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CMAB | Braga| 19 Out 2017
Missão em Pemba: um ano depois
Estiveram em missão em Pemba, Moçambique, perto de um ano. De regresso a Portugal, partilham as experiências vividas e aquilo que um “estilo de vida mais pobre pode oferecer”. Margarida, Davide e o Pe. Jorge Vilaça recusam qualquer estatuto de heróis e são unânimes ao dizer que pouco mudou na Paróquia de Ocua com a presença da equipa. Fez-se o mais importante: "Estar ao serviço das pessoas".
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  © Salama! | Ocua, Pemba, Moçambique

Qual foi a recepção da comunidade à vossa chegada?

[Pe. Vilaça] Foi, obviamente, uma recepção muito positiva. Os moçambicanos recebem naturalmente bem e as comunidades têm sempre um sorriso aberto para os missionários. Há, e sempre houve (sobretudo por parte do povo simples), uma estima muito grande pelos missionários. As expectativas eram grandes, sobretudo porque Ocua é uma paróquia do interior, com cerca de 100km de extensão e 96 comunidades cristãs, e não tinha assistência pastoral de forma continuada porque os religiosos (padres e irmãs) não são suficientes. Recordo que a Diocese de Pemba tem cerca de 600km...

[Margarida] Foi “esperada” e acolhedora! As comunidades da nossa Paróquia tinham “fome e sede” de assistência pastoral. Todos eles queriam conhecer-nos e dar-se a conhecer também.

[Davide] Nestes contextos as recepções são sempre muito calorosas: muita alegria, muita cor, muito batuque e ritmos. Também depois de já estarmos na missão, as visitas às comunidades da paróquia eram sempre muito bem acolhidas… O pouco que têm, usam-no para que nos possamos sentir melhor, por vezes até demais.

 

O que é que faz mais falta em Ocua?

[Pe. Vilaça] Em Pemba-Ocua, como em Portugal-Braga, falta sobretudo a concepção prática de um desenvolvimento integral que envolva todos e de que todos possam tirar proveito. No território da Diocese de Pemba (e na Paróquia de Ocua em concreto) como no território da Diocese de Braga, falta muita justiça social: poucos têm muito e muitos não têm nada. Falta ainda quem se importe com isso, quem congregue a força dos pobres (que são a maioria): cá, como lá, a pobreza dá muito dinheiro e é fácil calar os pobres com um pedaço de pão.

[Margarida] Entre outros problemas de injustiça e desigualdade, diria qualidade e igualdade de acesso à educação. O desenvolvimento de qualquer país, sobretudo dos países em vias de desenvolvimento, passa pela educação. Na província de Cabo Delgado, à qual a nossa paróquia pertence, por diversas razões, apenas uma reduzida percentagem das crianças frequenta a escola. Num país onde os níveis de literacia são bastante baixos, é extremamente importante a promoção da educação. É na escola que aprendemos a ler, a escrever, onde adquirimos conhecimentos e, sobretudo, é onde aprendemos a pensar e a ter espírito crítico... e isso é fundamental para promover a justiça social.

[Davide] Aos nossos olhos europeus, limito-me a dizer que falta dinheiro e ambição do povo. No meu entendimento, aos olhos dos próprios habitantes de Ocua, pouco ou nada faz falta, pois aceitam tudo aquilo que lhe possas oferecer, mas depois não se empenham em fazer crescer aquilo que lhes puseste nas mãos. No meu olhar, depois deste ano identifico uma grande necessidade de escolarização: incentivar os desinteressados e melhorar as práticas existentes. Também a alfabetização de adultos me parece estar um pouco abandonada. Creio que uma melhor formação escolar das pessoas irá ajudar a ultrapassar todas as grandes dificuldades sociais que hoje se vive em todo o país de Moçambique. No campo pastoral percebe-se uma enorme “fome” de padre. Identificámos também a falta de formação de responsáveis litúrgicos.

 

O que mudou com a vossa presença?

