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Pe. Jorge Vilaça | Braga| 18 Out 2018
Fui à guerra (e estava aberta)
Pe. Jorge Vilaça, CMAB
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  © Pe. Jorge Vilaça | Pemba, Moçambique

São 08h00. Vamos visitar pela primeira vez a escola (1ª ao 7ª ano). Fica no meio de um dos bairros. Para lá chegar precisamos de percorrer estradas imaginárias de terra batida, ziguezagueando as casas. Pelo caminho, disformes, dezenas de casas de pau-a-pique (cana de bambu) cobertas com capim (palha). É estranho que não haja casas com chapa nos telhados, o único sinal exterior de desenvolvimento nas aldeias. Ao som de um carro que passa, tudo pára: as mulheres, agarradas ao pilão, deixam de moer o milho; os homens, agarrados ao chão, olham, sem mais. Depois, as crianças, sempre as crianças, correm e agarram-se à parte traseira do carro. Paro. “We, sair daí. Vão magoar”, resmungo. Fogem. Mas voltam imediatamente. Ligo a tracção às quatro rodas para não arriscar uma vez mais ficar atolado. Sigo, novamente com a parte de trás do carro cheia de miúdos pendurados. São um todo de terra e roupa rasgada e suja. Perto da escola estão a consertar o “campo de futebol”. Melhor: estão a colocar vedação de palha para poderem cobrar a entrada no próximo jogo. Economia de subserviências e de sobrevivência.

A escola fica num local bonito. Por detrás das salas, ergue-se uma montanha de penedos que, se separados, parecem toscos; juntos, parecem delicadamente dispostos. Na parte da frente do edifício, estende-se um descampado térreo sem árvores, que serve de recreio. À paragem do carro, aparecem os professores e os alunos. Mantêm-se à distância, entre o temor e a curiosidade. Saudamos o professor, jovem, de esquadro numa mão e giz na outra. “Temos 888 crianças inscritas na escola”, diz. “Até 01 de Junho [dia da criança] a maioria ainda frequenta. Depois, deixam de aparecer” (o ano escolar é de Fevereiro a Novembro). Estão efectivamente na escola, naquela hora, talvez umas cem crianças. Entramos numa sala: são uns quarenta grandes olhos em cima de nós. “Bom dia!” – respondem temerosas mas rindo imensamente. Alguns têm caderno e mais nada. Outros não têm efectivamente nada. Continua o professor: “na minha sala [7º ano], 8 meninas já abandonaram por estarem grávidas...”. Espere: “8 meninas? De 12 anos?”, repito a mim mesmo. Nunca mais regressarão, sabemos todos. Nunca mais serão meninas. Nunca mais serão livres. Nunca mais sorrirão. Se obedecerem às estatísticas, metade estarão já mortas. Depois continua o professor: “crianças vão no vídeo e deitam tarde. De manhã, como não sabem as horas, dormem. Outras têm de deslocar ao rio para apanhar água. Chegam na escola às 10h00”, desabafa (vídeo: alguém comprou um gerador. Não há energia eléctrica pública. À noite colocam a rodar um filme na televisão e cobram um “bilhete de entrada”). Mas os pais são os principais visados: “Vão na machamba (hortas) e não deixam orientações aos filhos. Deixam andar assim mesmo”.

Deixamos a escola. Não vou em paz. Não posso ir em paz. A “guerra” está aqui, diante dos meus olhos. Fazemos mais umas dezenas de quilómetros. Vamos agora ao Centro de Saúde. Piorou a estrada: agora temos uma antiga estrada com pedaços de alcatrão e grandes buracos em terra. Damos boleia, pelo caminho, a algumas mamãs que iam na direcção do Centro de Saúde. Não sabem, não conseguem, não emitem... qualquer som. Nem à saída do carro. Não sonham com a saúde dos seus filhos. Paramos, numa sombra, perto do Centro de Saúde. À porta, está uma menina com um bebé nas costas, dentro da capulana (pano). Uns meses, terá a criança. Começa a falar com o tradutor que nos acompanha. Pergunto, sendo traduzido, quantos anos tem. “16”, responde. Insisto, “o filho é teu?”. “Sim”, acena. “Ela está a dizer que tem uma irmã mais nova que também já tem filho”, continua o tradutor. “Como?”, insisto sem querer ouvir a resposta. Não ouço a resposta. Não quero ouvir a resposta. Estou na guerra e está aberta.

Artigo publicado no Suplemento Igreja Viva de 18 de outubro de 2018.

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