Arquidiocese

Subsídios Semeadores de Esperança (2018/2019)
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15 Jul 2018
Herdeiros da graça de Cristo
Homilia no dia de Ordenações Sacerdotais
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É profundo o modo como Paulo apresenta e desenvolve os traços da nossa identidade eclesial: “Em Cristo fomos constituídos herdeiros […] para sermos um hino de louvor da Sua glória”. É Cristo quem nos congrega em assembleia, nos abre aos mistérios da salvação, nos faz abraçar a fé e nos envia a anunciar o tempo da graça.

Hoje é, sem dúvida, um tempo de graça para a Arquidiocese de Braga. Dentro de momentos serão ordenados cinco novos sacerdotes. Agradeço-lhes, desde já, a sua inteira disponibilidade para abraçar o Reino de Deus através do ministério sacerdotal, assim como agradeço às suas famílias, às suas comunidades de origem e de estágio pastoral, aos seminários e aos irmãos sacerdotes aqui presentes. Constituir um presbitério não é uma questão de números. É sobretudo, e antes de mais, uma questão vocacional. É – como diz Paulo – o resultado de um longo período onde se procura “conhecer o mistério da Sua vontade” e de dar resposta a um chamamento especial. Mesmo se não houvesse povo a servir, ainda assim seríamos sacerdotes de Cristo e em Cristo. Se de números estivéssemos a falar, eles nunca seriam o suficiente para as necessidades e exigências dos tempos actuais: um sacerdócio de proximidade, de atenção e de verdadeira paternidade espiritual.

Partindo do Salmo Responsorial e do Evangelho deste Domingo, gostaria de sublinhar alguns traços que considero importantes para os sacerdotes. A nossa Arquidiocese é rica em história e em santos bispos e sacerdotes. Mas sabemos, ao mesmo tempo, que ela necessita de se reinventar e de traçar um plano de nova evangelização. Contamos, é certo, com o empenho e o zelo dos leigos, mas cabe aos sacerdotes “primeiriar”, como diz o Papa Francisco, compete-lhes testemunhar com a sua vida o espírito do Evangelho. Por isso, caros sacerdotes:

1. Sejamos anunciadores da paz e da esperança. O salmista é claro ao apresentar-nos o vocabulário de Deus: paz, justiça, salvação, misericórdia e fidelidade. São palavras de esperança, de enorme sensibilidade humana e de atenção aos dramas pessoais. Existem muitas pessoas à espera de serem libertadas dos seus conflitos interiores e de falsas imagens de Deus. Não por acaso, no Evangelho, Cristo enviou os seus apóstolos a abençoarem e a curarem os doentes. É talvez esta a nossa primeira missão: libertar as pessoas e restituir-lhes a paz. Não sejamos, por isso, causadores de angústias e tensões nas comunidades cristãs. Anunciemos a paz! Na ausência deste espírito, como nos alerta Ignatios Hazim, patriarca de Antioquia, “Deus está distante, Cristo está no passado, o Evangelho é letra morta e a Igreja uma simples organização”.

2. Sejamos acolhedores e deixemo-nos acolher. Espantados com as palavras sábias de Jesus, os primeiros discípulos começaram a segui-Lo e ficaram curiosos sobre onde morava. Cristo, de imediato, convidou-os: “vinde e vereis” (Jo 1,39). Que as vossas palavras, caros sacerdotes, despertem o interesse pela casa de Deus. Falai ao coração, com palavras simples, sem artefactos ou altivez. Estou convencido de que a hospitalidade será, cada vez mais, um factor determinante para a credibilidade da Igreja. Isso significa acolher as pessoas naquilo que são e no ponto da caminhada em que estão. Não existem duas pessoas iguais e, por conseguinte, o acolhimento deverá ser preparado com todo o empenho. Fazei com que as pessoas se sintam em casa.

Ao mesmo tempo, deixemo-nos permanentemente acolher pelo povo que nos foi confiado e pelo presbitério. Sintamo-nos também em casa, começando, desde logo, por mim. Uma boa relação entre o bispo e o padre é essencial para o ministério. Neste sentido, gostaria de anunciar que no decurso do próximo ano pastoral tenho a intenção de visitar todos os sacerdotes. Será um encontro informal, familiar, sem esquemas ou trabalhos a elaborar. Move-me apenas o desejo de estar com os sacerdotes e de experimentar e proporcionar a alegria da comunhão. As palavras de S. Martinho de Dume, no livro Dos costumes, ilustram bem a minha intenção. “Quietíssima vida passariam os homens no mundo, se da natureza de todas as coisas desterrassem estas duas palavras: meu e teu”. A alegria e a comunhão que brota do ministério é um tesouro que nos une, um nós, e por isso tudo deve ser partilhado com simplicidade.

3. Sejamos despojados e livres. Quando Cristo ordena aos seus apóstolos que nada levem para o caminho, a não ser o bastão, não o faz por mera estratégia de gestão de esforços. A intenção é bem mais profunda. Despojar-se do que é supérfluo obriga-nos a centrar-nos naquilo que é essencial e, em certa medida, faz-nos depender, num bom sentido da palavra, dos outros. O despojamento ensina-nos a sermos agradecidos, a reconhecer o valor do que nos é oferecido e a testemunhar a simplicidade evangélica. Os pais, melhor do que ninguém, sabem que quando se dá tudo às crianças, sem qualquer esforço ou critério, rapidamente as coisas perdem o valor. Nunca nada é o bastante. O nosso país vive tempos de pobreza, as pessoas têm poucos recursos e ainda assim, da sua miséria, oferecem-nos tudo quanto podem. Sejamos agradecidos, administremos bem o nada de poucos, sejamos transparentes e Deus, vendo o vosso bom coração, dar-nos-á tudo.

