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Departamento da Pastoral Universitária | 7 Mai 2020
A Guiné-Bissau: um país atraiçoado pelos seus filhos.
Júlio Mário Siga | Mestrado em Português Língua Não Materna – LE/L2 (UMinho)
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Em tempos que já lá vão, contava-me sempre a minha mãe que éramos um exemplo na luta pela igualdade, uma inspiração pela independência de África, em geral, e mais especificamente da Guiné-Bissau e Cabo-Verde. Tudo isto conseguido pelo pensamento do nosso heróico líder, Amílcar Cabral, hoje reconhecido mundialmente como um dos maiores líderes da história da humanidade.

Depois de conquistada e alcançada a independência em 1973 e 1974, o país foi caminhando, chegando até a ser, aos olhos dos vizinhos, um exemplo em termos da velocidade rumo ao desenvolvimento. Na década de 80, já se bebia leite blufu, uma marca típica do país. Havia montagens de carros da marca Volvo, compotas, fábricas de cerâmica de Plubá, no subúrbio da capital Bissau e de Bafatá, no leste do país. Nessa altura, o sentimento pela pátria, o interesse na luta pelo bem comum era supremo. Hoje gostaria de voltar àquele tempo, disse e dizia-me sempre a mamãe segunda.

Atualmente, as crianças, os jovens só aprendem estas histórias pelos pais, que felizmente ainda as conhecem e sabem. O que terá acontecido? Esta é a pergunta que se levanta e as possíveis respostas a ela dariam a muitos editores de livros uma receita significativa nas vendas. Porém, gostaria de tentar dar aqui uma das possíveis respostas, que é bem simples, por sinal, é a de que ainda não há professores para ensiná-las, ou seja, estas histórias ainda não foram codificadas literalmente para que sejam ensinadas.

Na verdade, nos dias de hoje, não se bebe mais leite blufu, a cerâmica de Plubá já faliu e a de Bafatá, moribunda, ainda tenta sobreviver. O sentimento pela pátria é entendido como mentalidade atrasada, a postura “o meu partido está acima de Tudo” domina os tempos atuais na Guiné-Bissau. A luta pelo interesse do bem comum é visto como um disparate dos pobres, do povo. A educação, as escolas e o ensino de qualidade para todos, acorda o adormecido, e isso não é bom. O que terá acontecido? Talvez as respostas a isso dessem aos romancistas e aos contistas vários prémios literários. Para mim a resposta é simples: não há formação suficiente do povo para manter as referidas fábricas em funcionamento. Educar o povo vai continuar a ser a luta pela justiça social.

Na visão dos decisores, as universidades públicas são um abismo em cada uma das oito regiões do país, para eles uma é suficiente, a da capital Bissau, a Universidade Amílcar Cabral. Na verdade, aí só alguns podem estudar, isto caso não consigam enviar os seus filhos para as universidades exteriores. Os outros até podem ter acesso às escolas de formação de professores, de bacharelatos. Assim, não terão níveis académicos suficientemente elevados para concorrer com os seus filhos. 

Em pleno século XXI, não dá mais para continuar a negar a educação ao povo. A única saída é proporcionar algumas oportunidades, mas com níveis baixos de instrução ou evitar o acesso a percursos curriculares de formação de professores para que estes não tenham acesso ao conhecimento, que, por sua vez, dá acesso à liberdade de pensamento. As novas tecnologias não são para todos. Informática nas escolas de formação, para quê? São um abismo. Muito menos nos liceus e nem pensar no ensino básico. Se deixarem o povo aceder ao mundo, difícil é dominá-lo. Para eles, o melhor é que todos continuem na escuridão. 

E isto é a necessidade que temos!

Se olharmos para a saúde, pior ainda! Os postos sanitários são escassos para as regiões, os setores (zonas geográficas mais pequenas) que se virem. As secções e tabancas, na perspetiva dos decisores, podem percorrer quilómetros à procura de atendimentos médicos. Eles não são uma prioridade. Na capital vamo-nos contentando com o Hospital Nacional Simão Mendes – HNSM, e damos graças pela cooperação com a China, que nos presenteou com mais um, apelidado de Hospital Militar. Não há necessidade de mais, já que esses decisores têm possibilidades de se tratar em hospitais no exterior. A nossa cooperação com Portugal na área da saúde é muito profícua, prevê juntas médicas, embora muitos se aproveitam dela para fins alheios, tal como a emigração ilegal. 

E isto é a necessidade que temos. 

Perante um cenário de pandemia, os nossos decisores não se preocupam verdadeiramente com os riscos e pensam o COVID-19 que nos dê licença ainda. Não queremos que estrague a campanha da castanha de caju ou pare a venda informal das bideiras. Se não, corremos o risco de o povo passar a ter fome e vir revoltar-se contra nós. Mais uma vez não há a preocupação pelo bem comum, já que cada um vive do seu labor, da sua venda diária. Cada um preocupa-se com o seu ganha-pão e tem também de se preocupar em como lidar com esta situação de crise. 

Mas a Guiné-Bissau é um país extraordinário: tem um dos povos mais hospitaleiros de África. É um povo alegre, trabalhador, solidário. O guineense viveu e vive destes valores. O país tem um solo naturalmente abençoado com recursos naturais e mineiros. Um país fértil para a produção agrícola, no terra sabi. Um país que conta com um arquipélago formado por mais de 80 ilhas e ilhéus, denominado Arquipélagos dos Bijagós, terra di Bidjugus, com praias maravilhosas. Um país de biodiversidade, potencialmente rico em fauna e flora, recursos marinhos com variedades de espécies. Não podemos em nenhum momento perder o seu autodomínio. Se alguém nos há de salvar, somos nós mesmos, os guineenses, pela Educação e pela Democracia.


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