericórdia e do amor. Acontecimento desconcertante, mesmo escandaloso, sem dúvida, mas essencial para entendermos o que significa a verdadeira vida, que é dada na ressurreição. 

Por isso, não há ressurreição verdadeira – S. Paulo diria que não há verdadeiro Espírito – que não seja na cruz, como dádiva gratuita da vida. Por isso, as maravilhas que o Senhor faz, dando-nos a vida, estão profundamente ligadas e acontecem precisamente na dádiva da vida, que é a sua – e a nossa – morte. A própria cruz se torna ressurreição, ao ser transfigurada pelo amor. Essa é a cruz da Páscoa, a da visita Pascal, porque é a cruz de Cristo, do cruxificado que é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o ressuscitado.

O texto aqui apresentado – da autoria do falecido poeta dominicano José Augusto Mourão, numa versão para coro misto da autoria de Paulo Bastos, compositor que inicia deste modo também a sua colaboração com a SALICUS – é um texto profundamente humano e, ao mesmo tempo, profundamente cristão. O Deus da cruz, sendo embora loucura para o mundo, assume plenamente a dramaticidade real do próprio mundo, os seus medos, a ambiguidade dos seus dias azuis e cinzentos, no seio dos quais é possível esperança, apesar das ruínas, ainda que sem negar a ruína das suas pretensões, visível sobretudo na morte. Hoje, sobretudo, é perigosa a ilusão – mesmo no cerne da experiência cristã – de que seja possível a vida e o futuro sem a experiência séria desta dramaticidade, que às vezes nos conduz ao abismo do desespero. A sedução do “anjo da luz enganosa” é um dos principais problemas de uma cultura brilhante e fascinante como a nossa, que assim pretende ofuscar o sofrimento, como se não existisse, desviando-nos da solidariedade para com todos os que sofrem. Ou, ainda pior, essa ilusão pode mesmo revestir-se de grandes ideais ou de atitudes até religiosas, como a piedade e a verdade. 

É dessa ilusão e dessa sedução que a cruz nos salva. E essa é a salvação realizada em Jesus; esse é o verdadeiro Espírito, o Espírito da cruz. Porque só aí a ressurreição é verdadeira. Por isso, a cruz e o Aleluia são as duas faces da mesma moeda. Na sua autenticidade, exprimem o que verdadeiramente é a Páscoa. Estamos, pois, perante duas obras que transfiguram ou refiguram, em música, o núcleo mais profundo da liturgia cristã.

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