[Pe. Vilaça] Do ponto de vista teórico, possivelmente a única coisa que mudou efectivamente foi uma micro-parte do conteúdo da palavra “esperança”. Os cristãos de Pemba sempre esperam mas precisam de sinais... Creio que estamos a deixar sinais. O projecto ainda está no seu início e seria ingénuo e pretensioso crer que em tão pouco tempo algo de substancial tivesse mudado. Sinceramente preocupa-me mais o que porventura mudará na Diocese de Braga com esta cooperação missionária... seremos capazes de honrar o compromisso com os mais pobres?

[Margarida] Quase nada, senão somente o crescimento e a partilha cultural, humana e espiritual de duas culturas que, para além de um passado em comum, unem-se pela fé cristã.

[Davide] À primeira vista, pouco ou nada muda! Contudo, percebe-se que a presença da equipa missionária se torna fundamental para as comunidades… A proximidade da equipa com os cristãos fomenta o desenvolvimento das próprias comunidades cristãs locais. Essencialmente, percebia-se que com nossa presença as pessoas não se sentiam abandonadas pela Igreja.

 

Em que diferiu este projecto de outros de voluntariado que já tenham levado a cabo?

[Pe. Vilaça] Cada lugar e cada pessoa são sempre uma história (ainda) não contada. Confesso que Ocua me mostrou uma realidade mais crua do fosso das desigualdades sociais e religiosas. Por exemplo, do ponto de vista religioso, celebrar 2600 Baptismos em dois meses (recusando centenas de outros) faz pensar se somos honestos quando rezamos o Pai “nosso”... Não vale a pena exemplificar com os atentados aos mais básicos direitos humanos.

[Davide] Num projecto ad gentes, apenas tinha estado por uma vez em Angola pelo tempo de um mês (projecto de pequena duração com o grupo Diálogos – Leigos SVD para a missão, ligados aos missionários do Verbo Divino). Não há qualquer ponto de relação, pois nesse projecto íamos para fazer um trabalho específico com várias populações. Neste caso, o projecto Salama exige que vivas na própria missão, tendo todas as tarefas de uma paróquia.

 

O que mais vos marcou pela positiva?

[Pe. Vilaça] A experiência de liberdade que um estilo de vida pobre nos pode proporcionar.

[Margarida] Um estilo de vida que nos dá a oportunidade de saborear o dia, sem rigorosos horários, pressas nem stress.

[Davide] As relações criadas. Infelizmente é uma missão muito longe daqui e onde as pessoas não têm muito acesso aos novos meios de comunicação. Contudo, o telefone é algo já muito bem implementado que me faz acreditar que será possível continuar a cultivar essas relações iniciadas. Conhecer outras equipas missionárias trouxe-me também alguma riqueza.

 

Sentiram-se sempre apoiados por quem ficou cá?

[Pe. Vilaça] No essencial senti-me apoiado. Obviamente que a quantidade de email’s, sms’s e telefonemas desceram abruptamente. Mas é natural dada a distância física.

[Margarida e Duarte] Sim.

 

Que planos têm agora que regressaram?

[Pe. Vilaça] Os planos de sempre: estar ao serviço das pessoas. A única preocupação acrescida é trabalhar para não trair o que os meus olhos experimentaram.

[Margarida] Pôr em prática na nossa vida aquilo que aprendemos da nossa experiência lá.

[Davide] Retomar a vida aqui. Neste momento não há grandes planos ainda, mas, pouco a pouco, creio que tudo irá normalizar.

 

O vosso olhar sobre a vida mudou depois desta missão?

[Pe. Vilaça] Mudou, obrigatoriamente. Sobretudo porque há experiências-limite que me fazem repensar “por que corro” e “para que corro”. Preocupo-me cada vez mais pelo “tu-a-tu” e cada vez menos pelo indicador “sucesso”.

[Margarida] Obviamente. Diria que é quase impossível o contrário.

[Davide] Eu não o sinto, mas sei que há um crescimento, tal como já vinha acontecendo. Esta é uma questão que devem ser os outros a responder sobre nós.