Por outro lado, o despojamento far-nos-á homens livres. Para partir em missão temos de ser leves e ágeis, sem apego a coisas materiais ou compromissos. Não sabemos o dia nem o local onde Deus nos chama. Poderá ser aqui em Braga, mas também em qualquer outro lugar. Admiro, por isso, quem tem a liberdade interior de deixar tudo e partir em missão. Refiro-me, de modo particular, à equipa missionária da Arquidiocese de Braga a trabalhar na paróquia de Ocua, em Pemba, Moçambique. No final desta eucaristia será enviado em missão o casal Rui Vieira e a Susana Magalhães. Celebrarão o seu matrimónio em Setembro e depois partirão em missão. Como é bonito este testemunho! Agradeço ainda ao Pe. Paulino Carvalho que com eles partirá por mais um ano e a todos os outros jovens e sacerdotes que os precederam. O trabalho é exigente é ainda há muito por fazer. Estamos, neste momento, a trabalhar na construção da residência dos missionários, na escolinha das crianças e na formação de catequistas. Toda a ajuda é bem-vinda! Convido todos os leigos e sacerdotes a reflectirem nestes testemunhos evangélicos e, se for o caso, a disponibilizarem-se por um ano para este belo projecto.

De onde vem esta liberdade interior? Ela nasce, antes de mais, de uma saudável espiritualidade. Anuncio, neste sentido, que no próximo ano pastoral publicarei uma Nota Pastoral intitulada “Uma alma para o corpo da Igreja”. Será um texto que sublinhará a prioridade e a absoluta necessidade de vivermos uma profunda espiritualidade enraizada em Cristo. É na medida em que cuidamos da nossa alma e espírito que o corpo da Igreja cresce. Caso contrário seremos apenas e só funcionários do sagrado. Não gostaria de nos ver cair neste deserto espiritual e humano.

4. Sejamos padres e homens simples. No passado mês de Abril, o Papa Francisco pedia “sacerdotes normais, simples, humildes, equilibrados, mas capazes de se deixarem constantemente regenerar pelo Espírito, dóceis à sua força, interiormente livres – antes de tudo de si mesmos – porque movidos pelo «vento» do Espírito que sopra onde quer”. Simples não é ser banal, com critérios mundanos e sem dignidade. Simples é viver segundo um espírito evangélico, despojado de artefactos, com uma linguagem acessível, uma vida equilibrada, com capacidade de escuta e de diálogo. As pessoas estão saturadas de gente opaca, que vive sempre com esquemas, que não se compromete com nada nem mete as “mãos na massa”. Estão saturadas de um mundo fabricado! Desejamos ser líderes? Então tomemos o lugar dos mais simples, trabalhemos com eles. Não tenhamos medo do que as outras pessoas vão pensar. Preocupemo-nos somente com o que Deus pensa e vê em vós. 

Ao falar para nós, caros sacerdotes, falo também para todos os leigos. Falo com a experiência de uma longa vida ao serviço do Reino de Deus, como um pai que procura dar bons conselhos aos seus filhos. Hoje teremos de regressar a estes conselhos sem medo do que os outros poderão dizer. Devemos ser diferentes. Sabei que em mim, assim como nos vossos irmãos sacerdotes, encontrareis sempre um porto seguro. Une-nos o mesmo desejo de seguir Cristo e, quanto mais crescer a unidade entre todos nós, mais facilmente os problemas individuais se resolverão, tal como crescerão os frutos na pastoral e na vida espiritual. Peço a todos aqui presentes um compromisso sério com tudo quanto brotou deste Evangelho: palavras de paz e de esperança, hospitalidade, despojamento, liberdade e simplicidade.

Gostaria, por fim, de aproveitar esta ocasião para publicamente agradecer ao Sr. D. Francisco, nomeado arcebispo de Évora, pela sua presença entre nós ao longo dos últimos anos. A sua simplicidade, testemunho, a sua experiência e palavras sábias foram um sólido contributo para a evangelização da Arquidiocese. Em 2014, nesta mesma Cripta, pedi-lhe que se sentisse “como um de nós” e assegurei-lhe a nossa amizade. Hoje dou testemunho da sua dedicação à vida arquidiocesana, sobretudo através das visitas pastorais e da Comissão do Laicado e Família. Como repetiu diversas vezes, foi “trigo do Minho feito pão no Alentejo”. Em Setembro estaremos então todos em Évora para, em redor do altar, provar desse pão feito por duas arquidioceses irmãs. Muito obrigado!

Que Santa Maria de Braga e Nossa Senhora do Sameiro nos guarde, nos fortaleça e nos mostre os caminhos do seu filho para, cada vez mais, sermos sacerdotes à imagem de Cristo, herdeiros da Sua graça, e leigos conscientes da sua dignidade baptismal.

† Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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