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Departamento da Pastoral Universitária | 18 Abr 2020
Narrativas de quarentena de uma jovem universitária
Joana Almeida, 2º ano, Mestrado em Matemática e Computação (UMinho)
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São tempos estranhos, não podemos deixar de sentir isso. Como se, apesar de também os sentir como tempos de proximidade, tudo estivesse estranho, confuso, meio turvo. Parece tudo irreal, tirado de um filme concebido por um génio maligno cinematográfico. Conseguimos tocar a nossa pele, a nossa saliva, as nossas lágrimas, oh, se conseguimos. Conseguimos ver a cor do céu ainda azul, a cara sorridente e matreira dos nossos irmãos, as letras dos livros que lemos. Conseguimos ouvir o vento bater nas janelas, as mães a desejar-nos boa noite, a música que preenche os nossos dias. Conseguimos saborear todas as experiências culinárias que, agora, temos tempo para fazer e saber o gosto da pasta de dentes. Contudo, parece tudo irreal, porque sentimos que sentir é muito do que nos falta. 

Creio, cada vez mais e profundamente, que sentirmo-nos perdidos faz parte do processo que é a distância social. Vemos projetos a fugir-nos por entre os dedos, vemos os nossos planos familiares a confinar-se a quatro paredes, assistimos a alterações abruptas da rotina que levam a divagações interiores devastadoras, procuramos novos afazeres o mais rápido possível. 

Dizei aos corações perturbados, tende coragem, não temais!” (Isaías, 35)

Porém, sós não estamos. Só não estou. Sinto-me, constantemente, amada por Ele através de todos à minha volta. Pode parecer estranho, mas é por isso que agradeço estar a viver uma pandemia mundial, numa altura em que é tão acessível estar perto, ser presente, sentir, percecionar e olhar este filme em conjunto.

Dou comigo a questionar o que nos aproxima, o que nos distancia, de que formas estamos ligados, que línguas falamos de modo diferente e como fazemos delas idiomas de proximidade. Pergunto-me de que forma posso manter os braços abertos, como Ele conseguiu até ao fim, até ao último suspiro, de que forma posso abraçar cada pessoa que gosto e acarinho sem usar o tato, de que forma posso ser útil sem sair do sítio, sendo esta uma realidade tão longínqua, há umas semanas.

Pois eu gravei a Tua imagem na palma das minhas mãos, as Tuas muralhas estão sempre diante dos meus olhos!” (Isaías, 49)

Vivemos o tempo de ressurreição, o que quer que isso signifique para cada um. Vivê-lo com a intensidade que o descreve é crucial. Viver a Páscoa, a semana da Paixão, dos milagres, do Amor no expoente máximo, fechados em casa, não é antónimo de a viver de coração aberto para a missão que cada um de nós leva no dia-a-dia.

Neste momento, estar em comunidade é estarmos nos nossos lares, adaptarmo-nos às pessoas que vivem connosco. É voltarmos a almoçar e jantar, todos os dias, com a mãe - mesmo que já não o fizéssemos há anos! -, voltarmos a fazer exercício físico com a irmã na sala, que acarreta mais alegria a gargalhada no final, voltarmos a escrever, a pintar, a ler com afinco e atenção. É mandarmos mensagens diárias aos nossos “mais que tudo” para perceber se eles estão bem, é vermos fotos antigas e ficarmos nostálgicos, é estudar ou repor todo o estudo que não conseguíamos antes. É fazer noites de cinema com os que habitam connosco, percorrendo uma lista de filmes cómicos, dramáticos ou de acção, assim como aqueles que nos fazem pensar na vida (Just Mercy). É deixar álbuns tocar repetidamente até as letras serem nossas (Home Again – Michael Kiwanuka). É finalmente explorar os dotes fotográficos e extrapolar esta arte de formas artísticas inspiradoras.

Estar em comunidade é montarmos o nosso pequeno altar e adorarmos a partir da tranquilidade dos nossos quartos. Para mim, é colocar “Um grito chamado Isaías” e fechar os olhos, pegar no caderno que o meu primo me trouxe da Tailândia e apontar as conversas que tenho com Ele, acompanhar as atividades e propostas que tenho à disposição, e temos tantas.

Tem sido um caminho de introspeção muito grande… especialmente, porque percebemos rapidamente que a reviravolta das questões aponta para nós, para o nosso interior, personalidade e coração. Quanto de cada um aceita Ele, quanto de cada nos permite partilhar? Haverá limites?

A cidade cheira a pânico, oh, se cheira, oh, como sinto. Porém, as nossas casas não têm de cheirar. Talvez um pouco a desinfetante! Mas, acima de tudo, cheiram a amor, amizade e a carinho que transbordamos. Cabe a nós perfumar tudo o resto. Cheirar bem. Seja em sentimentos ou em ações. Como disse “O pânico nunca dura muito, nem resiste à força das relações pessoais. E isto é a verdade do Amor. Seja qual for e a forma como se manifesta.” 

Que haja um Aleluia em nós transformador ou consolador. Aleluia! Aleluia!


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