 

O padre Vilaça antes de partir disse ao Igreja Viva que o maravilhava a organização de uma Igreja como a de Pemba, que não dependia de um padre. Deveríamos ver comunidades assim como um exemplo?

Não diria como “exemplo”. São contextos diferentes, não comparáveis. Acho mais apropriada a palavra “desafio”. Isso sim, a Igreja de “Pemba” deixa-nos vários desafios: a importância da aposta nos ministérios laicais (sem que daí venha “mal ao mundo” nem se perca a fé, antes pelo contrário). O cristianismo em Moçambique, além de ser uma religião minoritária e ainda de recente fundação (sobretudo comparada com Braga) tem uma história semeada de mártires: pessoas muito simples que se mantiveram firmes até ao fim.

Por outro lado, o desafio de uma Igreja que continua a apostar nas comunidades de base (pequenas comunidades) que, dentro de si mesmas, com defeitos e virtudes, encontram os mecanismos de serviço, de equilíbrio e de aproximação ao Evangelho. Por último, o desafio de uma Igreja economicamente muito pobre, que caminha como voz de Cristo e dos pobres, mas muito livre em relação aos poderes instalados.

 

Davide: O que pode um arquitecto fazer por uma comunidade “isolada” (bastante longe da cidade mais próxima) como esta?

Não fui enviado nesta missão com o objectivo de trabalhar arquitectura em Ocua mas, como apaixonado pela área, estava sempre disponível para colaborar. Foi neste sentido que elaborei um projecto para a ampliação e recuperação da casa da missão de Ocua, fiz alguns pequenos projectos para a Diocese de Pemba e partilhei alguns aspectos técnicos para a resolução de problemas numa igreja construída numa missão dos Missionários do Verbo Divino. Contudo, tenho de ser humilde em reconhecer que os métodos e meios disponíveis nas comunidades mais isoladas são bem diferentes daqueles a que estamos acostumados aqui em Portugal. Por isso, apesar de já ter tido algum contacto no meu percurso profissional, posso partilhar que fica um sentimento de pena por não se ter proporcionado um maior envolvimento com as construções tradicionais, que me iria trazer melhor aprendizagem e experiência real.

Em todo o caso, mais do que os aspectos construtivos, o arquitecto pode ter uma importante tarefa em ajudar a pensar melhor os espaços das casas que constroem, partindo das necessidades das pessoas. Percebe-se que as construções não surgem de uma resposta moldável às necessidades de cada família. Em vez disso, em resposta à necessidade de abrigo, as pessoas constroem casas semelhantes às que sempre conheceram dos seus antepassados. Se não houver uma resposta ajustável às necessidades de cada família, as casas no “mato” terão sempre dois ou três compartimentos, sendo a família que se ajusta à sua medida. No fundo, deveria existir o “pensar” antes do “fazer”, em vez do “fazer” porque é assim que todos o fazem. No entanto, reconheço a boa criatividade em muitas construções que fui apreciando.

Também no aperfeiçoamento das técnicas construtivas pode ser feito um excelente trabalho, mas, para isso, primeiro é fundamental conhecer bem as técnicas já existentes. Com isto, poderemos também chegar ao melhoramento da própria robustez das próprias construções, usando sempre os recursos locais.

Já numa fase final, tive a oportunidade de visitar a obra de uma casa. Esta família estava a construir uma casa mais sólida, utilizando já o tijolo queimado. No entanto, fez mal as contas, e a casa ficou um pouco maior, necessitando de mais tijolos do que os produzidos. Isto implicou que a família precisasse de angariar mais dinheiro para poder concluir a casa. Muitas vezes as construções obrigam a um esforço da família para vender mais produtos das suas colheitas. Podem passar até por momentos fome! Assim, parece-me que também na previsão de tudo o que se vai necessitar para uma construção, a colaboração dada pelo arquitecto pode ser muito útil.

 

Margarida, foi a primeira vez que partiste em missão para o exterior de Portugal, ainda por cima durante um longo período de tempo. Pretendes repetir a experiência?

Porque não?!

 

Artigo publicado no Suplemento Igreja Viva de 19 de outubro de 2017.

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