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Vila Nova de Famalicão | 3 Mar 2020
Quaresma um caminho de esperança!
"É necessário olharmos para o alto da Cruz com os olhos bem abertos, e enxergar sem miopia, que o Homem suspenso e morto naquele madeiro é a própria Vida de Deus."
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Eis que chegamos ao segundo tempo forte do calendário litúrgico: a quaresma! Urge, então, a necessidade de nos preparar para palmilhar este novo caminho: exigente e duro aos olhos sensíveis da carne, jugo suave no espírito bem vivido do crente. Paradoxal esta minha ousada afirmação! Sim, no mínimo leva-nos a questionar como é possível tal ambivalência, quando os 40 dias que agora se iniciam se vestem de cores tristes, a começar pelas alfaias litúrgicas; se silenciam os cânticos alegres que anunciam a boa nova, nomeadamente a aclamação do Aleluia; exorta-se alto e a bom som a prática do jejum e a penitência; e sem piedade a Palavra litúrgica fala-nos da terrível Paixão de Jesus!

Em primeiro lugar, temos de entender que a Quaresma oferece-nos a experiência da união a Cristo, em que nos coloca lado a lado no seu derradeiro caminho como Homem que se dá em plenitude. Não numa perspectiva meramente humana, não numa exigência de actos absurdos de penitências exteriores. Ele próprio o disse: «quando jejuardes, não mostreis ar sombrio como os hipócritas (…) perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas apenas do teu Pai que está presente no oculto» (Mt 6, 16-17). Cristo pede-nos que vivamos com Ele a via sacra no coração: coroando-nos com os espinhos do perdão mais difícil; flagelando-nos com a compaixão e o carinho àquele que nos trata com indiferença; cravando-nos na cruz com a caridade da partilha, mesmo exígua com quem não tem, com a paciência a quem nos bate à porta em horas inoportunas, com a oferta da outra face, mesmo estando cobertos de razão. Esta é a verdadeira penitência quaresmal.

Depois é necessário olharmos para o alto da Cruz com os olhos bem abertos, e enxergar sem miopia, que o Homem suspenso e morto naquele madeiro é a própria Vida de Deus. A Vida que nos dá a Vida. Se nos entristece ver Deus ferido, choremos copiosamente de alegria, e vivamos a eterna Esperança, conscientes que foi preciso Deus conhecer as profundezas do Hades, para se tornar Pão, que nos alimenta e está de forma perene connosco, na presença Real da espécie eucarística. Digamos-lhes com confiança: Senhor dormes sobre o Corpo que deste à morte/ para nos dares o Corpo da Vida (Gonçalves, Catarina, A Cruz, in Saltério para o Encontro, p. 32).

Por último, é essencial, hoje mais que nunca, aprendermos a viver e conviver com o sofrimento, de forma natural, e vê-lo na sua dimensão positiva, mesmo que as quedas sejam duras, porque é na fraqueza que aprendemos as grandes lições da vida. Olhai para Simão de Cirene ao minimizar o sofrimento de um condenado, que já não tinha salvação! Admirai a coragem de Verónica, a romper a força bruta da soldadesca Romana, só para limpar o rosto desfigurado e feio de Cristo. Senti a força e o amor maternal de Maria, a aproximar-se do Filho quase retalhado e condenado à Morte!

 Este é o tempo oportuno que nos conduz à meditação, à reflexão e à oração dentro de nós mesmos! Deixo-vos uma pequena ferramenta que vos poderá ajudar nesta caminhada quaresmal, da autoria de Karl Rahner (in Sobre a experiência da Graça):

·          «Já alguma vez nos calámos apesar da vontade de nos defendermos, sobretudo se nos trataram injustamente?

·          Perdoámos alguma vez, apesar de não termos por isso nenhuma recompensa, e quando o perdão silencioso, sem dizermos nada, era aceite como evidente?

·          Tentámos, alguma vez amar a Deus quando não nos impele uma onda de entusiasmo sentimental, quando não nos podemos confundir com Deus, nem confundir com Deus o próprio impulso vital, quando parece que se vai morrer desse amor, quando esse amor se parece com a morte e a negação absoluta, quando parece que grita no vazio e no totalmente inaudito, como um salto terrível para o abismo sem fundo, quando tudo parece inacessível e aparentemente absurdo?

·          Fomos, alguma vez, bons para com alguém quando não se previa qualquer eco de agradecimento nem de compreensão, e sem que fôssemos recompensados sequer com o sentimento de ter sido «desinteressados», decentes, etc?» 

Desejo, que no final desta quaresma, entremos na festa da Páscoa exaustos, exaustos de amor e lhe digamos, de coração sincero, ao Ressuscitado que nos entra em casa: deixa-me [agora] reclinar a cabeça,/dentro de mim mesma,/ sobre o Teu peito (Gonçalves, Catarina, Hospedei-Te, o.c., p. 18).

Catarina Gonçalves

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